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Denise Vaz Bela: “Todas as crianças têm histórias que merecem ser contadas”

Entrevista por Olga Pessoa

Pedagoga, psicopedagoga, gestora, contadora de histórias e escritora, Denise Vaz Bela transforma sua experiência na educação em literatura para crianças. Autora de Kit Sabe Esperar e Os Monstros das Emoções de Kitty, ela fala à Revista Aorta sobre infância, emoções, representatividade, sonhos e os caminhos que a levaram da sala de aula às páginas dos livros.Desde a infância, Denise Vaz Bela já inventava histórias, desenhava personagens e improvisava seus próprios livros.

O desejo de ser professora também surgiu cedo e acabou se tornando uma das bases de sua trajetória. Ao longo dos anos dedicados à educação, a escrita continuou presente: Denise criava histórias, músicas e narrativas para ajudar seus alunos a compreender conteúdos e aprender de maneira mais criativa.

A escrita ganhou um novo significado depois de experiências pessoais marcantes, entre elas a separação e a perda da mãe. Foi então que Denise decidiu escrever sua autobiografia, Éta Mulher Arretada, publicada em 2023. A experiência abriu caminho para uma nova etapa: a literatura infantil.

Em 2024, publicou Kit Sabe Esperar, seu primeiro livro infantil, protagonizado por uma menina negra que aprende sobre paciência, espera e compreensão do tempo. Em 2025, veio Os Monstros das Emoções de Kitty, obra que aproxima aventura, imaginação e educação emocional.Hoje, Kitty ultrapassou as páginas dos livros e também está presente nas contações de histórias de Denise, representada por uma boneca de pano que a acompanha em escolas, feiras, bienais e outros eventos literários.

À Revista Aorta, Denise fala sobre sua trajetória, o encontro entre educação e literatura e o desejo de fazer com que crianças, especialmente crianças negras, encontrem nos livros representação, acolhimento e a possibilidade de se reconhecerem como protagonistas de suas próprias histórias.Entrevista1. Denise, antes de conhecermos a escritora, queremos conhecer a mulher. Que experiências da sua trajetória foram fundamentais para despertar em você o desejo de escrever?

Sou Denise Vaz Bela, pedagoga, psicopedagoga, gestora da rede municipal de Salvador e também escritora e contadora de histórias. Durante toda a minha trajetória de vida, desde a primeira infância, eu amava livros e já queria ser professora. Também gostava muito de escrever e desenhar. Eu criava livros improvisados, inventava histórias e fazia as ilustrações. Então, desde criança, já existia esse desejo em mim.Era algo difícil naquele momento. Meus pais não perceberam esse desejo e também não tinham condições de investir nele. Durante a minha carreira como profissional da educação, porém, continuei criando. Inventava histórias que ajudassem minhas crianças a aprender, muitas vezes relacionadas aos conteúdos que trabalhava com elas. Criava músicas, histórias e atividades literárias para tornar a aprendizagem mais significativa.

Além disso, tive algumas frustrações muito grandes ao longo da minha trajetória de vida, especialmente durante o meu casamento e com a perda da minha mãe. Foi então que decidi escrever a minha autobiografia. A partir dessa experiência, dei continuidade à minha carreira como escritora de literatura infantil.

Em que momento você percebeu que a literatura poderia ser uma forma de expressar aquilo que você queria dizer ao mundo? Houve algum acontecimento ou livro que marcou essa descoberta?

Ao me frustrar diante de algumas situações da vida, como a separação e a perda da minha mãe, percebi que poderia ajudar outras pessoas por meio dessas experiências. Queria mostrar que é possível sair do lugar da queixa e da reclamação e buscar a própria felicidade.

Decidi escrever a minha autobiografia para que outras pessoas pudessem ser contempladas, ajudadas e acolhidas a partir da minha história. Foi assim que percebi que poderia dizer ao mundo como eu estava me sentindo e compartilhar aquilo que vivi, para que outras pessoas não precisassem passar pelas mesmas experiências.

