Written by • 08:59• ARTIGO

A geografia do Adeus: as culturas das despedidas.

Artigo por Daise Priscila

Alguns usam preto. Outros, branco, outros ainda o colorido. Alguns buscam palavras; outros, o silêncio; há quem queira ainda somente um abraço. Não existe fórmula certa, nem decoro adequado. O que de fato existe é uma palavra que toda língua do mundo precisou inventar. Não importa o alfabeto, o continente, o século. Toda civilização que já respirou teve de encontrar sons para dizer: você vai, e eu fico. O adeus não é um evento. É uma arquitetura, uma geografia, um costume, uma cultura. E cada povo construiu a sua. A viagem pode nos levar a diversas formas de dizer adeus, não somente pelo que se sente, mas pelo que se demonstra.

Joan Didion abriu “O Ano do Pensamento Mágico” com uma ideia que deveria estar gravada em algum muro de pedra: a de que a vida muda depressa, muda num único instante e que basta sentar-se para jantar para que a vida que se conhecia chegue ao fim. Ela escreveu sobre a perda do marido, mas escreveu, sem saber, sobre todos nós. Porque o luto não é um estado de exceção, é uma das condições permanentes de estar vivo.

No Brasil, antes que o século XX chegasse com seus costumes importados, havia mulheres que faziam do pranto uma arte e da dor um ofício. Chamavam-nas de carpideiras. Elas eram contratadas para chorar. Vestiam-se de negro, cobriam o rosto com véus espessos, posicionavam-se junto ao caixão e então abriam a garganta para o mundo: gemidos longos, soluços medidos, lamúrias que subiam pelos corredores das igrejas como fumaça de incenso. Não era fraude, era liturgia. A família enlutada muitas vezes não conseguia chorar, paralisada pelo choque. As carpideiras choravam em nome de, como procuradoras do luto alheio.

A tradição chegou ao Brasil por Portugal, mas é muito mais antiga: pranteadeiras profissionais existiram em quase todo o mundo antigo, no Egito faraônico, entre os hebreus (as mekonenot de que fala o profeta Jeremias), na Grécia e, sobretudo, em Roma, onde as praeficiae eram pagas para conduzir o lamento fúnebre. No Oriente Médio, ainda hoje, em algumas comunidades, as na’iha, também chamadas naddaba no Egito, mantêm viva essa função de testemunha sonora da morte. É um trabalho que nenhum manual de recursos humanos jamais descreveu, mas que exige, talvez, mais humanidade do que a maioria das profissões modernas. Elas foram desaparecendo na medida em que o luto foi sendo domesticado, privatizado e medicalizado. Hoje se oferece ansiolítico onde antes havia canto. Ainda falando da terrinha, Portugal, e cada vez mais no Brasil, na França e na Espanha, surge uma figura que ressignifica o acompanhamento dos moribundos: a doula da morte, ou death doula. Como a doula que assiste ao nascimento, ela assiste à passagem. Não é enfermeira. Não é padre. É uma presença. Ela senta ao lado de quem está morrendo e de quem está vendo alguém morrer. Ajuda a redigir cartas que ficarão, a escolher a música que tocará no velório, a conversar sobre medos que a família não consegue nomear. Em Portugal, o movimento tem crescido, organizado em torno de princípios laicos e humanistas: a morte como fenômeno da vida, não como punição nem como mistério inenarrável.

Há algo arcaico e revolucionário nisso ao mesmo tempo. É o reconhecimento de que morrer bem é uma habilidade que a cultura moderna esqueceu de ensinar e que talvez precise de mãos para ser reaprendida. Enquanto o Ocidente recente aprendeu a esconder a morte nos hospitais e a abreviar o luto, há culturas que fazem exatamente o oposto: celebram. Em Gana, os funerais são eventos que podem durar dias. Os caixões, e aqui chegamos a uma das tradições mais extraordinárias do mundo – são encomendados sob medida e esculpidos em madeira na forma daquilo que o morto amava ou representou em vida. Um pescador é enterrado num caixão em formato de peixe. Um agricultor, numa espiga de milho ou numa vagem de cacau. Um taxista, num automóvel. Uma costureira foi sepultada numa máquina de costura; um chefe de família, no leão que era o totem de seu clã. Há morte, mas há também a mais pura afirmação de identidade. Eu existi. Eu fui isso.

Nas Filipinas, o povo Kankanaey, do grupo Igorot, nas montanhas de Luzon, manteve por séculos o costume, hoje cada vez mais raro, de fixar os caixões nas paredes de penhascos. Acreditava-se que, quanto mais alto o morto fosse colocado, mais próximo estaria dos ancestrais e das nuvens e, ao mesmo tempo, mais protegido dos animais e das cheias. A altura era também um sinal de respeito, reservada aos anciãos. Corpos que parecem voar, suspensos entre o mundo dos vivos e o que vem depois.

