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Jorge Washington: a arte como caminho e a cultura negra como compromisso

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Ator do Bando de Teatro Olodum, diretor e idealizador do Culinária Musical, Jorge Washington fala sobre sua trajetória, o reconhecimento do teatro negro e a força cultural de Salvador.

Conheci o trabalho de Jorge Washington no Bando de Teatro Olodum. Com o tempo, passei a conhecer também o homem por trás do artista: alguém de uma generosidade que se revela nos gestos, na maneira como acolhe as pessoas e na disposição para fazer acontecer. Jorge tem a capacidade de reunir gente talentosa e criar espaços onde a cultura se encontra com a vida.

Sua trajetória começou na Liberdade, bairro de Salvador onde nem sempre a arte estava ao alcance de todos. Foi o encontro com o teatro e com o movimento negro que ajudou a definir seus caminhos. Há 36 anos, sua história se entrelaça à do Bando de Teatro Olodum, grupo fundamental para a afirmação da presença negra nas artes cênicas brasileiras.

Jorge também encontrou na gastronomia uma forma de expressão. Com o Culinária Musical, criou um espaço em que a comida afetiva divide lugar com a música, a literatura e outras manifestações artísticas. O projeto se tornou um ponto de encontro para artistas, escritores, empreendedores e pessoas que acreditam na força da cultura.

Nesta conversa com a Aorta, Jorge revisita os caminhos que o trouxeram até aqui e fala sobre o que ainda deseja realizar. Suas respostas revelam um artista que não se acomoda com as conquistas e que continua encontrando na arte razões para seguir em movimento.


Entrevista

1. Jorge, antes de ser o artista reconhecido que é hoje, existiu um homem que escolheu a arte como caminho. O que fez você entender que era no palco que queria estar? E o que ainda hoje faz você permanecer nele?

Olha, pra ser o artista que eu sou hoje, pra estar aqui nesse lugar hoje, não foi fácil, né?

Eu, menino, nasci e fui criado no bairro da Liberdade, sem perspectiva. Onde a gente não tinha o privilégio que tem o povo de hoje, de ter a arte na porta de casa, não tinha nada disso.

Eu tinha um centro social urbano, onde ia jogar bola, e por um acaso eu descobri que ia ter uma peça de teatro. E eu conheci esse grupo de teatro do Calabar, e lá eu me engajei, eu fui convidado a participar e me engajei.

O meu encontro com o movimento negro também me fez esse cidadão melhor que eu sou hoje. Então, foi o encontro com essas duas linguagens: Tanto o teatro quanto o movimento negro, que me deram régua e compasso.

E eu sou um cara inquieto. Eu sempre fui inquieto e continuo inquieto, e isso é bom, né? Metendo a cara em várias frentes. É culinária, é teatro, é aula, é palestra, é tudo, né? Onde tem arte, eu tô metido.

E o que me faz ter essa, digamos assim, esse tesão de estar hoje ainda, né? Fazendo dessa forma, é porque a arte movimenta, né? A arte transforma, a arte toca no coração das pessoas, né?

E essa arte política que a gente faz com o Bando de Teatro Olodum, né? Da forma que a gente faz, né? Agora, nesse momento agora, ministrando oficina em três núcleos: um no Centro, outro no Uruguai, outro em Plataforma.

Há 36 anos a gente vem fazendo isso. E a cada dia é mais um desafio, né? Então é por isso que eu permaneço e tenho muito gás ainda pra queimar nessa trajetória, sabe, Olga?

Então é sobre isso.

2. Você é ator, diretor, produtor cultural e afrochefe. São linguagens diferentes, mas todas passam pela criação e pela arte. O que existe de Jorge em cada uma dessas frentes? E existe alguma delas em que você se sente mais inteiro como artista?

É engraçado essa segunda pergunta, porque parece que são coisas distintas, mas não são, elas se atravessam, porque quando eu estou no palco ensaiando, quando eu estou criando, eu estou colocando em prática, por exemplo, o que eu estou vivenciando quando eu estou no São Joaquim, fazendo compras para abastecer o Culinária Musical, e eu vejo muita arte naquele espaço.

Quando eu faço a edição do Culinária Musical, a forma com que as pessoas se divertem, apreciam, comem, tudo aquilo ali é material para me abastecer para a arte que eu faço enquanto ator.