Seu trabalho dialoga muito com o universo infantil e com as emoções. O que despertou seu interesse por escrever para crianças e abordar sentimentos que, muitas vezes, elas ainda estão aprendendo a compreender e nomear?

Minha vida toda esteve ligada ao universo infantil, porque sempre fui professora da educação infantil. As crianças pequenas me encantam porque elas viajam pela imaginação e pelos sentimentos. O que você fala para elas, elas acreditam, se envolvem e se empolgam.Então, não teria por que eu escrever para outro público que não fosse o universo infantil. Trabalhar as emoções com crianças pequenas exige explorar a imaginação para que elas possam compreender os sentimentos de uma forma mais direta.

Os Monstros das Emoções de Kitty traz isso: aventura, emoção e imaginação, despertando nas crianças o desejo de entender, identificar e regular suas emoções.

Em Os Monstros das Emoções de Kitty, as emoções ganham espaço dentro da narrativa. De onde veio a inspiração para criar essa história e suas personagens?

Sou organizadora de um livro chamado Monstros e Gargalhadas, uma obra da qual participaram escritores de todo o Brasil, escrevendo histórias de terror que terminam de forma engraçada. A capa traz vários monstros coloridos e o livro fez muito sucesso porque as crianças adoram monstros.

Às vezes, eu apresentava outros livros, mas as crianças sempre voltavam para os monstros. Então pensei: “O que posso fazer para escrever um livro que tenha monstros, mas também um conteúdo bacana e interessante?”. Foi quando decidi usar a minha personagem Kitty.

Resolvi associar os monstros às emoções de valência negativa e, em contrapartida, as fadas às emoções de valência positiva. Incluí a Kitty nessa história e o resultado tem sido muito bonito.

As crianças gostam de aventura, suspense e monstros, e eu associei tudo isso a uma questão que considero necessária: é importante que elas entendam e identifiquem suas emoções e aprendam a regulá-las.Essa combinação tem dado certo. O livro tem sido um sucesso. As crianças se identificam, os pais gostam e os professores têm desenvolvido projetos muito bonitos a partir dessa literatura. Estou muito feliz com o resultado.

Quando uma criança lê uma obra sua, o que você gostaria que permanecesse nela depois que o livro fosse fechado? Existe alguma transformação que você espera provocar por meio da sua literatura?

Só o fato de uma criança abrir uma literatura escrita por mim, se debruçar sobre ela e ler já é uma alegria imensa e um motivo de grande valia para mim.

Mas o que eu quero deixar quando ela fechar o livro é que continue acreditando na vida, nos seus sonhos e na sua imaginação. Quero que o conteúdo daquela literatura reverbere em suas ações, no dia a dia e na sua personalidade.

Quero ajudar as crianças a serem pessoas melhores, a controlarem suas emoções, a serem mais pacientes e a manterem a imaginação e a capacidade de acreditar na vida.

Como você enxerga o papel da literatura infantil na formação de crianças mais sensíveis, críticas e capazes de compreender a si mesmas e o outro?

Enxergo a literatura infantil como uma ferramenta muito importante na formação das crianças, porque ela possibilita que conheçam diferentes histórias, culturas, sentimentos e formas de viver.

Ao ouvir e vivenciar uma história, a criança não apenas desenvolve a imaginação, mas também pode se reconhecer, compreender seus sentimentos e perceber que existem outras formas de ser e de estar no mundo.

Acredito que a literatura contribui para a formação de crianças mais sensíveis porque permite que elas se coloquem, de alguma maneira, no lugar do outro. Por meio das narrativas, entram em contato com diferentes realidades, emoções e experiências, desenvolvendo a escuta, a empatia e o respeito pelas diferenças.

Olhando para a sua caminhada como escritora, quais são os sonhos que ainda deseja realizar? Que lugar você gostaria que a sua literatura ocupasse na vida dos leitores e na literatura brasileira?

Olhando para a minha caminhada como escritora, percebo que ainda tenho muitos sonhos para realizar. A escrita chegou à minha vida como mais uma forma de educar, comunicar e tocar as pessoas. Depois de tantos anos dedicados à educação, percebi que, por meio da literatura, também poderia continuar contribuindo para a formação das crianças, alcançando outros espaços além da escola.

