Convidada pelo festival que reúne escritores, editores e pensadores de vários continentes na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, a revista leva ao debate sobre o futuro da literatura a trajetória de uma publicação independente, com Joana Pereira no palco e Alex Brito online, diretamente do Brasil.
Revistas literárias independentes costumam nascer longe dos lugares onde se decide o rumo do mercado editorial. Crescem nas margens, sustentadas por quem acredita que um texto pode mudar a forma como alguém enxerga o mundo, e raramente são chamadas a ocupar os espaços em que se discute o futuro da literatura. Por isso, o convite que a Revista Aorta recebeu para participar do lisbon literature days (lld), entre 28 e 30 de outubro de 2026, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, tem um significado que vai muito além de uma data na agenda.
Idealizada por Alex Brito há cerca de cinco anos, a Aorta nasceu do desejo de reunir, nas mesmas páginas, autores independentes e nomes consagrados da literatura nacional e internacional. O caminho até aqui foi construído com trabalho voluntário, rigor editorial e uma crença persistente no poder salvador da literatura. Hoje, a revista alcança mais de 80 mil leitores em mais de 40 países, um percurso que ajudou a transformar uma publicação nascida no Brasil numa revista transatlântica.
O festival chega a Lisboa com um tema que atravessa diretamente essa trajetória: “A literatura e o seu futuro em tempos de convulsão política”. Conflitos políticos, apelos ao boicote, disputas sobre financiamento cultural, inteligência artificial, redes sociais e desinformação estão entre os desafios que o encontro se propõe a enfrentar. Estar nesse debate é reconhecer que as publicações independentes também têm algo a dizer sobre os caminhos da literatura, e não apenas sobre as suas margens.
A participação da Aorta acontece do jeito que a própria revista se fez: com um pé de cada lado do oceano. Nascida em Lisboa e representante internacional da publicação, Joana Pereira estará presencialmente no festival e fará uma intervenção no dia 29 de outubro, às 16h30. Ligada à Aorta desde pouco depois do lançamento do primeiro número, ela trabalha para ampliar o alcance da revista entre leitores e artistas de outros países e coordena a equipe de revisão editorial.
Na sua fala, Joana vai apresentar o percurso de uma publicação literária independente e transatlântica e os desafios do seu lançamento, da afirmação num mercado saturado ao trabalho sustentado pelo voluntariado. O discurso também vai tratar do papel das revistas literárias como bastiões de resistência e laboratórios de pensamento crítico, espaços onde se formam leitores e escritores numa sociedade digital cada vez mais acelerada. No horizonte, uma visão de futuro: alargar as pontes entre línguas e preservar o afeto e a autenticidade humana diante do avanço da automação.
Do outro lado do Atlântico, o fundador e editor-chefe Alex Brito participa online, diretamente do Brasil. Nascido em Pernambuco e ligado à Bahia desde a juventude, o escritor e poeta acompanha o encontro de perto, mesmo à distância, e leva ao festival a voz de quem constrói a Aorta no dia a dia. A presença em duas frentes, uma no palco e outra na tela, traduz a natureza da revista: uma publicação feita entre territórios, línguas e fusos horários, que nunca separou a distância do encontro.


Organizado pela Bebelplatz e.V. e pela Word Alliance, com presidência do escritor Alberto Manguel e direção de Ulrich Schreiber, o lisbon literature days reúne em Lisboa escritores internacionais, diretores de festivais e feiras do livro, editores, tradutores, jornalistas e programadores culturais. Ao longo de três dias, o festival combina o congresso internacional “E agora?”, dedicado aos desafios do setor literário em tempos de agitação política, com um programa de leituras, apresentações de livros e conversas aberto também ao público geral.
A programação literária traz vozes da Europa, da África, da Ásia e das Américas, com atenção especial ao encontro com a literatura de língua portuguesa. Entre os participantes anunciados estão Alberto Manguel, Lídia Jorge, Gonçalo M. Tavares, Siri Hustvedt, Andrei Kurkov, Ilya Kaminsky e David Van Reybrouck. A abertura oficial está marcada para 28 de outubro, às 10h30, com António M. Feijó e Ulrich Schreiber.
O festival tem como apoiadores principais a Fundação Jan Michalski, a Fundação Calouste Gulbenkian e o Turismo de Lisboa, além de parceiros como Flanders Literature, a Embaixada da Suíça em Portugal e a EUNIC. A entrada em todas as atividades é gratuita, mediante inscrição pelo e-mail info@bebelplatz.org, e as sessões do congresso serão transmitidas ao vivo no YouTube, o que permite acompanhar parte do debate de qualquer lugar do mundo.
Num tempo em que a velocidade das telas encurta a atenção e a automação avança sobre a escrita, uma revista literária continua sendo um lugar onde se para, se lê e se pensa. Talvez seja essa a contribuição mais importante que a Aorta leva a Lisboa: a experiência de quem aprendeu a fazer literatura com poucos recursos e muitas mãos. Reconhecer esse percurso significa olhar para além dos grandes catálogos e admitir que o futuro da literatura também se escreve nas margens, nas pontes entre línguas e no afeto de quem ainda acredita que ler é uma forma de resistir.
Serviço
- Evento: lisbon literature days (lld)
- Datas: 28 a 30 de outubro de 2026
- Local: Fundação Calouste Gulbenkian, Av. de Berna 45A, Lisboa
- Revista Aorta: intervenção de Joana Pereira em 29 de outubro, às 16h30, e participação online de Alex Brito
- Entrada: gratuita, com inscrição pelo e-mail info@bebelplatz.org
- Transmissão: sessões do congresso ao vivo no YouTube
- Programação completa: site oficial do festival