O diretor também colhe desses frutos aí, porque a direção é aquele olhar mais apurado, você vê o outro ator com uma carga dramática, e a gente vai improvisando, e eu vou dirigindo, e eu vou costurando, e eu vou montando, e convidando outros artistas.

A exemplo do recital Vozes Negras, eu tenho o Dão, eu tenho o Denise, eu tenho o Jamile Alves, eu tenho o Liz Gonçalves, Maurício Lourenço, Fábio Santana, são artistas que para mim são completos.

E é muito fácil você dirigir artistas como esse, mas é fácil porque também a gente tem uma bagagem de acúmulo, de aprendizado ao longo desses 36 anos de Bando, trabalhando com Márcio Meirelles, com Chica Carelli, com Zebrinha, com Jarbas, e outros e outros que já passaram por esse processo.

Então eu sou essa pessoa que observa, e eu vou aprendendo na observação.

Então quando eu junto todas essas linguagens, diretor, ator, afrochefe, para mim é atravessamento, um atravessa o outro, e um alimenta o outro.

Então é gostoso fazer essas coisas todas.

3. O Bando de Teatro Olodum é reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia. Depois de tantos anos fazendo parte dessa história, o que esse reconhecimento representa para você enquanto artista negro que ajudou a construir esse legado? E o que não pode se perder dessa trajetória?

Olha, ser patrimônio imaterial é um prêmio, né? É um prêmio que nos mostra que a gente está no caminho certo.

Jamais a vaidade vai nos tomar conta e dizer: “Bom, já fiz até aqui”. Não.

A gente continua fazendo, a gente continua indo para as comunidades, a gente continua escrevendo nossos projetos, buscando mais e mais subsídios para poder expandir essa arte, formar outras pessoas, criar novos espetáculos para apresentar para essas pessoas.

E através desses espetáculos, a gente levar uma palavra que ajude a pessoa a se reconhecer, a se transformar, a repensar até em que nível que a gente está, entendeu?

Então, ser patrimônio imaterial é muito bom, mas a responsabilidade da continuidade é maior.

4. “Ó Paí, Ó” se tornou uma obra muito representativa de Salvador, levando para o cinema personagens, sotaques, conflitos e, principalmente, a potência cultural do Pelourinho. Como foi para você, enquanto artista e integrante do Bando de Teatro Olodum, participar dessa experiência? O que os filmes significaram para a representação da Salvador negra no cinema brasileiro?

Ó Paí, Ó é um capítulo muito especial na nossa trajetória.

Ó Paí, Ó nasce de uma peça de teatro, em 1992, peça essa que foi montada em uma semana.

A gente queria matar Márcio Meirelles, porque a gente achou que a peça não estava pronta, que ele queria escrotizar a gente, foi uma confusão, e terminou que a peça estreou e foi um sucesso absoluto. Ainda enquanto teatro.

E ela tocava tanto nas pessoas, que quando a gente fez uma temporada no Rio de Janeiro, em 1993, ou foi em 94, não me lembro agora exatamente o ano, mas Caetano Veloso viu essa peça e ficou encantado.

Ele foi o primeiro a transformar essa peça em um roteiro de cinema.

Só que não deu muito certo, porque ele estava associado com um estúdio americano, e os caras meteram a mão no roteiro e ele não gostou, deixou para lá.

Aí Lázaro Ramos, já fazendo sucesso, já um ator reconhecido, foi buscar pessoas que pudessem concretizar esse projeto. E aí ele chamou Monique Gardenberg.

Monique Gardenberg topou a parada, conversava com Caetano. Caetano liberou. E aí eles fizeram o filme.

E o filme nasce nesse boom, que o Brasil se choca com essa forma de representação, nua e crua.

Então é um filme que a gente tem muito orgulho de ter feito, tanto o 1 quanto o 2, porque é um filme que comunica muito, [trecho da transcrição a conferir].

Daquela forma lá que a gente enxergava nos anos 90. Largada, abandonada. E a gente foi uma voz também, né? Que se levantou a favor daquela comunidade.

Então é muito bom ser ator desse projeto, ser criador, um dos criadores desse projeto. É muito bom. Dá um orgulho danado de ver, né? A gente se vê na tela grande.

