O romance narra a história de Germano, um médico pardo que passa a se deparar com um profundo sentimento de inadequação ao longo da sua ascensão na sociedade
por Ana Ferrari*

Quais são os dilemas trazidos pela ascensão social? Quais são as culpas que o indivíduo passa a assumir? E as hipocrisias com as quais passa a se deparar? Estas e outras questões existencialistas estão presentes na obra O homem não foi feito para ser feliz, romance de estreia de Maurício Mendes publicado pela editora Mondru (184 págs.). A obra conta com textos de prefácio e blurb assinados pelo escritor Santiago Nazarian, segundo blurb por Evelyn Blaut, escritora, crítica literária e diretora do Centro Cultural Astrolabio e terceiro blurb da escritora Natércia Pontes.
No livro, o autor desenvolve a narrativa em primeira pessoa a partir da visão de Germano, um protagonista pardo que ascende socialmente, mas carrega feridas que não se apagam com títulos ou prestígio. Assim, ao virar as páginas, acompanhamos a trajetória do personagem desde a sua formação em Medicina, ao sucesso na profissão, passando ao mesmo tempo por experiências de amor frustradas, relações mal resolvidas e um crescente sentimento de inadequação. Permeada pela crítica social, a obra provoca o leitor a refletir sobre questões como solidão, racismo, inadequação, masculinidade, desumanização, mercantilização da saúde, misoginia e falência dos relacionamentos.
Maurício é médico especialista em Medicina Nuclear e residente em Fortaleza. Apaixonado por literatura, mantém uma página sem fins lucrativos no Instagram para promover novos talentos literários e lidera um clube presencial de leitura. Com uma abordagem irônica e reflexiva, suas narrativas desafiam o leitor a questionar certezas e encarar as fragilidades da realidade.
Confira a seguir uma entrevista com o autor
Seu livro aborda tópicos bastante complexos como, por exemplo, o racismo, a desumanização, a mercantilização da saúde e a misoginia. Por que você escolheu tratar desses temas?
Acredito que a seleção dos temas por parte de um escritor nem sempre se configura como um processo plenamente consciente, e nutro certa desconfiança em relação àqueles que justificam suas preferências como se fossem escolhas deliberadas. Frequentemente, tais opções emergem do inconsciente, e o que o autor faz é buscar, em sua própria trajetória, uma explicação lógica que conferira sentido à sua produção literária – uma justificativa que se apresente como coerente. E essa é, de fato, a grande missão da literatura: proporcionar sentido onde, à primeira vista, parece não haver nenhum. No meu caso, essa indagação aborda o cerne do que impulsionou a escrita de “O homem não foi feito para ser feliz”. Esses temas — racismo, desumanização, mercantilização da saúde, misoginia — não foram selecionados por sua polêmica, mas por sua veracidade. Eles permeiam o cotidiano de inúmeras pessoas, muitas vezes de maneira silenciosa, brutal e sistemática. Ignorá-los seria perpetuar a lógica de apagamento que o romance, por sua essência, busca denunciar. Minha escolha foi pautada por considerações éticas e estéticas. Ética, pois creio que a literatura deve inquietar, provocar e iluminar áreas de sombra. Estética, uma vez que esses temas não são tratados como bandeiras, mas como fissuras na alma dos personagens, em especial de Germano, que encarna a contradição entre privilégio e vazio existencial. A mercantilização da saúde, por exemplo, aparece não como uma crítica direta ao sistema, mas como um pano de fundo que evidencia a indiferença com que vidas são tratadas como números. O racismo e a misoginia não são abordados como tópicos isolados, mas como estruturas que moldam relações e violências cotidianas. E a desumanização dos afetos é o fio condutor: ela se manifesta na maneira como Germano percebe o mundo, mas também na forma como o mundo o observa.
O protagonista, Germano, é descrito como alguém que ascende socialmente, mas carrega feridas. De que forma o livro explora a tensão entre o sucesso externo e a inadequação interna?
O homem não foi feito para ser feliz; é, entre outras coisas, um estudo sobre o fracasso disfarçado de êxito. Germano ascende socialmente: ele tem o cargo, o prestígio, o apartamento com um aquário marinho repleto de corais vivos. Mas tudo isso funciona como uma espécie de maquiagem sobre feridas que não cicatrizaram. O romance explora essa tensão como uma ironia cruel: quanto mais ele conquista, mais se afasta de si mesmo.
O sucesso externo de Germano é construído sobre concessões, silenciamentos e pactos com estruturas que ele despreza, mas das quais depende. Ele é um homem negro “mais puxado para o pardo”, como se define, que se tornou funcional num sistema doente. E essa funcionalidade é o que o adoece por dentro.
A inadequação interna aparece nos gestos mínimos: na forma como ele se relaciona com o corpo, com o desejo, com os outros. Germano não aprendeu como amar, nem a reconhecer o amor. E isso talvez seja mais um sintoma de uma sociedade que confunde valor com utilidade, do que um desvio.
A literatura, nesse caso, não oferece redenção, mas espelho. Germano é o retrato de uma geração que aprendeu a vencer, mas não a viver.
“O homem não foi feito para ser feliz” flerta com o sentido da existência. Como o livro explora a busca por significado em meio à solidão e aos relacionamentos fracassados de Germano?
