"É uma distopia: em vez de imaginar mundos, a gente os consome.
Depois que comermos a Terra, vamos comer a Lua, Marte e os outros planetas" - Ailton Krenak
Lembro que minha avó tinha os pés descalços na terra enquanto jogava milho para as galinhas. Depois dizia algumas palavras, segurando um galho seco voltado para o descampado; abria os braços e parecia que as plantas, os animais, o sol — tudo a partir dali — começavam o seu dia. E suas palavras até hoje me marcam cedo, quando abro os olhos de manhãzinha. Repito-as como uma oração e vou: “que a roda da vida é receber, cuidar e deixar para quem vem em seguida”.
Acordo e sigo com as pontas dos dedos na xícara de café alguns versos de Adélia Prado. O início da manhã precisa ser de conexões. Mas nas notificações do celular há notícias mais frescas do que o pão na mesa da sala. Leio o Ailton Krenak criticando as grandes potências na COP 30 e afirmando que, para se combater a crise climática, o mundo precisa repensar a noção de progresso.
Versio, vertere: uma baleia jubarte foi encontrada no meio da floresta amazônica, na Ilha de Marajó, no Pará, levantando o mistério sobre alguma explicação possível. Tubarões foram achados vivendo dentro de um vulcão ativo nas ilhas Salomão, no Oceano Pacífico, em águas tóxicas, quentes, ácidas e cheias de gases. Baleias-corcundas foram observadas criando anéis circulares perfeitos na presença de seres humanos. Eram 40 anéis de bolhas diferentes dos que elas costumam fazer quando vão caçar, o que sugere que podem estar tentando se comunicar com a humanidade. E ainda não nos perguntamos: o que anda mesmo acontecendo?
Há uma frase de Guimarães Rosa, em “Grande sertão: Veredas”, que diz assim: “Eu não sentia nada. Só uma transformação pesável. Muita coisa importante falta nome”. Penso nessa falta de nome, em seu perigo, por ser de natureza ambígua. Ela guarda um ar atraente e a sondagem do rasteiro e do desconhecido. Mas as coisas sem nome costumam, cedo ou tarde, ganhar ao menos um apelido. Há tantos nomes para as nossas faltas e para o que estamos nos tornando, que essa prática já não é um dia de domingo. É só olhar para as nossas próprias reações diárias, em comparação ao que já fomos um dia. E andamos nos acostumando. Essa “transformação pesável” de que fala Guimarães é o que, mesmo antes de se anunciar, já se remedia. Será que desse modo dá para notar o seu perigo?
A televisão está no último volume: são notícias medidas pelo nível de estranhamento que nos assalta livremente, sem que a gente perceba o quanto de uberização há
nisso. Tudo fornece narrativas destinadas ao ponto certo que pode vibrar ou viralizar mais facilmente. E quase ninguém grita ou enlouquece a partir disso. A impressão que fica pode ser resumida na frase de um dos ditos populares mais conhecidos: “eu quero é que o mar pegue fogo para eu comer peixe frito”.
Alguém fala na fila da padaria sobre pessoas com superpoderes reais que a ciência não consegue explicar: um homem que podia regular a temperatura do corpo, suportando um frio extremo sem problema algum; outro que consegue correr por dias sem parar e sem ficar cansado. Eles são um casal; ambos possuem um brilho animado no olhar quando olham para os lados durante a conversa. Citam um senhor que atrai objetos metálicos com a pele e outro que não é afetado por choques elétricos de alta voltagem. A cada investida acentua-se uma pequena disputa que invade o silêncio de cada ouvinte. E eu me pergunto o que seria mesmo um real superpoder?
Lembro de Stan Lee, em um dos quadrinhos do célebre Homem-Aranha, no qual escreve: “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”,e me pergunto sobre o alcance de uma força que se centra na incompletude de fazer pequenas troças com as pontas dos dedos no próprio umbigo. É angustiante. O filósofo Søren Kierkegaard descreve a angústia como uma vivência que demonstra a liberdade e o dever do indivíduo diante das escolhas da vida. É a partir delas que crescemos.
Volto a Krenak, porque o livro que tenho nas mãos, enquanto a fila não anda, é Ideias para adiar o fim do mundo. Estou no final e percebo um pouco mais sobre o conjunto de saberes que ali se encadeiam. Ao lembrar que tudo é natureza, o líder indígena nos convida para a reintegração: afirma que precisamos perceber que o cosmos, a floresta e a cidade são expressões de um mesmo organismo.
Eu sempre volto. Talvez o maior superpoder que exista hoje seja o de perceber que na vida não se pode fugir dos caminhos, da roda. Ela gira com a lentidão ancestral do que não precisa de explicação. Volto para a minha avó e seus braços abertos no descampado, inventando o dia como quem assegura um mundo possível. Pois me cabe repetir seu gesto enquanto passo seu recado.
Tiago D. Oliveira (Salvador, BA, 1984) é poeta, escritor, professor e pesquisador, com formação em Letras pela UFBA e UNL (Portugal). Foi finalista do Prêmio Oceanos 2020 com o livro As solas dos pés de meu avô (2020), publicado no Brasil e em Portugal. Vencedor do Selo João Ubaldo Ribeiro 2020 com a obra Soprando o vento (2020). Lançou recentemente Caramelo quer ver o mar, 7Letras, (2024). Seu trabalho foca na relação entre memória, ancestralidade, o cotidiano e a paisagem baiana.




