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Roupa de adulto, pijama de criança

por Mariela Sorella

Roupa de adulto, pijama de criança

Estamos em um mundo em que adultos não são mais tão adultos quanto eram no passado.
Circula pela internet um texto do Jornal do Comércio, de 1904, em que uma mulher de 42 anos era chamada de “velhinha”.

Àqueles denominados adultos, pouco era permitido em termos de diversão. Seus trajes eram sérios, seus acessórios eram sóbrios, seus corpos viviam cobertos por densas camadas de tecido e, nas fotografias, quase nunca apareciam sorrindo.

Os tempos mudaram: a expectativa de vida aumentou, os costumes se transformaram e a idade adulta, que antes parecia começar de forma inequívoca aos 18 anos, hoje já não é compreendida da mesma maneira. Sabemos que o amadurecimento humano é muito mais gradual do que se imaginava décadas atrás, e diferentes estudos mostram que nosso desenvolvimento continua muito além da adolescência.

Quem sabe, ser adulto seja só uma roupa grande que a gente veste?

Quem já passou dos 18, 30, 40 ou 50 sabe: no fundo, no fundo, não somos assim tão adultos.

Não importam os cargos, os diplomas, as vestes ou a postura. Em algum lugar dentro de nós existe uma criança que ainda sente medo, que às vezes acha o mundo um lugar assustador, que nem sempre sabe como agir diante de determinadas situações e que, por vezes, gostaria que alguém simplesmente dissesse o que fazer — ou até fizesse por ela.

Hoje temos mais liberdade para mostrar quem somos. Ainda é uma liberdade imperfeita, cheia de expectativas e convenções sociais, mas muito maior do que a vivida por gerações anteriores. E talvez seja justamente por isso que, em vez de apenas livres, muitas vezes nos sintamos perdidos.

Essa criança lá dentro tem voz.

Se antes ela era sufocada debaixo de ternos, gravatas, bigodes, sapatos bem lustrados, espartilhos e saltos altos, hoje ela já encontra algumas brechas para aparecer – e é essa criança, muitas vezes, que nos conduz em direção ao que de fato pode nos fazer felizes.


Surfar, viajar, velejar, ler, ouvir música, dançar, cozinhar — e, por que não?, brincar — fazem parte de uma vida adulta considerada perfeitamente normal.

No meu caso, autora de livros infantis, claramente mora uma criança dentro de mim. E ela é muito, muito espaçosa.
“Adulto” é aquela roupa, aquele par de óculos, que uso quando preciso — e, confesso, uso cada vez menos.
E mesmo que debaixo de uma camada espessa de formalidade, de um adulto que assim o é por idade e por ofício, que se apresente em seu terno impecável e domine todos os protocolos e pronomes de tratamento, essa criança continua ali.

Ela aparece, às vezes, em um gesto de ternura, em um instante de esperança ou, simplesmente, em uma risada inesperada e incontida.

Os livros infantis têm tanta importância e tantos significados para uma criança que seria impossível elencar todos eles.

São, ao mesmo tempo, objetos e portais.

Para as crianças pequenas, podem ser brinquedos: objetos para manipular, descobrir e explorar.
São lúdicos, ilustrados, coloridos, podendo ser de pano, plástico ou papel.

São amigos, companheiros e parceiros na descoberta das letras e da leitura.

São trens, foguetes, aviões capazes de trazer conhecimentos, mas também de nos levar para outros lugares, outros tempos e outros mundos.

Ainda que fosse impossível reunir todos os benefícios da literatura infantil para uma criança, intuitivamente todos nós os conhecemos e reconhecemos.

Mas e quanto aos adultos?

Seria um adulto — até o ponto em que alguém pode realmente ser adulto — beneficiado pela leitura de livros infantis?

Eu diria, com toda a certeza, que sim.

E diria mais: quanto mais adulto, maior talvez seja a necessidade de alimentar a própria criança interior, entrar em contato com histórias leves, rir, se divertir, se emocionar e reencontrar sentimentos que, ao longo da vida, acabaram sendo cuidadosamente guardados.

Ah, quanto uma história infantil pode tocar um coração!

Com sua delicadeza, pode alcançar lugares onde, muitas vezes, nossos discursos adultos já não conseguem chegar.
E o melhor de tudo é que isso não precisa acontecer às claras, diante de outros adultos engravatados, em pleno horário de expediente – pode acontecer à noite, à meia-luz, na segurança do seu quarto, sem que ninguém jamais desconfie.

Exatamente como uma criança travessa faria.

Mariela Sorella
www.marielasorella.com.br
@marielasorella37

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Last modified: 11/08/2026

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