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Os outros lugares da ciência: cultura e produção do conhecimento

Por Murilo Melo

Quem estabeleceu que a ciência mora apenas na academia? Quem decidiu o que conta como conhecimento?

Algumas indagações surgem de maneira emergencial, problematizando um apagamento cultural histórico vivenciado pelo nosso país. É fato que há uma colonialidade do saber; do contrário, não haveria determinação sobre os conhecimentos que deveriam ser considerados. Mas não existe uma única forma de conhecer e explicar o mundo, as coisas, as pessoas, a cultura…

Não nos faltam laboratórios, periódicos ou pesquisadores, mas, durante muito tempo, aprendemos a procurar e divulgar o conhecimento científico sempre no mesmo lugar. Enquanto isso, ele atravessava estradas de chão, caminhava por feiras livres, negociava frutas frescas, cantava aboios no sertão, brincava o reisado em janeiro, benzia crianças, plantava sementes crioulas, construía cercas com trançados de varas e sobrevivia, silenciosamente, do lado de fora dos muros acadêmicos.

Se pararmos para pensar, o que dizem as cores das quadrilhas juninas sobre o povo? O que contam os aboios além da condução do gado? Que conhecimentos carregam o repente, o samba de palma, a cantiga de roda, a receita repetida por gerações, a parteira, a rendeira, o mestre de cultura? Essas questões nos conduzem a uma inversão da lógica à qual nos acostumamos. As perguntas sempre foram sobre o que a ciência sabe sobre tudo.

Eliane Brum diz que o Brasil perdeu os ouvidos para os sons do conhecimento antigo, para a toada de suas experiências. Quando fala da Floresta das Parteiras, ela diz que muitas desconhecem as letras do alfabeto, mas leem a mata, a água e o céu. Durante séculos, a ciência voltou seus olhos para esses saberes e protagonizou a disseminação do conhecimento. A ciência aparecia desvendando, entendendo, explicando, provando e, pior, descobrindo. Catalogou manifestações, registrou costumes, descreveu tradições, produziu artigos, teses e livros sobre quilombolas, povos indígenas, comunidades sertanejas, pescadores, artesãos, benzedeiras, vaqueiros… E, apesar da relevância, talvez ainda exista uma fronteira invisível: a ciência continua estudando essas culturas mais do que aprendendo com elas. Há uma diferença entre pesquisar um povo, uma cultura, um território e reconhecer o conhecimento produzido por eles, reconhecê-los como os verdadeiros protagonistas, detentores de saberes e tradições constitutivas que compõem sua cultura, ao mesmo tempo em que os compõem.

Nos últimos anos, algo começou a mudar. A academia passou a ser ocupada por corpos que antes eram mantidos distantes. Quilombolas, indígenas, sertanejos, ribeirinhos, povos do campo, estudantes das periferias, trabalhadores, mulheres, pessoas negras, pessoas trans… sujeitos historicamente silenciados passaram a escrever ciência sobre suas próprias vidas. Não trouxeram apenas novos temas de pesquisa. Trouxeram novas perguntas, novas formas de conhecer. Os “objetos de estudo” agora estudam a si mesmos e publicam cultura. Essa nova dinâmica garante o preenchimento de lacunas, antes burocratizadas, engessadas por um rigor científico que limitava o conhecimento usando desculpas esfarrapadas, forjadas pela colonização.

Ainda que engatinhemos hoje, o conhecimento científico tem recalculado seus dogmas e flexibilizado seus limites. Tal movimento tem possibilitado à cultura brasileira ocupar espaços antes impossíveis. O lugar de fala é epistemológico, e a nossa identidade modifica as perguntas que fazemos. Nossa memória redefine aquilo que julgamos importante investigar. Nosso território muda o modo como interagimos com a natureza, com a sociedade, com o mundo. Por que desvincular-se disso para produzir conhecimento?

No meu Nordeste, aprendi que as manifestações culturais e os costumes do meu povo entrelaçam os vieses de nossa identidade e nos constituem enquanto gente. Quando peço a bênção à minha mãe, e ela, antes de mim, pedia à mãe dela, gerações inteiras se encontram. Quando vi um vaqueiro conduzir o gado no compasso de um aboio, ou um repente transformar o cotidiano em poesia, ou o reisado atravessar janeiro, colorido, cantante, brincante, entendi quem sou, quem somos.

Meu lugar, nosso lugar, semeia gente antes mesmo de semear alimento. Semeia cultura, poesia, memória e pertencimento. Nosso lugar, nossa cultura, dialogam com a construção do nosso cerne identitário e nos fazem, nos produzem. Somos atravessados pelo lugar onde vivemos e atravessamos o nosso lugar, dialeticamente, dialogicamente. Nós dialogamos em “interiluminação”. Cada geração acrescenta uma palavra à longa conversa iniciada muito antes de nascermos. E não há motivo para tirar da ciência esse poder. Essa potência de nos caracterizar, de nos entender, de nos estudar e aprender e com isso, novas maneiras de dizer, de fazer, de mostrar.

A valorização da diversidade cultural contribui para o desenvolvimento de políticas inclusivas. A pluralidade de perspectivas, oriundas de diferentes culturas e comunidades, enriquece o processo de formulação de políticas, garantindo que estas atendam às necessidades específicas de cada contexto. Essa abordagem colaborativa é fundamental para promover justiça ambiental e social.

Quando um vaqueiro canta, ele organiza uma memória coletiva. Quando uma artesã tece a palha, ela preserva um território. Quando um cordelista rima o território, a experiência, ele transmite muito mais que uma dança. Ali existem método, observação, repetição, criatividade, experimentação, ética, linguagem e pertencimento.

A cultura, ou melhor, a identidade cultural de um país, é um abraço dado no conhecimento, seja ele científico ou não. Ela se constrói tanto pelos muros que levantamos quanto pelos que escolhemos derrubar. Nosso país é diverso, e a diversidade nunca enfraqueceu uma sociedade. Na verdade, foi ela que tornou, e torna, possível sua reinvenção. Se a cultura nos ensina quem somos, talvez seja nela que a ciência encontre não apenas novos objetos de estudo, mas novas formas de conhecer, fortalecendo os povos, seus territórios e os futuros que ainda desejam construir.

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Last modified: 13/10/2026

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