DRAMATURGIA PRETA EM SÃO PAULO

Dramaturgia preta em São Paulo

Por : Lou da Silva

Dramaturgas e dramaturgos que li (ou assisti) desde o início dos estudos na SP Escola de Teatro: Maria Shu, Rodrigo França, Grace Passô, Jhonny Salaberg, Lucas Moura, Clayton Nascimento, Dione Carlos, Luh Mazza, Aldri Anunciação, Filipe Celestino, Lucas Mayor, Rafael Cristiano, Paloma Alecrim, Jô Bilac, Jé Oliveira, Cidinha da Silva e a lista segue…

No começo, eu ainda não conseguia ter este olhar amplo do tamanho desse bonde. Evidente que ainda falta muito para conhecer. Um coro de falas negras que se juntam a Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Jefferson De, entre outros e outras, para pautar o caminho da dramaturgia brasileira neste início de século XXI. Trata-se também da inquietação dos processos criativos que já aconteciam em rolês periféricos e vêm conquistando os espaços artísticos dos grandes centros, viajando pelo interior dos estados, preenchendo as páginas dos livros, os roteiros de áudio drama, das TVs e do cinema. É muito provável que nossos futuros livros didáticos, seguindo a academicidade, procurem um nome para definir este movimento que estamos agora a vivenciar.

Antes de continuar, peço licença para falar do assunto. Pois, esta é a percepção de um nordestino branco que se instalou no centro de “Essepê” para estudar dramaturgia, tendo Suassuna como principal referência literária; e logo se deparou com a força textual das mãos negras citadas acima. Durante a troca de aprendizagem com docentes e colegas de aula, seus textos passaram por nossos debates e algumas dessas mãos até compareceram presencialmente. Espero não as decepcionar. Continuemos. Já no início, ainda durante o processo seletivo para estudar dramaturgia, tive o primeiro contato com “Por Elise” de Grace Passô. A partir de então, vieram “Amores Surdos”, “Mata Teu Pai” e lembro de assistir “Vaga Carne” no Centro Cultural São Paulo. Inesquecível quando a dramaturga, que atua na peça, sentou-se numa cadeira ao meu lado e deixou que por alguns segundos a voz descansasse. E quando a voz deixa de perpassar o corpo da mulher preta, este silêncio diz muita coisa! Outro impacto aconteceu ao ler “Buraquinhos ou o Vento é Inimigo do Picumã” de Jhonny Salaberg. Sabe quando Alice cai na toca do coelho e chega no país das maravilhas? O texto de Buraquinhos deu um soco no meu estômago quando percebi que ele transita por esse realismo fantástico, mas, a partir dos 111 furos cravados à bala no corpo de um adolescente preto. Assistindo à encenação, com a direção de Naruna Costa, esse jogo entre a leveza lúdica da teatralidade e o peso factual da palavra é uma aula de como montar um espetáculo que entretém incomodando.

Essa provocação que estende o debate para além das portas do teatro também é presente em “Macacos” de Clayton Nascimento; “N G O – O Silêncio que Antecede o Revide” com a direção de Jéssica Nascimento e texto de Filipe Celestino; “Desfazenda – Me Enterrem Fora Deste Lugar” com a direção de Roberta Estrela D’alva e texto de Lucas Moura. Este também escreve e produz o podcast “Calunguinha”, trazendo a discussão para o âmbito das produções infanto-juvenis. Para este público, Maria Shu trata de conflitos migratórios e desamparo infantil em “Quando Eu Morrer, Vou Contar Tudo a Deus”. E da mesma autora, a peça “Giz” nos tensiona desconcertantemente ao abordar o desejo proibido, reprimido, entre uma professora e seu aluno. São obras que se complementam ao tratar de temas que por séculos o país escondeu embaixo do tapete, seja por hipocrisia racista, pudor religioso ou estratégia de um sistema colonial covarde que prefere calar o debate ao invés de comparecer ao mesmo.

Imagine que nos anos 40, quando Abdias do Nascimento fundou o Teatro Experimental do Negro (TEN), onde atuaram Ruth de Souza, Lea Garcia e Haroldo Costa, por exemplo; a branquitude da época chamou de “racismo reverso” o fato do grupo priorizar o protagonismo negro. Quase um século depois, quando parte da sociedade brasileira tira do armário as suas vestimentas fascistas, este levante de artistas se coloca, reforçando a arte, a cultura e a educação como ferramentas sociais da causa negra. Princípio esse que nos remete ao TEN décadas atrás.

Na sua forma, esse fazer teatral contemporâneo apresenta a mesma força sociopolítica de seu conteúdo. A criação acontece em coletividade, guiada pelos afetos, pelo acolhimento, em que as decisões seguem um caminho menos verticalizado. Junta-se a isto as fronteiras criativas cada vez menos demarcadas, e então temos profissionais da dança, da literatura, da performance, da música, das artes plásticas, do circo, fortalecendo o movimento. Falando nele novamente, volto à pergunta inicial: qual será o nome que a academia dará a este momento histórico? A esta corrente dramatúrgica de autores e autoras negros e negras que sustentam o teatro brasileiro hoje?

Pensando bem, ao invés de ficar procurando um nome para esse movimento, é mais interessante vivenciá-lo. Pesquise, assista, leia as produções citadas aqui. Acompanhe, escute e debata com as pessoas mencionadas neste artigo. Estão todas aí, para além das páginas da revista. Termino agradecendo a equipe de direção da Aorta pelo convite para falar de artistas que tanto admiro, numa edição tão especial, no mês da Consciência Negra.

Lou da Silva

 Dramaturgo / Dramaturgista

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