Por Alex Brito

Em livro, a pesquisadora baiana aproxima sua trajetória profissional das experiências de mulheres do campo e lança luz sobre seus desafios, saberes e contribuições para o desenvolvimento rural sustentável.
O trabalho de quem vive no campo nem sempre recebe o reconhecimento que merece. Entre plantações, comunidades pesqueiras, territórios quilombolas e assentamentos rurais, mulheres sustentam famílias, produzem alimentos, preservam conhecimentos e movimentam economias locais. Ainda assim, muitas enfrentam dificuldades para acessar políticas públicas, ampliar sua autonomia e ocupar espaços de decisão. É nesse contexto que se insere “Tecendo Redes de Economia Solidária com Mulheres Rurais”, livro de Seonária Costa Santana, pesquisadora baiana cuja trajetória profissional se entrelaça com as questões que orientam a obra.
Nascida em 22 de novembro de 1985, em Valença, no território do Baixo Sul da Bahia, Seonária — conhecida carinhosamente como Nara ou Narinha Costa — construiu seu caminho entre os estudos, o trabalho e a descoberta de sua vocação. Filha de Cláudia, mulher que trabalhou como doméstica para sustentar os filhos, ela cresceu em uma família que conheceu de perto os desafios da vida cotidiana e a importância de buscar novas possibilidades. Desde cedo, encontrou na educação uma oportunidade de ampliar horizontes, mesmo quando o futuro parecia conduzi-la por caminhos diferentes daqueles que havia imaginado.
Sua aproximação com o campo começou ainda na formação técnica. Depois de estudar em escolas públicas, ingressou na Escola Média de Agropecuária Regional da CEPLAC (EMARC), onde concluiu o ensino médio e o curso técnico em Agropecuária. A experiência abriu as portas para o trabalho rural: primeiro, em uma empresa de carcinicultura, dedicada à criação de camarões; depois, em uma cooperativa de trabalho, na qual assumiu a função de coordenadora de campo. Foi nesse percurso que a relação com o meio rural deixou de ser apenas uma possibilidade profissional e passou a orientar suas escolhas.
Embora desejasse cursar Agronomia, as condições de acesso ao ensino superior naquele período a levaram à licenciatura em Pedagogia, realizada em uma instituição particular. A mudança de rota, no entanto, não significou afastamento de seu interesse pelo campo. Ao contrário, a formação ampliou suas perspectivas de atuação e ajudou a aproximar educação, desenvolvimento social e realidade rural. Na extinta Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA), Seonária consolidou a certeza de que queria trabalhar com Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER), atividade que lhe permitiu conhecer mais profundamente as comunidades do campo e sua importância para o desenvolvimento sustentável e a produção de alimentos.
A busca por conhecimento continuou com duas especializações: Gestão Pública e Sociedade, com ênfase em Economia Solidária, pela Universidade Federal do Tocantins (UFT), e Gestão do Desenvolvimento Territorial, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ao longo desse caminho, também coordenou projetos como o de Assistência Técnica e Extensão Pesqueira e Aquícola (ATEPA/CAA). Cada experiência ampliou sua compreensão das relações entre território, organização coletiva, políticas públicas e condições de vida das populações rurais.
Foi, sobretudo, no trabalho ligado ao Núcleo de Desenvolvimento Territorial (NEDET), desenvolvido em parceria entre o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), que as mulheres rurais passaram a ocupar o centro de sua atenção profissional e acadêmica. Nesse contato, Seonária aprofundou o olhar sobre os obstáculos enfrentados por agricultoras familiares, assentadas, marisqueiras e mulheres quilombolas, especialmente no acesso à educação, ao conhecimento sobre programas sociais e à participação em espaços historicamente marcados por desigualdades de poder.
É desse encontro entre atuação profissional e investigação acadêmica que nasce o livro. A obra está vinculada à pesquisa desenvolvida por Seonária no mestrado na área de Extensão Rural e expressa um interesse construído ao longo dos anos: compreender as realidades das mulheres do campo e reconhecer sua participação no desenvolvimento dos territórios. Mais do que uma escolha temática, essa investigação dá continuidade a uma experiência de trabalho que a aproximou das demandas, das limitações e das formas de organização dessas mulheres.
O título, Tecendo Redes de Economia Solidária com Mulheres Rurais, aponta para uma dimensão importante desse debate: a força das iniciativas coletivas e das relações que permitem às comunidades construir alternativas para seus próprios desafios. A economia solidária, nesse horizonte, está ligada à possibilidade de fortalecer formas de cooperação, ampliar oportunidades e valorizar o conhecimento de quem vive e trabalha no território. Ao colocar as mulheres rurais em evidência, a obra contribui para uma conversa necessária sobre reconhecimento, participação e desenvolvimento sustentável.
A trajetória de Seonária também revela que o conhecimento não se produz apenas à distância, a partir de conceitos e documentos. Ele ganha outras dimensões quando se aproxima das pessoas, acompanha suas experiências e considera as condições concretas em que vivem. Sua atuação na extensão rural e sua dedicação à pesquisa mostram a importância de aproximar universidade, políticas públicas e comunidades, para que os saberes produzidos possam dialogar com as necessidades de quem está no campo.
Atualmente, Seonária cursa doutorado em Agroecologia e Desenvolvimento Territorial na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Campus III, dando continuidade a um percurso que combina formação acadêmica e compromisso com a realidade rural. Sua caminhada também foi atravessada por desafios pessoais significativos: em 2021, sobreviveu à Covid-19 e, no ano seguinte, a um acidente vascular cerebral hemorrágico. Hoje, segue sua formação e seu trabalho, reafirmando, pela própria trajetória, a possibilidade de continuar construindo caminhos mesmo diante de circunstâncias adversas.
Ao apresentar Tecendo Redes de Economia Solidária com Mulheres Rurais, Seonária Costa Santana amplia a visibilidade de um tema que merece atenção permanente: o papel das mulheres na vida econômica, social e cultural do campo. Reconhecer esse protagonismo significa olhar para além da produção de alimentos e compreender as redes de trabalho, conhecimento, cuidado e organização que sustentam os territórios. É também reconhecer que o desenvolvimento rural se torna mais consistente quando as mulheres que o constroem têm suas experiências ouvidas, seus direitos fortalecidos e sua participação valorizada.
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Last modified: 19/10/2026





