por Ricardo Leal Lemos

A cabra é um dos mamíferos mais adaptáveis do mundo animal. Da selvagem cabra-montês aos caprinos que crescem nos nossos estábulos, estes animais materializam a energia, o equilíbrio e a resistência necessários para subsistir nas paisagens mais inóspitas, proliferando e servindo de alimento a predadores de topo, como lobos, tigres…ou humanos.
No caso de localizações mais abundantes, os caprinos são agentes de modelação do território que contribuem para a prevenção de catástrofes, como incêndios, ao alimentarem-se de todo o tipo de vegetação altamente combustível, como arbustos que outras espécies rejeitam.
O caráter caprino vai muito além da sua agitada vida. Na morte, a sua carne carateriza-se pelas qualidades nutritivas e pelo sabor pronunciado. De tal forma, que, em Portugal, a título de exemplo, é na chanfana, prato em que a receita de um estufado vai ao forno numa panela de ferro, embebida em alhos, cebolas, sal, ervas aromáticas e muito vinho tinto, que esta é mais apreciada. Porém, é neste vinho que a cabra perde grande parte do seu gosto natural, tornando-se mais adequada ao paladar da maior parte dos comensais.
A relação da cultura popular com a evolução tecnológica, nomeadamente com o mundo digital e, mais tarde, a inteligência artificial (IA), tem muito de chanfana.
Os apreciadores de uma receita inscrita pela avó de alguém num velhinho e manchado caderno de notas, de uma história de cordel feita hoje com a encadernação artesanal de antigamente ou do soar dos batuques orgânicos numa canção constituem a legião que preserva a tradição, a pureza de cada interpretação com três ou quatro décadas e a memória da recriação feita de amor, nostalgia e preceito.
Porém, o que dizer daqueles que transpõem a receita para o seu Instagram com a ajuda da IA Generativa, em forma de imagem ou vídeo, e a reproduzem, em direto, ou gravada, no seu canal de Tik tok ou YouTube? E daqueles que criam podcasts coma narração em forma de cordel da perseguição policial que deu ontem no noticiário da noite? Ou até dos que, a milhares de quilómetros de distância, recriam, no conforto da sua casa ou no meio da natureza, os batuques de uma cultura tão diferente da sua, para os colocar na sua nova música, recriada com recurso a samples, a IA ou a misturas com elementos orgânicos, de síntese e digitais? Serão estes detratores da cultura popular, ou na verdade, Prometeus da sua dessacralização, em cada época, capazes de transportar a sua chama para as gerações vindouras da forma que estas a queiram receber?
Sem dúvida que a inclinação para uma das duas visões dependerá do grau de receio que cada um tenha das modificações de época e da sua consequência na tradição ou na qualidade final de cada…produto. Sim, porque produto não é apenas o que se vende, mas também o resultado de uma operação de multiplicação. Os números que se multiplicam entre si são fatores.
Tal como na Antiguidade, as palavras fazem coisas. A sua poesia, ou poiesis, é criação teórica, concetual, com tradução na praxis, na prática. E os fatores, quais ingredientes de uma receita, palavras inscritas ou impressas no papel ou sons de uma canção gerarão, uma e outra vez, produtos culturais. Serão estes populares? A menos que sejam escondidos da Humanidade, de acesso especialmente exclusivo, serão sem dúvida. E se tiverem preço? Serão menos populares, mas populares ainda assim.
Quer isto dizer que, no futuro, poderemos pedir chanfana sem vinho? Dificilmente, mas pode acontecer. O que é provável, porém, é que possam aceder, nas redes sociais do restaurante, a uma animação realizada com IA sobre a receita, acompanhada de uma banda sonora confecionada por um músico cuja cultura de origem é asiática, e que é também produtor do podcast que recria em áudio a literatura de cordel de Leandro Gomes de Barros.
O que será, de todo impossível, é como numa cadeia de comida rápida, pedir chanfana, e ainda para mais como quem pede um hambúrguer, natura, sem a contaminação do tempo em que é produzido e consumido.
A passagem do tempo, como o vinho, deixa o seu gosto e aroma em tudo o que criamos. Possa assim a cultura de que somos percursores ter a adaptabilidade de uma cabra, saltitante, pelos montes, ou temperada, para nos nutrir e sustentar a vida.
Créditos de imagem:
1. ChatGPT
2. https://www.pexels.com/pt-br/@tima-miroshnichenko/
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Last modified: 01/09/2026





