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A floresta só fica de pé onde alguém tem o direito de permanecer

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Talvez a floresta nunca tenha sido apenas um lugar de árvores. Talvez ela sempre tenha sido, antes de tudo, um lugar onde alguém permanece.

Em meados de outubro, o Inpe anunciou que a Amazônia teve a menor taxa de desmatamento desde 1988: 3.335 quilômetros quadrados de floresta perdidos entre agosto de 2025 e julho de 2026, uma queda de quase 42% em relação ao ano anterior. Treze dias depois, na aldeia Jaguapiré, em Tacuru, no extremo sul do Mato Grosso do Sul, um incêndio criminoso destruiu a casa de reza de Ñandesy Roberta, liderança espiritual guarani e kaiowá de 90 anos, e com ela os instrumentos sagrados que guardava para as cerimônias. Uma notícia fala de floresta poupada; a outra, de memória queimada. À primeira vista, parecem vir de países diferentes. Mas talvez sejam a mesma notícia, contada por lados opostos da terra.

Uma casa de reza não é apenas madeira e palha. É onde se canta, onde se reza, onde a palavra dos mais velhos passa para os mais novos sem precisar de papel nem de tinta. Incendiá-la é atacar a memória no exato lugar em que ela é transmitida. E ninguém queima uma casa de reza por acaso. Queima-se porque ela marca, no chão, a presença de um povo que insiste em ficar.

Por um instante, é preciso sustentar as duas imagens lado a lado: a floresta que resiste e a casa que arde.

A floresta amazônica obedece a uma lógica parecida com a da casa de reza. Ela não fica de pé por milagre, nem porque aparece bonita nos cartões-postais. Fica de pé onde alguém tem o direito reconhecido de permanecer nela. Os números do MapBiomas dizem isso com uma clareza quase poética: entre 1990 e 2020, as terras indígenas perderam cerca de 1% da sua vegetação nativa, enquanto as áreas privadas perderam mais de 20%. Ocupando pouco menos de 14% do território brasileiro, as terras indígenas responderam por menos de 2% de tudo o que foi derrubado no país no período. Onde há território demarcado, a floresta respira. Não porque os povos indígenas sejam guardiões românticos de uma natureza intocada, mas porque vivem ali, conhecem cada trilha e cada rio, e porque a terra reconhecida em lei dá ao Estado um instrumento claro para expulsar quem invade.

Essa proteção, no entanto, nunca se sustentou sozinha. Em outubro, mais de trezentos servidores do Ibama, do Prevfogo e do ICMBio foram mobilizados contra os incêndios florestais no Amazonas, lavrando autos de infração e embargando áreas queimadas em Autazes e Careiro da Várzea. No Pará, a Polícia Federal e a Funai destruíram escavadeiras, caminhonetes e barracos de um garimpo ilegal dentro da Terra Indígena Kayapó, onde, na fuga, os garimpeiros abandonaram um trabalhador ferido. São cenas que raramente viram poema e quase nunca viram manchete, mas é delas que depende cada quilômetro de floresta poupado.

Por isso, demarcar terras indígenas é também política ambiental. E é uma dívida antiga. A Constituição de 1988 deu ao Estado brasileiro cinco anos para demarcar todas as terras indígenas do país, e o prazo venceu em 1993. Mais de três décadas depois, segundo o relatório mais recente do Conselho Indigenista Missionário, das 1.443 terras e reivindicações existentes, 897 ainda esperam a conclusão da demarcação, e 582 não receberam nenhuma providência do Estado. Em dezembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal afastou mais uma vez a tese do marco temporal e reconheceu como inconstitucional a omissão da União. O governo federal retomou as homologações depois de quatro anos de paralisia completa, mas em ritmo lento: foram vinte terras entre 2023 e novembro de 2025. No fim de outubro, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e suas organizações regionais enviaram ao presidente reeleito uma carta lembrando que 73 terras já declaradas esperam apenas uma assinatura, e pedindo que todas estejam demarcadas até 2030.

Uma assinatura. É o que separa muitas famílias de uma paz possível.

No Mato Grosso do Sul, onde os Guarani e Kaiowá vivem espremidos entre reservas superlotadas e fazendas erguidas sobre territórios que reivindicam há gerações, a espera se paga com vidas. Em 2025, segundo o Cimi, o estado registrou 37 assassinatos de indígenas, num país que somou 258. Em novembro daquele ano, Vicente Fernandes Vilhalva, de 36 anos, foi morto com um tiro na cabeça quando homens armados invadiram a retomada Pyelito Kue, em Iguatemi, numa terra identificada pela Funai em 2013 e cuja demarcação a comunidade espera há cerca de quarenta anos. Em 2016, em Caarapó, o agente de saúde Clodiodi Aquileu Rodrigues de Souza, de 23 anos, foi assassinado num ataque que deixou ao menos seis feridos, entre eles uma criança de doze anos. O episódio ficou conhecido como o Massacre de Caarapó, e a terra onde aconteceu também estava à espera de demarcação.

