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Depois do luto, partimos para a luta

Artigo por Luciana Morais

Segunda-feira, 5 de outubro de 2026. Nasceu o dia, nem tão feliz quanto a música que gostaria de cantar. Foi difícil adormecer, e a ressaca, inevitável. Depois de morrer de raiva, os sentimentos foram mudando para o desconsolo até chegar à estranha apatia. 

Enquanto achava que ia dormir, a pergunta martelava sem trégua, como há pessoas (número tão expressivo!) que conseguiram confiar seu voto – e a nossa nação – no filho do meliante? Com tudo que se sabe, que se escancara em todas as mídias… com todas as provas. Como assim? Como assim não somos maioria?

De tudo que li, que conversei com amigos, com a família e com o pessoal do comitê da cidade em que vivo, o que mais traduziu de forma clara e direta, na ironia nossa de cada dia, foi o texto do José Roberto Torero (censurado pelo Instagram). Pois enquanto nós estávamos indignados, o candidato que ficou com 47% dos votos válidos sentia a sua impermeabilidade.

(Diário do Bolsinho)

Eu ganhei! Ganhei o primeiro turno! Nem eu esperava por isso.

Foi por pouco, eu sei. Aliás, eu tinha medo que o Molusco vencesse e nem houvesse segundo turno. Mas vai ter e eu saio na frente. 

Diarico, eu sou uma frigideira tefal: nada gruda em mim.

Olha só: primeiro teve a rachadinha. Só isso já devia ter acabado com a minha carreira, porque ficou na cara que eu pegava dinheiro dos funcionários fantasmas. Mas o pessoal fingiu que não viu e foi em frente.

Também descobriram a mansão que eu comprei escondido. E é claro que eu não tinha como comprar com o meu salário de político. Mas o pessoal olhou pro outro lado e apertou o passo.

Teve a medalha pro Adriano da Nóbrega, o maior assassino do Rio de Janeiro, deixando clara a minha ligação com a milícia. Mas o pessoal nem ligou.

Aí teve o golpe do pápi. A gente pensou em matar o Molusco, o vice-molusco e o Careca. Descobriram tudo e isso era para ter acabado com o nome da família. Mas o pessoal disse que tudo bem, acontece.

Então veio o Vorcaro. É claro que o cara me deu dinheiro em troca de alguma coisa (e, se eu ganhar mesmo a eleição, ele vai receber essa coisa). Mas os meus fiéis engoliram tudo, e sem água.

 Nos últimos dias, descobriram até que eu traí a minha mulher com garotas de programa. Mas o pessoal olhou pro teto e passou assobiando.  

Não, Diarico, eu não sou uma frigideira tefal. Eu sou mais que isso! Sou um daqueles cânceres que você tira com cirurgia e ele volta. Que você mata com quimioterapia, e ele volta. Que você mata com radioterapia e, um mês depois, lá está ele, crescendo bonito de novo!

 Aliás, falando em metástase, a família toda se deu bem. O Carluxo, mesmo pensando que Camboriú é a capital de Santa Catarina, foi eleito senador. A Madrasta Malévola foi a mais votada para o senado. E o Renan virou deputado federal.

 Vamos fazer o churrasco de domingo no meio do Congresso, kkk!

 Ah, e eu já decidi o meu slogan pro segundo turno. Vai ser: “Liberdade, liberdade, liberdade”.

 Liberdade pro meu pai, que vai sair da prisão. Liberdade pros malucos do 8/1, que eu vou perdoar. E liberdade para fazer vorcarices no governo. Kkk!

 #diariodosbolsos

Quem são as pessoas que fecharam os olhos para a realidade? As que não tiveram uma educação libertadora, como pronunciou o nosso patrono, e possuem o sonho de ser o opressor? No caso, ver/sentir o opressor a representá-las? Eu não entendo, não consigo entender. Onde foi que erramos, enquanto sociedade, partido, militância, humanidade?

O tempo é curto para ficarmos consternados. E a ação vale mais nesse caso.

Depois do luto, partimos para a luta (novamente). Com a energia da vitória de Ana Elisa e Duda Salabert (orgulhos do meu Estado), Erika Hilton, Rosa Amorim, Elika Takimoto, Jandira Feghali, Sâmia Bomfim, Anielle Franco e tantas outras, progressistas, feministas, antifascistas — seguimos juntas. Acreditamos que é possível vencer e, assim reverter uma tragédia anunciada.

O que está em jogo é a democracia, a liberdade, as pautas antirracista, de igualdade de gênero, de sustentabilidade. Os direitos humanos não podem ser ameaçados para não fragilizar ainda mais a inclusão e a diversidade. Por essas vitórias vale a pena jogar. Vale a pena continuar lutando para que não se perca o que foi construído. Ainda há muito que caminhar rumo à justiça e à igualdade social. Bora virar esse placar.

Nossas bandeiras continuam hasteadas a tremular.

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Last modified: 06/10/2026

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