Um dos meus maiores sonhos é ver a minha literatura chegando a muitas crianças, especialmente às crianças negras, para que possam se reconhecer nas histórias, na personagem Kitty e nas possibilidades que a literatura oferece. Gostaria que cada criança que tivesse contato com os meus livros sentisse que também pode ser protagonista da própria história.

Sonho em continuar escrevendo, criando novas personagens e narrativas, participando de feiras literárias e levando a literatura para escolas e diferentes espaços. Também desejo que meus livros alcancem outras cidades, outros estados e, quem sabe, outros países, mostrando um pouco da nossa cultura e da riqueza das nossas infâncias.

Quanto ao lugar que gostaria que minha literatura ocupasse na vida dos leitores e na literatura brasileira, desejo que seja uma literatura que acolha, represente e transforme. Quero que minhas histórias sejam lembradas não apenas como livros infantis, mas como experiências que fizeram alguma diferença na vida de uma criança.Acredito no poder da literatura de produzir identificação, despertar sentimentos, reflexões e sonhos. Por isso, desejo que a Kitty e as histórias que ainda vou escrever possam contribuir para que as crianças se enxerguem com mais amor, compreendam suas emoções, valorizem suas características e aprendam a respeitar as diferenças.

Se um dia uma criança me disser que se sentiu representada, acolhida ou mais confiante depois de ler um dos meus livros, acredito que estarei realizando um dos maiores sonhos da minha caminhada como escritora.

Meu desejo é que a minha literatura ocupe esse lugar: o de chegar ao coração das crianças, deixar marcas positivas e mostrar que todas elas têm histórias que merecem ser contadas.

Denise, como é para você olhar para a sua trajetória e se perceber hoje sendo reconhecida pelo seu trabalho, participando de bienais e eventos literários e vendo a sua literatura alcançar cada vez mais leitores? O que passa pelo seu coração ao perceber que aquilo que um dia começou como um sonho hoje ocupa espaços tão importantes?

Olhar para a minha trajetória hoje é um exercício de muita emoção e gratidão. Quando penso naquela menina que, desde muito pequena, dizia que queria ser professora e encontrava felicidade em estar perto das crianças, percebo o quanto a vida foi construindo caminhos que muitas vezes eu mesma nem imaginava alcançar.

Tudo o que estou vivendo hoje — participar de bienais, feiras e eventos literários, contar histórias, apresentar meus livros e perceber que minha literatura está chegando cada vez mais longe — mexe profundamente comigo. Às vezes, ainda parece um sonho.

É como se eu olhasse para trás e visse cada etapa da minha caminhada: a professora, a coordenadora, a gestora, a contadora de histórias e, agora, a escritora. Entendo que todas essas mulheres fazem parte de quem sou hoje.O que mais toca o meu coração é perceber que aquilo que começou como um sonho e como um desejo de contribuir com as crianças hoje ocupa espaços tão importantes.

Participar de uma bienal ou de um evento literário não representa apenas estar em um palco para divulgar meus livros. Para mim, significa ocupar um espaço que, durante muito tempo, talvez parecesse distante para muitas mulheres negras, educadoras e escritoras que, como eu, vieram da periferia e construíram seus caminhos com muito estudo, trabalho e determinação.

Mas acredito que o sentimento maior é de responsabilidade e gratidão. Quanto mais a minha literatura chega às crianças, maior é o meu compromisso de continuar escrevendo histórias que acolham, representem e façam sentido para elas.Cada conquista carrega uma história, muitos desafios e dificuldades, além de muitas pessoas que acreditaram em mim.

Hoje, quando vejo uma criança ouvindo uma história da Kitty, interagindo com a personagem ou se reconhecendo na literatura, meu coração se enche de alegria. É nesse momento que percebo que o sonho se tornou maior do que eu.

A literatura que escrevo já não pertence apenas a mim. Ela começa a fazer parte da imaginação, dos sentimentos e das memórias de outras pessoas, principalmente das crianças.