E depois virou a série de TV na Rede Globo, maior emissora do país, né? Teve duas temporadas da série Ó Paí, Ó, com três episódios cada.

Então é motivo de muito orgulho mesmo.

5. O Culinária Musical nasceu em Salvador, mas já ultrapassou as fronteiras da cidade. O que você acha que a Bahia tem de tão potente culturalmente que precisa ser levado para outros lugares e o que você gostaria que as pessoas de fora entendessem sobre Salvador para além dos estereótipos turísticos?

O Culinária Musical é esse projeto que eu tenho tanto carinho, tanta paixão, que eu venho fazendo há nove anos e em março a gente completa dez anos, né?

Que essa mistura, a culinária afetiva, a culinária de memória que me move é o carro-chefe desse projeto, né?

As pessoas vão lá para degustar os pratos, as comidas, mas além disso a gente tem sempre uma boa música, tem uma literatura, tem uma dança, tem um teatro, tem várias coisas, são várias linguagens interagindo ao mesmo tempo no Culinária Musical, né?

Então já virou, o Culinária está virando referência na questão de literatura, olha que loucura, você não tem noção da quantidade de pessoas que me procuram para lançar livro no Culinária.

O Cantinho do Empreendedor, da Empreendedora também é um sucesso, né?

Então, e essa mistura da culinária que mostra essa Bahia potente que é, na culinária e em outros sentidos.

Então o que é que as pessoas que vêm de fora, vêm para Salvador, é um encontro que as pessoas têm de alma, sabe? Eu acho que é isso que movimenta estar em Salvador, né?

Todo mundo que chega aqui sente a energia e é incrível que tem coisas que não é nem vista, né? É como eu me sinto, por exemplo, quando eu chego em Cachoeira.

Eu chego em Cachoeira, parece que eu estou levitando e não é a olho nu, você não consegue enxergar o que é que está lhe movendo daquele jeito.

E aí, a mesma coisa é Salvador.

As pessoas vêm, a gente tem aqui pessoas carismáticas, a gente sai de Salvador.

Recentemente, eu estive em São Paulo, as pessoas não se cumprimentam na rua. Ninguém dá um bom dia, ninguém dá um oi, ninguém conversa com ninguém.

Aqui não, aqui a gente conversa, a gente fala com as pessoas, tem um sorriso.

Você vai comprar um acarajé, troca uma ideia com a baiana. Vai comprar um caldo de cana, troca uma ideia com o vendedor. Vai na feira do São Joaquim, conversa com todos os vendedores.

Então é uma Bahia que é viva e pulsa, né?

Então que as pessoas que cheguem aqui, não venham com esse olhar estereotipado, achando que tudo aqui é festa, tudo é alegria.

A gente trabalha muito. Agora a gente trabalha muito, mas a gente se diverte também. A gente vai à festa.

A gente não trabalha só para comprar carro, comprar casa. A gente compra a casa, compra carro e se diverte.

6. Depois de tantos anos dedicados à arte e à cultura negra, existe alguma coisa que ainda falta você fazer? Algum personagem que gostaria de interpretar, uma história que gostaria de contar ou um projeto que ainda está guardado dentro de você?

Ao longo desses anos todos, fazendo tudo isso que eu faço, se eu ainda tenho alguma coisa para fazer, lógico que eu tenho muitas coisas para fazer.

Não é uma e nem duas.

Eu quero criar muito, eu quero dirigir muito, eu quero cozinhar muito.

Eu não tenho especificamente assim, eu tenho esse projeto aqui que eu queria encampar.

Eu sou muito do que vai surgindo e eu vou construindo, sabe?

Vontade e desejo eu tenho de estar sempre à frente, né? Sempre fazendo coisas.

E é isso que me envolve, tá bom?

Obrigado aí pela acolhida, pelo convite para dar essa entrevista para você.

Espero que tenha chegado, conseguido… Ai, meu Deus, espero que eu tenha conseguido te passar coisas, que a matéria fique interessante.

Um abraço.


Jorge Washington segue criando porque, como ele próprio diz, a arte movimenta e transforma. Sua trajetória mostra que o trabalho artístico não precisa ficar restrito a um palco: pode ganhar outros espaços, chegar às comunidades e reunir pessoas em torno da cultura. E talvez seja justamente essa inquietação que explique por que, depois de tantos anos, ele ainda tem tanto gás para queimar.

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