O corpo cria calos onde alguma coisa machuca vezes demais. Aos poucos, a pele engrossa, perde parte da sensibilidade e aprende a suportar o atrito que antes causava dor. Durante muito tempo achei curioso esse mecanismo de defesa, até perceber que fazemos algo parecido por dentro: existem lugares em nós que endurecem não porque deixaram de doer, mas porque precisaram continuar sendo tocados como se nada estivesse acontecendo.
Lembro que, na infância, enquanto jogava bola com meus amigos, era comum dar uma “topada” com o dedão em algum paralelepípedo. Para além da dor e do sangue que às vezes assustava, havia algo ainda mais forte naquele momento: a vontade de continuar brincando. Depois de machucar tantas vezes o mesmo lugar, o corpo parecia ter aprendido a se defender, e cada vez que aquilo acontecia eu sentia um pouco menos de dor. Por ora, aquilo me parecia uma espécie de superpoder: eu podia continuar me machucando e, ainda assim, sentir cada vez menos.
Os anos foram passando e fui descobrindo que existiam outras partes de mim capazes de criar o mesmo mecanismo de defesa. A mente, muitas vezes cansada, aprendia a continuar depois de horas a fio; as emoções, a cada frustração e a cada machucado, encontravam alguma maneira de seguir. Durante muito tempo, confundi esses calos com força. Não percebia que eu talvez não estivesse aprendendo a suportar melhor aquilo que doía, mas apenas me tornando cada vez menos sensível aos lugares onde continuava ferido.
Já adulto, mas ainda colhendo significados da infância, comecei a perceber algo nas minhas rodas de amigos. Quase sempre depois dos “babas”, como chamamos por aqui nossas partidas de futebol, na mesa do bar após os ensaios da banda ou em conversas mais particulares, quando ficávamos a sós, percebia que havia alguma coisa parecida entre nós: a gente não estava aprendendo a suportar a dor, apenas se condicionando a senti-la menos.
Em que momento esconder aquilo que doía passou a ser uma demonstração de força? Hoje penso que crescemos tentando não revelar nossas dores e fragilidades por medo daquilo que receberíamos de volta quando deixássemos alguém perceber onde ainda estávamos feridos. Em muitos momentos, parecia mais seguro engrossar a pele do que correr o risco de mostrar exatamente onde ela permanecia sensível.
Olhando para mim e para os homens à minha volta, percebo o quanto ainda é difícil deixar que nossas lágrimas e nossas dores apareçam. Ainda somos os homens que só conseguem dizer “estou cansado” quando têm a certeza de que ninguém ouvirá essa frase como sinônimo de fraqueza. Aprendemos a continuar, resolver, suportar e, muitas vezes, permanecer em silêncio, mesmo quando alguma coisa dentro de nós já estava pedindo cuidado.
Mas nem tudo é apenas lamento. Dentro do meu círculo de amigos, vejo uma mudança acontecendo, mesmo que ainda seja quase imperceptível aos olhos da maioria. Ver um grande amigo desabar em lágrimas em pleno show de rock e poder dizer a ele que, naquele instante, eu o enxergava como um dos homens mais fortes que conheço foi uma das maiores provas de que os calos de nossas feridas começam, aos poucos, a ficar mais finos.
Estamos reaprendendo a olhar para nossas dores sem tratá-las como vergonha. Aos poucos, percebemos que cuidar daquilo que ainda dói exige uma força diferente daquela que aprendemos a demonstrar durante tantos anos. Uma força que não precisa esconder a ferida para provar que consegue continuar.
Hoje, quando lembro daquele menino que corria mesmo com o dedão machucado, percebo que passei boa parte da vida confundindo resistência com ausência de dor. Durante muito tempo achei que ser forte era criar calos suficientes para continuar sem sentir. Agora começo a entender que a verdadeira força também pode estar na coragem de olhar para aquilo que ainda está ferido.
Já não quero um coração tão endurecido que nada consiga alcançá-lo. Quero aprender a cuidar dos lugares onde a vida deixou marcas, permitir que a pele volte a sentir e entender que vulnerabilidade não é o contrário da força. Talvez o verdadeiro superpoder nunca tenha sido suportar cada vez mais, mas continuar inteiro sem precisar fingir que nada dói.




