Um manifesto da Revista Aorta pela cultura, pela memória e pela liberdade de criar

Enquanto a humanidade se encaminha para mais um momento caótico da sua história, a Aorta reafirma seu lugar como uma publicação cultural comprometida com a liberdade de criação, com a diversidade de vozes e com uma visão progressista da cultura. Essa posição não nasce de uma filiação partidária, mas da compreensão de que a arte, a literatura e o pensamento crítico só podem florescer plenamente em ambientes onde a dignidade humana seja reconhecida e onde diferentes experiências tenham espaço para existir.
Assumir uma posição progressista significa defender uma cultura aberta ao encontro, capaz de reconhecer as desigualdades históricas e comprometida com a construção de uma sociedade onde ninguém seja reduzido por sua origem, raça, gênero, identidade, condição social ou qualquer característica que faça parte da sua existência. Significa compreender que nenhuma tradição cultural permanece verdadeiramente viva quando é utilizada como justificativa para exclusão, preconceito ou violência.
Por isso, não somos indiferentes diante de discursos racistas, misóginos, xenofóbicos, LGBTfóbicos ou de qualquer manifestação que transforme diferenças humanas em argumentos para retirar direitos ou diminuir pessoas. A liberdade de expressão, princípio essencial de uma sociedade democrática, não pode ser confundida com a liberdade de desumanizar. O diálogo só existe quando reconhecemos o outro como alguém que também possui história, memória e direito à existência.
A arte sempre esteve ligada à capacidade humana de questionar aquilo que parecia definitivo. Muitas das transformações sociais que hoje reconhecemos como avanços nasceram primeiro no campo simbólico, através de escritores, artistas e pensadores que tiveram coragem de revelar conflitos, denunciar injustiças e imaginar novas formas de convivência. A criação artística não elimina os problemas de uma sociedade, mas oferece algo fundamental para que eles possam ser compreendidos: a capacidade de olhar novamente para aquilo que muitas vezes preferimos ignorar.
A história humana sempre foi escrita pela necessidade de contar. Antes mesmo que existissem livros, bibliotecas ou qualquer uma das estruturas que hoje reconhecemos como espaços de preservação cultural, homens e mulheres já buscavam registrar aquilo que atravessava suas vidas por meio de símbolos, imagens, cantos e narrativas. Desde os primeiros gestos de comunicação até as mais complexas formas de criação artística, a palavra permaneceu como uma das ferramentas mais profundas que encontramos para preservar memórias, compartilhar experiências e estabelecer diálogos entre diferentes gerações.
É por meio das histórias que uma sociedade reconhece suas origens, compreende suas contradições e encontra caminhos para imaginar aquilo que ainda não existe. Cada livro publicado, cada poema escrito e cada obra criada carregam não apenas a expressão individual de seus autores, mas também marcas de um tempo, de uma cultura e de uma experiência coletiva que encontra na arte uma forma de permanecer. Quando uma narrativa encontra leitores, ela deixa de pertencer apenas a quem a criou e passa a integrar uma memória maior, construída por todos aqueles que se reconhecem, se questionam ou se transformam através dela.
Por essa razão, a cultura nunca ocupou um lugar secundário na história humana. Ela é um dos espaços onde uma sociedade preserva aquilo que considera importante lembrar, onde diferentes vozes encontram possibilidade de existência e onde experiências que poderiam ser esquecidas encontram uma forma de atravessar o tempo. Uma sociedade que valoriza sua cultura não está apenas protegendo suas manifestações artísticas; está protegendo também sua capacidade de pensar sobre si mesma.
Talvez seja justamente por compreender essa força que a cultura sempre esteve entre os primeiros territórios ameaçados quando projetos autoritários avançam. Ao longo da história, aqueles que buscaram controlar sociedades perceberam que não bastava dominar instituições ou estruturas políticas; era necessário também interferir na maneira como as pessoas compreendiam o passado, interpretavam o presente e imaginavam o futuro. Controlar narrativas significa limitar possibilidades, porque uma sociedade privada de suas próprias histórias torna-se mais vulnerável ao apagamento e à imposição de uma única visão de mundo.
Os exemplos históricos revelam essa relação com clareza. A queima de livros promovida pelo regime nazista em 1933, a perseguição de artistas e intelectuais em diferentes regimes autoritários e a censura cultural vivida durante a ditadura militar brasileira demonstram que o ataque à cultura raramente acontece apenas contra uma obra específica ou contra um artista isolado. O que está em disputa é algo maior: a possibilidade de uma sociedade continuar produzindo pensamento, memória e questionamento.
A história não deve ser compreendida apenas como um registro do que passou, mas como uma ferramenta de compreensão do presente. Quando observamos o crescimento de movimentos políticos de extrema direita em diferentes partes do mundo, marcados frequentemente por discursos de intolerância, revisionismo histórico, ataques à diversidade e tentativas de enfraquecer espaços culturais e educacionais, percebemos que a disputa pelo campo simbólico continua sendo uma das grandes questões do nosso tempo.
Em um ano eleitoral no Brasil, essa responsabilidade torna-se ainda mais evidente. Uma publicação cultural não deve substituir o debate político ou ocupar o lugar das instituições democráticas, mas precisa defender os valores que permitem que a própria cultura exista: liberdade, memória, diversidade e pensamento crítico. A disputa pelo futuro de uma sociedade não acontece apenas nas urnas; ela também acontece no campo das narrativas, onde ideias são construídas e onde determinadas visões de mundo buscam conquistar espaço no imaginário coletivo.

É justamente nesse território que a cultura exerce sua maior importância. Uma obra literária pode aproximar pessoas de realidades que elas jamais conheceriam. Um poema pode revelar sentimentos que ainda não haviam encontrado linguagem. Uma criação artística pode ampliar nossa percepção sobre aquilo que nos cerca e lembrar que a experiência humana sempre será mais complexa do que qualquer narrativa que tente reduzi-la.
A resistência cultural, portanto, não está apenas nos grandes acontecimentos que posteriormente serão registrados pelos livros de história, mas também nos gestos cotidianos daqueles que continuam acreditando na força da criação humana. Ela está no escritor que transforma sua experiência em narrativa, no artista que encontra caminhos mesmo diante das dificuldades, no leitor que se permite conhecer uma realidade diferente da sua e em todos aqueles que compreendem que preservar uma memória é também defender a possibilidade de um futuro mais amplo.
É nesse compromisso que a Aorta continuará existindo: como espaço de encontro entre vozes, como território de preservação da memória e como uma publicação que acredita que a palavra possui uma força capaz de atravessar tempos difíceis. Aquilo que é escrito, compartilhado e reconhecido por outras pessoas nunca pertence apenas ao instante em que nasceu; uma história pode atravessar fronteiras, gerações e circunstâncias porque carrega consigo algo essencial da condição humana.
Enquanto houver palavra, haverá resistência.
Alex Brito
Editor-chefe da Revista Aorta
Arte CULTURA Literatura Livros
Last modified: 14/09/2026





