Ensaio por Alex Brito

Um pedaço de pão muda de tamanho dependendo de quantas mãos se estendem para ele. Quando existe fartura, quase ninguém percebe aquilo que ficou sobre a mesa; quando falta, cada parte parece adquirir outro peso. É nesse momento que repartir deixa de ser apenas dividir alguma coisa ao meio e passa a revelar o que somos capazes de fazer quando aquilo que temos parece insuficiente até para nós mesmos.
Durante a minha infância, ouvi muitas histórias contadas por minha vó em sua casa, quase sempre em noites de chuva, acompanhadas por relâmpagos assustadores e trovões. Ela sabia exatamente o momento de usar a própria natureza para dar dramaticidade, susto ou reflexão às suas histórias, como um diretor que encontra no cenário a maneira certa de manter alguém preso à cena. Mas havia uma delas que minha vó não ousava contar. Todas as vezes que ouvi esse relato, foi pela voz de minha mãe que ele chegou até mim.
Algumas histórias parecem permanecer tempo demais em silêncio dentro de quem as viveu e acabam precisando da voz de outra pessoa para continuar existindo. Talvez tenha sido assim com minha vó. Minha mãe emprestava palavras àquilo que ela preferia guardar, e eu, ainda criança, não entendia por que os olhos das duas se enchiam de lágrimas sempre que aquela lembrança encontrava novamente um caminho até a mesa.
Era uma noite como tantas outras. O pouco pão sobre a mesa precisava alimentar os filhos da minha vó, e aquela era uma conta que quase nunca fechava. Muitas vezes, ela e os filhos mais velhos, entre eles minha mãe, abriam mão de comer para que os menores tivessem alguma coisa no prato.
Ainda assim, antes de comer, rezavam. Talvez aquele alimento não fosse suficiente para todos, mas a fé parecia impedir que a falta ocupasse completamente a casa. Sob a luz fraca do candeeiro, repartiam muito mais do que pão: repartiam a esperança de que, apesar daquela noite, haveria alguma coisa esperando por eles quando o dia amanhecesse.
Minha mãe conta que, em uma daquelas noites, enquanto se preparavam para a reza antes do jantar, uma família bateu à porta. Aquela noite permaneceria na memória dela por muitos anos. Com os olhos cheios de lágrimas todas as vezes que toca nesse assunto, relembra que minha vó, ao abrir a porta da casa, se deparou com uma família faminta pedindo ajuda. Minha memória sobre os detalhes é incerta, mas dela ficou a imagem de uma mulher com uma criança de colo e outras duas crianças pequenas ao seu lado.
Hoje, quando lembro dessa história, sempre contada por minha mãe, lembro também dos olhos de minha vó e de mim ainda menino, fazendo quase a mesma pergunta que minha mãe talvez tenha feito quando era apenas uma criança vivendo aquela cena: por que minha vó convidava aquela família para entrar e repartir o pão, se aquele alimento talvez não fosse suficiente nem para alimentar os próprios filhos?
Quase todas as lembranças que tenho daquela veinha de pouco mais de um metro e meio, cabelos grisalhos e um olhar que misturava doçura e dureza, passam pela maneira como ela sempre encontrava espaço para cuidar dos seus e, ainda assim, permitir que os outros também coubessem dentro desse cuidado.
Ouvindo histórias como aquela e convivendo com minha vó, que adotou não apenas dois filhos, mas também tantos outros netos na rua onde morava, fui, com o passar dos anos, me transformando. Carreguei comigo a maneira como ela olhava para a comunidade e para o outro. Quase todos os meus amigos de infância foram, de alguma forma, acolhidos por ela. Chamava-os de netos, participava da educação deles, por vezes intervinha nos castigos que recebiam dos pais e ainda encontrava tempo para fazer roupas para muitos deles.
Hoje, homem feito, percebo o quanto sou fruto desse olhar. Fruto de um cuidado que começava nos seus, mas nunca terminava no sangue que corria pelas veias. Quando revisito as histórias que minha memória guardou de minha vó, penso que, se ela estivesse viva e eu pudesse conversar com ela sobre o país, talvez sorrisse ao me ouvir tentar dar nomes políticos a gestos que, para ela, provavelmente eram apenas maneiras de viver.
Talvez eu até a chamasse, num impulso, de comunista, não para lhe atribuir uma filiação ou uma doutrina que ela nunca reivindicou, mas porque hoje reconheço em sua vida uma espécie de compromisso com aquilo que podia ser comum, dividido e partilhado. Naquela noite, não foi apenas o pão que deixou de pertencer a uma única família. A mesa, a casa, o cuidado e até a pouca esperança que havia foram repartidos com quem chegou.
E talvez seja essa uma das heranças mais profundas que recebi dela: minha vó nunca pareceu acreditar que o mundo terminava no portão de casa. Sua existência sempre encontrava uma maneira de caber também na vida dos outros.
Hoje, quando tento entender por que me tornei artista, escritor e homem de esquerda, volto menos aos livros que li e mais àquela mesa onde minha vó repartiu um pão que já era pouco. Foi com ela que aprendi que a pobreza não pode ser apenas paisagem, que comunidade é gente sustentando gente e que partilhar não significa esperar que alguma coisa sobre. Minha arte também nasceu desse olhar: da necessidade de enxergar quem tantas vezes permanece fora do enquadramento, dar palavra ao que costuma ser silenciado e acreditar que nenhuma sociedade pode realmente melhorar enquanto alguns continuam sendo tratados como se pudessem esperar do lado de fora. Se escolhi um lado, ele começou muito antes de eu saber dar nome à política; começou na casa de minha vó, quando ela abriu a porta, repartiu o pão e, diante de tudo o que faltava, ainda encontrou espaço para puxar mais uma cadeira.
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Last modified: 03/10/2026





