O poder subversivo das histórias em quadrinhos.

Desde os primórdios da humanidade, a relação do homem com a arte esteve praticamente intrínseca. Antes da palavra escrita, os desenhos surgiam como forma de catalogar, contar histórias, descrever, etc. Sendo o desenho uma das principais e mais antigas formas de expressão do homem, desde a Idade Média existem catalogadas artes sequenciais que foram, sem dúvida, um pontapé para a união da arte e escrita, surgindo assim, alguns anos depois, a História em quadrinhos. Podendo ser chamada de comics (Estados Unidos), mangá (Japão), bande dessinée (França), historietas ou tebeos (Países hispanos), as histórias em quadrinhos, sem dúvida, já fizeram parte da sua vida, seja de forma direta ou indireta.

Comemorando-se dia 30 de janeiro o Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos no Brasil, fica inadiável a necessidade de fazer uma retrospectiva sobre esse assunto e, sobretudo, enfatizar o poder subversivo e inovador que essas histórias já promoveram e/ou promovem.

Quem nunca teve contato com as falas marcantes de Mafalda? Ou as aventuras inesquecíveis da Turma da Mônica? A retrospectiva da HQ exige pensar sobre seu caráter político e social, já que, desde seu surgimento, a língua escrita e a arte que em geral era, ainda, direcionada à elite, passou a ser também divulgada a semianalfabetos, imigrantes, a população mais pobre. A união de desenho e escrita tornava a mensagem, então, inteligível ao público.

A primeira HQ brasileira, denominada “As aventuras de Nhô-Quim”, foi uma criação de ngelo Agostini em 30 de janeiro de 1869, no Jornal Vida Fluminense. Ele, o precursor homenageado nessa data, traz uma história sequenciada com legendas abaixo das imagens e, com humor, Agostini aborda a primeira viagem de trem de Nhô-Quim. Desde essa época, obviamente muito mudou na estrutura dos comics; hoje além dos diversos balões nas falas dos personagens, temos o uso de sinais gráficos para traduzir sons, uma progressão temporal mais bem distribuída, a inclusão das cores que dão uma grande diferença no resultado final e, por fim, o tom e os temas trazidos.

Antes esse gênero que trazia de forma predominante o humor – claro que o riso também é um ato revolucionário – passa a abordar temas polêmicos, incorporar nos desenhos o contexto social – isso feito tanto no registro escrito das falas dos personagens, quanto no tipo de roupa dos personagens, seus comportamentos, etc.

Outro dia conversando com um grande amigo meu, antes mesmo de pensar sobre o tema da minha coluna nessa edição, ele me revelou sobre o quanto os HQs marcaram sua infância, mas, principalmente, a fase adulta. Me relatou sobre a quantidade de coisas que aprendeu e aprende sobre o mundo, as pessoas e temas específicos – como quando ao ler um mangá, aprendeu uma série de coisas sobre anatomia humana, ou o primeiro HQ que visualizou personagens homossexuais e negros, dentre tantas outras possibilidades.

Por isso, fica evidente que esse conjunto de pequenas histórias não param em alguns traços e palavras previamente selecionadas. As HQs têm sim o poder de subverter um sistema social injusto e preconceituoso acessando todos os tipos de públicos-alvo de forma rápida e profícua – sobretudo nessa geração virtual que exige, para que se prenda a atenção, textos cada vez mais curtos e imagens atrativas.

Portanto, parabéns por essa história tão bela quanto importante das HQs no Brasil! Que os artistas recebam cada vez mais fomento para que sigam existindo e abalando as estruturas sociais hodiernas, produzindo histórias que impactem gerações e as vidas dos envolvidos.

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