No México, o “Día de los Muertos”, que Octavio Paz, em “O Labirinto da Solidão”, analisou com precisão cirúrgica e transformou o cemitério em mesa farta. Flores de calêndula, fotografias, tequila, tamales. Segundo Paz, enquanto para o habitante de Nova York, de Paris ou de Londres a morte é uma palavra que quase não se pronuncia, o mexicano convive com ela, brinca com ela, acaricia-a, sem se esconder nem escondê-la. Não é niilismo: é uma intimidade que o Ocidente perdeu e que, em momentos de pandemia e colapso, sente falta sem saber nomear.

Em Bali, os funerais são procissões coloridas e ruidosas. As famílias constroem torres elaboradas de bambu e papel para carregar o corpo na procissão de cremação, o ngaben. Nos cruzamentos do caminho, giram a torre várias vezes, deliberadamente, para desorientar os espíritos maus e impedir que a alma seja seguida de volta para casa. A procissão, por sua vez, é barulhenta e festiva (rir, cantar e correr fazem parte do ritual): uma celebração da libertação da alma. A morte, aqui, exige que os vivos estejam vivos.

Enquanto certas culturas esculpem a morte em madeira preciosa, o mundo contemporâneo começa a propor outra equação: e se o caixão pudesse devolver à terra mais do que retira? Os caixões biodegradáveis, feitos de bambu, papelão reforçado, palha trançada e cogumelos, são hoje uma realidade comercial em crescimento na Europa, no Canadá e nos Estados Unidos. A empresa holandesa Loop Biotech lançou o “Living Cocoon”, um caixão feito inteiramente de micélio (a rede de filamentos que forma o corpo vegetativo dos fungos), que não apenas se decompõe rapidamente, como ativamente auxilia na decomposição do corpo e na nutrição do solo. O fundador, Bob Hendrikx descreveu a proposta como uma reflexão sobre morrer não ser mais uma forma de poluir, mas de tornar-se parte da terra que te acolhe no fim. Há também o caixão-árvore: a Capsula Mundi, concebida pelos designers italianos Anna Citelli e Raoul Bretzel, propõe colocar o corpo em posição fetal dentro de uma cápsula orgânica, enterrada sob uma muda de árvore escolhida pela família. Por enquanto, a versão para o corpo inteiro ainda é um protótipo (só a cápsula para cinzas existe de fato), mas a imagem que oferece é poderosa. A morte, aqui, não é fim: é semente.

E então há os caixões que se assinam. No Reino Unido e em alguns países escandinavos, é crescente a prática de oferecer caixões de superfície lisa onde amigos e família podem escrever com marcador permanente: palavras, poemas, desenhos, piadas internas, declarações de amor mal resolvidas. O caixão vira carta. O adeus vira texto. E o texto, como sempre, sobrevive.

Em japonês existe a palavra mono no aware, muitas vezes traduzida como “a melancolia das coisas”, ainda que esteja mais próxima de “o pathos das coisas”: a comoção e a beleza, que nascem exatamente da transitoriedade. As flores de cerejeira são belas porque caem. A lua é bela porque muda. E as pessoas, talvez, são amadas mais intensamente porque sabemos, desde o início, que vão embora. É com essa consciência que o Japão elaborou o kotsuage: após a cremação, os ossos do morto são recolhidos com longos palitinhos pelos familiares (muitas vezes dois parentes segurando o mesmo osso ao mesmo tempo, ou passando-o de palitinho a palitinho) e transferidos para uma urna. É o único momento em que esse gesto é permitido; à mesa, passar comida de palitinho a palitinho é tabu, justamente porque evoca este rito. Cada fragmento é manuseado com cuidado, como se fosse possível ainda tocar aquela pessoa que se foi. Há algo insustentável e profundamente humano nisso.

Existem muito mais formas. Este texto é só um prólogo do assunto. Uma pequena conversa. 

Os adeus que inventamos não são para os mortos. São para nós. São a maneira que a espécie encontrou de continuar respirando depois que alguém deixou de respirar. São a gramática do que não tem palavras. E talvez a civilização mais avançada não seja aquela que eliminou a morte dos hospitais, dos cemitérios e das conversas de jantar, mas aquela que aprendeu a sentar com ela, a dar-lhe um nome, a escrever no caixão, a plantar uma árvore, a chorar em voz alta, a fazer festa. A que aprendeu, enfim, que o adeus não é o fim da história.

Visited 1 times, 1 visit(s) today

Last modified: 19/10/2026

Close

Receba em primeira mão as novidades da revista

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.