Ensaio por Alex Brito

Durante muitos anos, o relógio da cozinha permaneceu no mesmo lugar. Preso na parede próxima à mesa, acompanhava silenciosamente as manhãs apressadas, os almoços demorados e aquelas conversas que começavam sem intenção de terminar. Seus ponteiros nunca fizeram nada além de marcar as horas, mas talvez ele tenha aprendido algo que nenhum outro relógio conseguiu: o valor dos minutos quando alguém está presente.
Era comum, em minha infância, sentar à mesa na casa de minha vó exatamente às seis horas da manhã e vê-la olhar para o relógio como quem espera a chegada de um ente querido que esteve distante por muito tempo. Aquela senhora de pouco mais de um metro e meio de altura, cabelos grisalhos, lentamente juntava as mãos e entregava suas manhãs à fé, rezando com um terço entre os dedos.
Eu, que não entendia muito além do desejo de saciar minha vontade de comer, não percebia a beleza poética daquele momento. Um cordão com várias bolinhas e uma cruz em sua extremidade era exatamente a fortaleza onde minha vó habitava todas as manhãs. Diante daquela cena, o velho relógio da parede registrava muito mais que segundos, minutos ou horas. Ele registrava fé, presença, dignidade humana e esperança.
Durante muitos anos pensei que aquele relógio apenas marcava a hora do café, sem perceber que ele talvez fosse o morador mais antigo daquela cozinha. Aquele relógio carregava uma presença difícil de explicar. Não era apenas o barulho incansável dos ponteiros ecoando pela casa. Era também sua essência, seu cheiro de histórias antigas e, por vezes, seu silêncio quando faltava força para seu trabalho diário. Ele, ali pendurado, era como as palavras e as lágrimas que minha vó já não podia contar.
Talvez por isso ele fosse parecido com aqueles livros de contos de fadas que ela guardava no guarda-roupas a sete chaves. O relógio na parede, com toda certeza, conhecia todos nós. Ele acompanhou todas as conversas, percebeu o humor da casa pelo aroma do café ou pelo silêncio da máquina de costura, que também ficava na cozinha. Minha vó talvez soubesse que precisava de testemunhas para tudo aquilo que ela chamava de poesia.
Com o passar dos anos, percebi que aquele relógio não marcava apenas a hora em que o café ficava pronto ou o instante em que minha vó iniciava suas orações. Ele acompanhava pequenos acontecimentos que, para uma criança, pareciam comuns demais para serem guardados. As mãos que preparavam a comida, as conversas que atravessavam a cozinha, os silêncios depois do almoço e os sons de uma casa que, sem perceber, estava construindo memórias.
Hoje percebo que não tenho apenas saudades de minha vó. Existe também saudade das histórias que aquele relógio guardou para si. Das risadas, dos desenhos animados ao fim da tarde, das histórias de suspense que minha vó contava quando lá fora o mundo parecia querer nos assustar com tanta chuva, raios e trovões. Era o relógio, com certeza, quem mais aproveitou o tempo que passeava pelos cômodos daquela casa. Ele, pendurado na parede, descobriu o maior segredo da vida: as melhores histórias acontecem sem palavras. Por vezes, elas se revelam no olhar, no sorriso, mas também nas lágrimas e no vazio.
Aquele relógio, fabricado apenas para marcar o tempo, aprendeu a pertencer. Encontrou outra forma de existir e completar aquele ambiente e, mesmo quando não o percebíamos, permanecia ali, guardando todas as memórias de uma vida inteira.
Hoje aprendemos a registrar quase tudo aquilo que vivemos. Guardamos imagens, mensagens e lembranças em lugares onde podemos retornar quando quisermos. Ainda assim, às vezes sinto falta de alguma coisa que não consigo encontrar nessas novas formas de guardar a vida. Talvez sejam as conversas demoradas, as histórias contadas sem pressa, as pessoas que simplesmente passavam por nós e deixavam um pouco de si pelos lugares onde estiveram.
Talvez tenhamos colocado tantas lembranças ao alcance das mãos que, em algum momento, esquecemos que algumas delas só permanecem porque foram sentidas. Existem coisas que nenhuma fotografia consegue guardar, porque elas não pertencem à imagem, pertencem ao instante em que aconteceram.
Às vezes imagino aquele velho relógio ainda pendurado na parede daquela cozinha, com seus ponteiros continuando a caminhar mesmo depois que tantas coisas mudaram de lugar. Talvez ele ainda saiba o horário do café, o som das cadeiras arrastando pelo chão e o silêncio que ficou depois que algumas vozes deixaram de atravessar aquele espaço.
Hoje entendo que ele nunca foi apenas um objeto marcando as horas. Ele era uma testemunha. Guardava aquilo que ninguém pensava em registrar, porque algumas das coisas mais importantes da vida nunca foram feitas para serem fotografadas ou armazenadas. Elas existem apenas enquanto acontecem: no cheiro do café passado pela manhã, no abraço antes da partida, na oração silenciosa de alguém que acredita e no olhar de quem ama sem precisar dizer.
Esse foi o maior segredo que aquele relógio aprendeu enquanto permanecia na parede: o tempo não é feito apenas dos minutos que passam, mas das pessoas capazes de transformar alguns instantes em lugares onde ainda podemos retornar.
Arte CULTURA ENSAIO Literatura Livros
Last modified: 23/09/2026





