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É mais fácil ler do que conversar

por Diana Cândido S.

É mais fácil ler do que conversar.

As tardes eram as mais longas na pequena mesa de café, na velha taverna do meu pai. Os horários dele eram os meus, a única hora que realmente me pertencia era a de quando desfolhava.

É de conhecimento geral que ler bastante, com variedade, e escrever na mesma medida, desenvolve a nossa comunicação muito mais depressa. Porém, não usufruía desta última com o mesmo gosto.

Quanto mais disponibilizava a mente, menos a boca se movia, preferia que não me retirassem o momento em que saía da realidade e podia ser alguém que não era. Os livros dão-nos essa capacidade de camaleão.

Era muito mais interessante viver neles, entre paredes com azulejo branco, pintalgado com um azul quase impercetível, do que dizer ao senhor cliente como corria a escola, ou ouvir da senhora dona que eu estava a ficar mais roliça.

A leitura que começa cedo nutre o conhecimento e a alma de formas que a socialização não o faz, talvez por essa mesma razão, muitos se tornem introvertidos e optem por amar as figuras que representam alguém, uma sombra no canto da mente ao invés da carne e do osso.

E está tudo bem.

Se souberem viver com tais condições, entre cortes de papel nos dedos e o aroma constante de biblioteca. Uma maravilha.

Os livros também desiludem, fazem o coração mirrar; não são uma barreira para conhecer outras pessoas, mas antes um filtro que nos ajuda a ser mais selectivos. Não são só sonhos e cultura; através da leitura conseguimos também desenvolver a inteligência emocional, pelo menos para com as personagens que ficam ou nos fogem pelos dedos, pessoas reais são mais imprevisíveis do que uma história já selada no seu final.

A alquimia entre as palavras e o cérebro tem a sua fórmula bem estudada e orientada e ainda com um sabor de je ne sais quoi que não cabe num humilde frasco.

Ainda fica por explicar o conforto que é para quem não o sabe. Se a curiosidade for muita para descobrir basta pegar no primeiro, a menos que tenham amor à carteira, o caso muda de figura.

O que me impedia de morar numa biblioteca? Talvez a aversão ao pó, tradicionalmente todos sabemos que blocos de folhas com tinta e mundos são o eixo gravitacional favorito das partículas mais aborrecidas do mundo. Aí viramos camaleões com uma rinite alérgica agravada e ainda assim satisfeitos com o sacrifício só por poder ler mais uma página, mais um capítulo.

Como tal não me era possível ficava então horas sentada na cadeira de pedra, entre conversas alheias sobre futebol, cerveja e o “Como vai a família?”

Com o tempo passei a adotar o sistema de ouvir música enquanto lia, a técnica quase perfeita para construir uma parede invisível que protegesse a minha bolha, evidentemente havia sempre alguém com demasiada vontade para estourar e geralmente sempre na melhor parte.

O sorriso amarelo era evidente, mas a vontade dos mais velhos estava cumprida, o respeito parcial.

Hoje sou de boas conversas, a sociedade levou-me a que fosse necessário para sobreviver. Compreendo só com o observar o que cada um precisa, aprendi com quem sofreu nas páginas que marcava, aprendi a ser eu sem pedir permissão, inspirada nas histórias de mulheres que se superavam diariamente.

Em qualquer idade, em qualquer parte, aproveitem o presente para abrir a mente, deixar o lixo fora de casa e acender a luz.

Leiam o que mais amarem e o que vos fizer sentir em casa, seja romance, fantasia, terror ou ciência, nesse vosso canto sintam-se livres para estarem convosco, no vosso tempo.

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Last modified: 15/09/2026

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