Por Emerson Leandro e fotografias de Fernanda Maia

Diante do portão da casa do Mestre Bule-Bule, eu, a exemplo do que fez Luiz Gonzaga, que, depois de dezesseis anos longe de sua terra, quis fazer uma surpresa ao pai, gritei: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!” e, do lado de dentro, entre uma gargalhada acolhedora, voz trovejante e calma, o mestre respondeu: “Para sempre seja louvado”.
Esta recepção, regada à tradição, oralidade e bom humor, sintetiza perfeitamente a maneira como o Mestre Bule-Bule é, como sua vasta obra se espalha pelo mundo em diversas linguagens e, sobretudo, como, desde o início, ele recebeu o convite da Revista Aorta para esta entrevista.
Emerson Leandro Silva: Se eu não soubesse quem é Bule-Bule e lhe perguntasse quem é, como o senhor responderia?
Mestre Bule-Bule:
Bom, você, provocando desse jeito: eu entrava no caminho por onde você já me viu passar várias vezes, né? Até de longe você sabe que sou eu. Sendo assim, eu lhe diria:
Bule-Bule é o poeta Antônio Ribeiro da Conceição, a flor do norte baiano, companhia brasileira da República Federal, moço do código da lei, agidor do errado, cachola que Deus me deu, inspetor juramentado. Se perguntar: cadê ele? Está aqui, seu criado.
Filho de Mané Jararaca, que mora na Loca da Pedra, e se meter o pé com ele, vai ver o rolo da queda. É este moço que está na sua beira, cravo das moças e alecrim que cheira, e filho de Isabel Ribeiro da Conceição, doceira, louceira, benzedeira, parteira e outros “eiras” por aí, assim como parideira, que foi do ato de parir que nasceu Bule-Bule, cantador repentista, que vem muito feliz atender ao pedido da Revista Aorta.
Emerson Leandro Silva: Bule-Bule é o casulo prestes a se transformar em borboleta. Então, Antônio Ribeiro se transformou em Mestre Bule-Bule?
Mestre Bule-Bule:
A lagarta, em fase de metamorfose, para virar borboleta, aquele período chamado de bicho-da-seda, é quando está no projeto para se formar. Eu creio que, quando eu surgi no mercado como gente para fazer alguma coisa, de alguma forma eu tinha uma dotação, e as pessoas em volta começaram a fazer comparações: “Venha fazer isso, venha fazer aquilo, vamos fazer isso, vamos fazer aquilo.” E eu já trabalhava como menino numa padaria, com dois animais, botando lenha do roçado para assar os pães.
Dessa forma, era trabalho de um homem que eu fazia normalmente, mesmo ganhando como menino, e, como menino, ficava satisfeito com o que eu ganhava. Mas eu tinha consciência do meu potencial, só não tinha para quem exibi-lo. Quando chegou o dia em que eu ganhei esse apelido, eu peguei um volume que muita gente tinha experimentado pegar e não pegou. Surgiu muita crítica para o mais forte do grupo, que não tinha conseguido pegar, e um deles se saiu com essa: “Ele é pequeno, mas é velho. Ali é como bule-bule, ele não vai se transformar, não vai desenvolver não, só vai se transformar.”
Quer dizer, de menino, eu me transformei numa pessoa em quem só ia nascer barba, falar grosso e tocar o barco; não ia desenvolver, não ia crescer. E, dessa forma, só houve a transformação mesmo de Antônio, daquele tamanho, para o Bule-Bule, que aqui está até hoje. Dessa forma, a esperança de alçar voos como borboleta, que era o que o casulo estava pretendendo, não demorou a acontecer, só que não foi uma borboleta que o bem-te-vi encontrou logo com facilidade, ou o papa-lagarta, e abateu. O Bule-Bule resiste, graças a Deus, até hoje, já fazendo 80 anos.
Emerson Leandro Silva: Mestre, o senhor é um defensor da cultura popular, das tradições e do sertão. No seu entendimento, qual a importância dessas coisas, desses entes?
Mestre Bule-Bule:
A importância é muito grande. Não para mim, nem para os que fazem somente. É importante para o Brasil. O continente, o país que não tem noção dos seus valores culturais, de suas raízes, é um país boboca, é um país desmoralizado, é um país sem memória. Tem muitas maneiras de se criticar um país que não tem memória, que não tem o ontem para comentar, que o amanhã dele é sem futuro porque ele não sabe para onde vai, por não saber de onde veio. Ele não sabe o que está conduzindo para formar uma nova geração. Dessa forma, é necessário que a gente valorize e motive outros para que amanhã, quando você não estiver mais ocupando esse lugar, você tenha, por exemplo, os seus seguidores.
Meu avô fez alguma coisa de valor: foi vaqueiro, foi tropeiro, foi magarefe. Para aquela época, ele preencheu um lugar de nobreza. Porque, para o patrão, para os ricos, para os barões, para levar uma carne bem tratada do boi que ele cuidou desde cedo, depois matou, tratou e colocou no açougue, para você comprar e levar para casa, dependiam dele. Entende? O boi não sai andando, chega aqui e se oferece na mesa, né? Então, todo mundo tem uma importância no que faz.
E a cultura popular, ainda que seja ela para você desdobrar amanhã numa cultura erudita ou numa cultura mais mansa, se você quer transformar esta sua rústica, é necessário existir essa cultura rústica como base para você desdobrar. Teve um tempo que era só o tempo vazio, não tinha nada. Então, alguém preencheu este espaço vazio com tudo que hoje tem, desenvolvido em épocas diferentes, mas você tem que saber que ninguém nasce grande, né?
Emerson Leandro Silva: Mestre, ninguém se constrói sozinho. Quais foram as principais influências que o construíram como um mestre de cultura popular?