Talvez seja isso que mais me emocione: perceber que aquela menina que sonhava em ser professora continua aqui. Apenas encontrou novos caminhos para ensinar, contar histórias, inspirar e, principalmente, mostrar às crianças que elas também podem sonhar e ocupar os lugares que desejarem.

Denise, você já construiu uma trajetória com diferentes obras. Gostaria que você nos contasse um pouco sobre os seus outros livros e, especialmente, sobre o seu primeiro livro. Como nasceu essa primeira obra, o que ela representava para você naquele momento e, olhando para ela hoje, o que mudou na Denise escritora desde então?

Minha caminhada como escritora foi acontecendo de forma muito natural, a partir da minha própria trajetória na educação. Antes de escrever literatura infantil, escrevi a minha autobiografia, Éta Mulher Arretada, publicada em 2023.

Essa obra foi muito significativa para mim porque representou a oportunidade de olhar para a minha própria história, para os desafios que enfrentei e para tudo o que vivi até chegar onde estou.

Depois disso, tive a oportunidade de participar de algumas coletâneas infantis, e essas experiências despertaram em mim o desejo de escrever a minha própria literatura para crianças.Meu primeiro livro infantil nasceu desse encontro entre a educadora, a contadora de histórias e a mulher que sempre acreditou no poder da infância. Em 2024, publiquei Kit Sabe Esperar, tendo como protagonista uma criança negra chamada Kitty.

A ideia surgiu da minha convivência com as crianças e da percepção de que algumas aprendizagens importantes para a vida precisam ser trabalhadas desde a primeira infância. O livro aborda, de forma lúdica e próxima do universo infantil, a questão da paciência, da espera, da compreensão do tempo e das formas de administrá-lo.

Kit Sabe Esperar ajuda as crianças a refletirem sobre o fato de que nem tudo acontece no momento que desejamos e que aprender a esperar também faz parte do nosso desenvolvimento.

Naquele momento, esse primeiro livro representava para mim a realização de um sonho muito especial. Eu já tinha uma longa trajetória como professora, coordenadora e gestora, mas publicar uma literatura infantil significou descobrir uma nova forma de dialogar com as crianças. Era como levar para o papel muitas experiências que eu já havia vivido ao longo de tantos anos na educação.

Depois de Kit Sabe Esperar, a personagem continuou comigo. Em 2025, publiquei meu segundo livro infantil, Os Monstros das Emoções de Kitty, uma obra que busca ajudar as crianças a reconhecer, identificar e lidar com suas emoções.

Aos poucos, fui percebendo que Kitty não era apenas uma personagem de um livro. Ela passou a fazer parte das minhas contações de histórias e ganhou uma dimensão ainda mais afetiva quando se transformou em uma boneca de pano que me acompanha nas escolas, nas feiras, nas bienais e em outros eventos.

Olhando para o meu primeiro livro, percebo o quanto a Denise escritora cresceu. No início, havia muito sonho, emoção e também muitas descobertas. Eu estava aprendendo a ocupar esse novo lugar de autora.

Hoje continuo aprendendo — porque nós aprendemos sempre —, mas me percebo com mais consciência da responsabilidade e da importância da literatura infantil.

A Denise escritora de hoje compreende que escrever para crianças é também participar, de alguma forma, da construção de memórias, sentimentos e referências. Por isso, tenho pensado cada vez mais na importância de produzir uma literatura que acolha, dialogue com as experiências das crianças e possibilite identificação.

Acredito que o que mudou em mim foi justamente essa segurança de compreender que eu também tenho uma voz como escritora.

Continuo sendo uma educadora apaixonada pelas crianças, mas hoje encontrei na literatura mais uma forma de educar, comunicar, representar e tocar vidas.

Quando olho para Kit Sabe Esperar, vejo muito mais do que o meu primeiro livro infantil. Vejo o início de uma nova etapa da minha vida. Vejo um sonho que ganhou páginas, ganhou uma personagem, ganhou voz e, principalmente, começou a chegar às mãos e ao coração das crianças.

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Last modified: 06/10/2026

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