A busca por significado em “O homem não foi feito para ser feliz” não se revela através de grandes epifanias ou iluminações transcendentais. Ela se manifesta nos destroços, nos silêncios que intercalam uma conversa e outra, no autoengano incessante de Germano, nas relações que ele sabota ou abandona antes mesmo de se esforçar. Germano é um homem que tenta preencher o vazio com conquistas, mas cada triunfo social apenas aprofunda o abismo interno. Ele acumula relacionamentos desprovidos de afeto, sem durabilidade, sem lembranças. A solidão que o envolve não é meramente circunstancial — é estrutural. Os relacionamentos fracassados atuam como espelhos quebrados: revelam facetas de Germano que ele preferiria ignorar. Camille o desafia, João Neto se afasta, Marisa não o reconhece: são tentativas de conexão que falham porque Germano não consegue se vulnerabilizar. E sem vulnerabilidade, não há sentido possível. O romance não entrega respostas simplistas. Pelo contrário: sugere que, talvez, o sentido da existência não resida em descobrir algo, mas em suportar o vazio com alguma dignidade. Germano não é um herói, nem um vilão. Ele é um homem comum, lutando para sobreviver ao seu próprio excesso de lucidez.
A estrutura do livro é fragmentada e não linear, certo? Como essa escolha estilística ajuda a retratar a “complexidade humana em tempos sombrios” e o fluxo de consciência de Germano?
Exatamente. A estrutura fragmentada não foi apenas uma escolha estética, mas uma afirmação filosófica. Ela reflete a própria impossibilidade de narrar a existência de forma ordenada quando se vive em tempos de colapso emocional, social e ético. Ao romper com a linearidade, o romance permite que o leitor entre diretamente nesse labirinto mental. Apesar dessa descontinuidade das cenas e dos saltos temporais, mantive-me atento à lógica da narrativa tradicional. Dessa forma, o leitor pode experimentar uma leve sensação de confusão, mas não se desprende da história.
Você é médico nuclear de profissão, algo bastante distante da área da literatura. Quando surgiu o impulso de escrever?
Eu escrevo projetos de romance desde muito jovem. Sempre foi o que eu queria fazer e nunca escondi esse desejo – de me tornar um ficcionista –, das pessoas próximas a mim. Eu escrevia à mão e guardava tudo em caixas junto a uma estante apinhada de livros. Na época da pandemia precisei remover essas caixas que estavam na clínica onde trabalho e me deparei com vários projetos de romances inacabados. Tive medo de que tudo terminasse ali e essas histórias nunca pudessem ser lidas. Foi o evento catalisador para, enfim, dedicar-me a concluir meus projetos literários.
Qual seu estilo de escrita? O que você costuma ler e que acaba influenciando na sua escrita?
Meu estilo de escrita é contemporâneo, irônico, reflexivo, ácido e paradoxalmente sensível. Ele nasce do desconforto. É fragmentado, errático, por vezes seco, por vezes lírico. Gosto de trabalhar com o que não é dito, com o intervalo entre os gestos, com a memória falha e personagens falhos.
Minhas influências são menos literárias e mais existenciais. Cortázar me ensinou a brincar com o tempo e a lógica, a desconfiar da linearidade. Modiano me mostrou que a memória é uma névoa — e que escrever é tentar atravessá-la sem mapa. Houellebecq me confronta com o niilismo contemporâneo, com a sexualidade como sintoma, com a solidão como estrutura. E Annie Ernaux me ensinou que a escrita pode ser um ato político mesmo quando fala do íntimo e o cotidiano é um campo de batalha silencioso.
E como você escolheu o gênero adotado no livro?
A definição do gênero não foi uma decisão deliberada. Pode ser que, na verdade, eu tenha sido escolhido por ele, e que essa não tenha sido uma escolha. Talvez seja fruto do meu acervo literário. A literatura contemporânea sempre me ofereceu as perguntas certas, os silêncios necessários e os conflitos que me provocam. Escrever nesse gênero é quase uma extensão do modo como enxergo o mundo.
Quais foram as principais influências literárias na escrita deste livro?
Minha obra tem muitas influências: dos poetas são lembrados e reverenciados Auden, Yeats, T. S. Eliot, Anna Akhmatova, Louise Glück, a portuguesa Sophia de Mello e o maranhense Nauro Machado. Dos ficcionistas a obra tem fortes influências de Cortázar (que é um caso à parte no livro), Philip Roth, Paul Auster, Michel Houellebecq e J. M. Coetzee.
A escrita deste livro te afetou de alguma forma? O que ele representa para você?
Escrever este livro foi como atravessar um espelho: cada palavra me revelou algo que talvez eu não soubesse sobre mim. Tudo nos transforma, até mesmo o silêncio entre uma frase e outra. Este romance de estreia é o primeiro gesto público da minha voz literária, o início de um caminho que venho traçando há anos em silêncio.
Em sua análise, quais as principais mensagens que podem ser transmitidas pelo livro?
Não acredito que a literatura deva carregar uma “mensagem” como quem entrega um pacote pronto ao leitor. Quando um autor começa a escrever ficção já pensando em passar uma mensagem corre um enorme risco de virar panfletário. A ficção, para mim, é território de ambiguidade, de perguntas sem resposta, de desconfortos produtivos. O homem não foi feito para ser feliz é um romance que se abre em múltiplas direções: há crítica social, há questionamento existencial, há exposição das fissuras do masculino contemporâneo e há também amor, mas nunca idealizado. O que ele transmite talvez dependa menos do que está escrito e mais do que o leitor está disposto a enxergar.
*Ana Ferrari é uma jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduanda em Edição e Gestão Editorial pelo Núcleo de Estratégias e Políticas Editoriais (NESPE). Sempre teve forte ligação com a literatura e às vezes se aventura a escrever textos ficcionais.
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Last modified: 25/06/2026