Neste outubro, a violência ganhou outra forma. Nos dias em torno do segundo turno das eleições, a Apib recebeu mais de trinta denúncias, a maior parte vinda de comunidades guarani e kaiowá. Em Tacuru, circularam áudios atribuídos a servidores da prefeitura defendendo envenenar a água da aldeia Sassoró, onde vivem mais de 2.400 pessoas. As perícias não encontraram contaminação, os servidores foram afastados e o Ministério Público Federal investiga o caso. Ainda assim, segundo a Apib, muita gente deixou de beber a água do caminhão-pipa depois de ouvir aquelas vozes. O veneno, às vezes, age antes de chegar à água. Age no medo. O Cimi acompanha ao menos cinco mortes ocorridas na região desde 24 de outubro, ainda sem confirmação oficial de que as vítimas eram indígenas, e o governo enviou a Força Nacional às aldeias. Para Voninho Benites, coordenador da Aty Guasu, a grande assembleia guarani e kaiowá, a ameaça de envenenamento “não é uma ameaça isolada, faz parte de como matam nosso povo”.

A presença do Estado é urgente, mas não basta. A resposta duradoura, como as próprias organizações indígenas insistem em lembrar, é terminar o que a Constituição mandou fazer. Enquanto a terra não tiver dono reconhecido, cada retomada será chamada de invasão, e cada família acampada continuará sendo tratada como alvo.

E o que uma revista literária tem a ver com isso? Talvez tudo. A violência contra os povos originários sempre andou acompanhada de uma violência narrativa: a do país que se contou como terra vazia antes de 1500, que chamou de invasão o retorno de uma família ao lugar de onde foi expulsa, que fez de povos inteiros figurantes da própria história. Os áudios de Tacuru só puderam ser gravados porque alguém aprendeu, em algum lugar, a chamar seres humanos de pragas. Antes de chegar à terra, a violência passa pela palavra. E é na palavra que também começa a reparação.

A literatura indígena brasileira não precisa ser descoberta; precisa ser lida. Ailton Krenak, primeiro indígena eleito para a Academia Brasileira de Letras, vem há décadas questionando a ideia de uma humanidade separada da natureza. Davi Kopenawa, em A queda do céu, escrito com Bruce Albert, ofereceu ao mundo o pensamento yanomami como filosofia, e não como folclore. Daniel Munduruku, Eliane Potiguara, Graça Graúna e Márcia Wayna Kambeba fizeram da prosa e da poesia territórios de memória e de denúncia. Desde 2008, a Lei 11.645 obriga as escolas a ensinar história e cultura indígenas, mas lei nenhuma ganha corpo sem livros, sem autores e sem mediadores que a levem até a sala de aula.

A Aorta nasceu para fazer a palavra circular entre territórios, línguas e gerações, e por isso sabe que não lhe cabe falar pelos povos originários. Cabe ampliar as condições para que suas vozes sejam ouvidas, publicadas, lidas e remuneradas. Cabe manter as páginas abertas a autoras e autores indígenas, tratar território e memória como pauta de todos os meses, e não apenas de abril, e levar aos leitores de outros países o que acontece no sul do Mato Grosso do Sul e no coração da Amazônia.

A quem escreve cabe também uma parte desse trabalho, e ela começa por gestos simples. Ler, citar e indicar autores indígenas em resenhas, clubes de leitura, oficinas e salas de aula, tratando suas obras como literatura e não como curiosidade. Ceder o lugar em vez de ocupá-lo, convidando escritores indígenas para antologias, feiras e saraus e garantindo que sejam pagos; e, quando escrever sobre eles, ouvir, creditar e devolver o texto a quem foi retratado. Checar antes de compartilhar, porque a denúncia sem apuração alimenta a mesma desinformação de que se valem os agressores. Escrever contra o esquecimento, dando nome, lugar e consequência aos fatos. E usar a própria voz pública para cobrar a demarcação e denunciar ameaças pelo Disque 100. Nenhum poema derruba uma cerca. Mas a literatura muda aquilo que uma sociedade considera aceitável, e é nesse chão que a demarcação também se decide.

A casa de Ñandesy Roberta pode ser reconstruída com madeira, palha e muitas mãos, como os Guarani e Kaiowá sempre reconstruíram o que lhes foi tirado. O que ela guarda, porém, só continua vivo se houver chão seguro sob os pés de quem canta ali, crianças para aprender os cantos e tempo para que aprendam. Com a floresta acontece o mesmo. Talvez ela nunca tenha sido apenas um lugar de árvores. Talvez sempre tenha sido um lugar onde alguém permanece, e demarcar seja apenas garantir que esse alguém continue lá.

Enquanto houver palavra, haverá resistência.

Fontes

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