Mestre Bule-Bule:
Ninguém cresce sozinho. Você vê, por exemplo, um mestre e você encontra coisas belas nele. Ele faz o simples se tornar mais simples e mais admirado. A coisa tão fina… Oh, meu Deus! E ele conduziu aquilo e não quebrou. Você passa a admirar uma pessoa de várias formas, de várias maneiras. E cada vez que você aplica admiração naquilo, é um pedaço de você que se liga a ele ou um pedaço dele que se liga a você.
Então, quando termina amanhã, muitos anos depois, você é um fragmento de vários mestres, um pedaço de cada um daqueles que se uniu a você para construir sua própria personalidade. E você é grande e bom porque tem pedacinhos dos melhores com você. Entendeu? Então, eu fecho os olhos para ver e sentir as pessoas que me ajudaram. Foram várias. De um lado, eu vejo Rodolfo Cavalcante na literatura de cordel. Do outro lado, eu vejo Minelvino Francisco Silva, no cordel religioso e na xilogravura. Por outro lado, eu vejo Alípio Bispo dos Santos, o cara que escrevia para você dar risada.
Aí, do outro lado, eu vejo a Herotilde Miranda falando de valentões e falando de valentões com amor, com humor. Aí, você não vê sangue, não vê malvadeza. Se houver motivo para se expressar com ele, convida para a briga, ou ele é convidado para a briga e ele aceita, dizendo coisas com que você se desmancha de dar risada.
Então, é um pedaço de cada um que está formando a sua estrutura, sua personalidade. Quando você se apresenta, você mostra um pouco de cada coisa daquela. A sua força está nisso. Você bebeu, é como meu pai disse: “Aquele cavalo está gordo”. “Ora, comendo em bom pasto, bebendo em bom tanque e cochilando em boa sombra, só tem que estar no conforto.” Então, você está confortável, porque a sua construção foi feita de pedacinhos bons.
Emerson Leandro Silva: Tem um texto do senhor em que o senhor fala sobre fazer carta em martelo. O senhor acha que produzir cultura popular nesse país, sobretudo no Nordeste, tem um pouco de fazer carta em martelo?
Mestre Bule-Bule:
Dureza. É dureza… Mas você pode sobreviver, porque é aqui a usina, é aqui que tem o pensador, é aqui que tem referência para você pensar, é aqui que tem a raiz da história, tá entendendo? Então, se você fizer… Imagine… Tem a Feira do Cordel Brasileiro. Começou em Fortaleza com o compadre Klévisson, Antônio Klévisson Viana, com uma editora popular pequena chamada Tupynanquim. Então, hoje, ele está fazendo, agora, de 8 a 12 de outubro, a décima edição, que começou em Fortaleza e chegou à sétima edição aqui em Salvador, e teve a nona em Brasília. E agora, em outubro, vai ser a décima feira.
É um evento de três dias, entendeu? Já houve de uma semana, é muita coisa! Então, aqui é a usina. O Nordeste é a usina da cultura popular e tem muitos mecânicos, muitos fazedores, cada um com sua especificação. Porque eu escrevo um tema, eu sou mais agraciado, beneficiado pela musa, pela memória, quando eu vou escrever: “Esse tema, tal…” O outro é também um mecânico desta mesma usina, mas já opera com outro. Um fala do plantio da cana, outro fala da moagem, outro fala do mel, outro fala da rapadura, outro fala do açúcar, mas fala do açúcar no Brasil. Outro já fala da exportação do açúcar. Aí, outro fala de outro país que faz coisa como a nossa. Então, são vários oficineiros fazendo esses produtos, entendeu?
Mas o grande celeiro é o Nordeste. O Nordeste tem nos favorecido e, graças a Deus, o conjunto de fazedores está fortalecido para encher este mundo velho de cultura popular.
Emerson Leandro Silva: O senhor tem uma forma de escrever que acabou construindo romances rimados, transformou cordel em romance e, não só isso, eu queria que o senhor falasse a respeito desses cordéis, mas também falasse a respeito de Orixás em Cordel. Porque ele consegue unir duas coisas que, de certa forma, ainda são marginalizadas, que são as religiões de matriz africana e a literatura de cordel. E agora, quem vai prestar vestibular na UNEB tem de lê-lo. Como o senhor vê isto?
Mestre Bule-Bule:
São mudanças de quem teve paciência para esperar. Essa transformação só alcançou quem teve paciência para esperar. Começando por Câmara Cascudo e Leonardo Mota e outros estudiosos que, no começo, diziam que a literatura de cordel era uma cultura de valor menor, era uma anticultura, que não podia se chamar aquilo de literatura. Então, você hoje vendo a literatura de cordel tendo um livro que é indicado para quem vai fazer vestibular, é o material de fazer doutor. Então, o que foi que se teve nesse intervalo? Paciência, para purificar os cordéis que os doutores e professores fazem hoje. Se eles não forem doutores poetas, não é bom o cordel só porque ele é doutor.
Primeiro, ele tem que ser poeta. E os poetas que fizeram os primeiros cordéis, apesar de terem sido pessoas de pouca instrução, não eram pessoas de pouca sabedoria. Eram elementos que não tiveram, por exemplo, escolaridade, mas liam bastante, se informavam bastante, porque, se você vai pegar um assunto e transformar em um cordel de dezesseis páginas, são sessenta e quatro estrofes em que você trabalha um tema… Há como ser ignorante e conseguir isto? Agora, se você estiver disposto a criticar, a botar defeito, nem precisa o outro lado ter, você vai encontrar defeito pra botar. É de se respeitar quem tem a criatividade. A mente dele está aberta solenemente para receber a musa. Só vê isto quem tem compromisso de ver.
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Last modified: 13/10/2026





