Por Alex Brito

Antes de uma mulher rural ser reconhecida como liderança, muitas vezes ela já sustentou uma casa, uma lavoura, uma comunidade inteira. Antes de ser chamada de protagonista, ela já havia aprendido a resistir em silêncio, a transformar escassez em estratégia, a fazer da solidariedade uma forma de permanência.
Há histórias que não começam nos grandes centros, nem nas vitrines iluminadas da cultura oficial. Começam no chão do campo. No trabalho diário. Na partilha. Na organização coletiva. Na coragem de mulheres que, por muito tempo, tiveram suas contribuições tratadas como invisíveis, embora fossem elas, tantas vezes, as mãos que mantinham a vida em movimento.
É desse território de força, memória e transformação que nasce o livro Tecendo redes de economia solidária com mulheres rurais, de Seonária Costa Santana.
A obra apresenta uma pesquisa profunda e sensível sobre a trajetória de mulheres rurais no Território de Identidade Vale do Jiquiriçá, na Bahia, mostrando como a economia solidária se torna uma via de empoderamento, autonomia e transformação social. A partir da atuação de mulheres vinculadas à COOPEIPE – Cooperativa dos Trabalhadores na Agricultura Familiar, o livro revela experiências em que geração de renda, protagonismo feminino e organização comunitária se entrelaçam em uma mesma trama de resistência.
Mas reduzir este livro a um estudo acadêmico seria diminuir sua potência.
Há nele uma escuta.
Há nele um gesto de reconhecimento.
Há nele uma tentativa de nomear aquilo que, historicamente, foi empurrado para a margem: o trabalho das mulheres rurais, seus saberes, seus vínculos comunitários, suas formas de produzir, cuidar, decidir e existir.
Seonária Costa Santana conduz o leitor por um caminho em que resistência, solidariedade e protagonismo feminino não aparecem como palavras abstratas, mas como práticas concretas. São mulheres que cultivam, transformam, sustentam e reivindicam. Mulheres que buscam afirmação e direitos que, por muito tempo, lhes foram negados. Mulheres que encontram na economia solidária não apenas uma ferramenta econômica, mas também uma possibilidade de reconstrução social.
A força do livro está justamente nesse ponto: ele mostra que a economia solidária, quando vivida no campo por mulheres organizadas coletivamente, ultrapassa a lógica da renda. Ela se torna linguagem de autonomia. Torna-se espaço de decisão. Torna-se caminho para romper ciclos históricos de invisibilidade, desigualdade, desvalorização e opressão.
E talvez seja por isso que a obra dialogue tão profundamente com o nosso tempo.
Em uma sociedade que ainda mede desenvolvimento a partir de centros urbanos, grandes mercados e discursos de produtividade, Seonária nos convida a olhar para outro tipo de inteligência: a inteligência coletiva das mulheres que sabem que nenhuma transformação verdadeira acontece sozinha.
O verbo que move este livro é tecer.
Tecer redes.
Tecer estratégias.
Tecer dignidade.
Tecer futuro.
A autora não escreve de fora desse universo. Sua trajetória acadêmica e profissional revela um compromisso contínuo com a educação popular, a extensão rural, a economia solidária, a educação do campo, a agroecologia, as mulheres rurais e as políticas públicas voltadas ao desenvolvimento rural sustentável. Seonária é educadora popular, extensionista rural, empreendedora social e, atualmente, cursa o doutorado em Agroecologia e Desenvolvimento Territorial na Universidade do Estado da Bahia.
Sua formação também sustenta a densidade da obra: é Mestra em Extensão Rural pela Universidade Federal do Vale do São Francisco, especialista em Gestão do Desenvolvimento Territorial pela Universidade Federal da Bahia e em Gestão Pública e Sociedade com ênfase em Economia Solidária pela Universidade Federal do Tocantins. Além disso, graduou-se em Pedagogia e possui formação técnica em Agropecuária.
Essa combinação entre vivência, pesquisa e atuação social confere ao livro uma qualidade rara: ele une rigor acadêmico e sensibilidade territorial.
Não se trata apenas de analisar dados. Trata-se de escutar vidas.
A obra também aborda movimentos sociais do campo, políticas públicas que deveriam ser implementadas no meio rural e reflexões sobre o trabalho produtivo e reprodutivo das mulheres rurais. Esse ponto é essencial, porque muitas das tarefas que sustentam famílias, comunidades e territórios seguem sendo desvalorizadas justamente porque foram naturalizadas como obrigação feminina.
Ao iluminar esse debate, Seonária Costa Santana reposiciona a mulher rural não como personagem secundária do desenvolvimento, mas como sujeito histórico, político e social.
O campo, em seu livro, não aparece como lugar parado no tempo. Aparece como território de disputa, criação, memória e reinvenção. Um espaço onde mulheres constroem alternativas, elaboram saberes, enfrentam desigualdades e demonstram que a justiça social começa quando se reconhece quem sempre sustentou o invisível.
Nesse sentido, Tecendo redes de economia solidária com mulheres rurais é mais do que uma publicação sobre economia solidária. É uma obra sobre presença. Sobre direito à voz. Sobre o poder de mulheres que transformam experiências coletivas em caminhos possíveis para uma melhor qualidade de vida no campo.
A literatura, quando se aproxima da vida concreta, também se torna ferramenta de justiça. E este livro nasce exatamente desse encontro: entre pesquisa e compromisso, entre palavra e território, entre mulheres que resistem e uma autora que escolhe transformar essa resistência em registro, reflexão e homenagem.
Porque há livros que apenas informam.
E há livros que devolvem rosto, nome e dignidade a histórias que o mundo se acostumou a não enxergar.
O livro de Seonária Costa Santana pertence a esse segundo grupo.
Ele nos lembra que, quando mulheres rurais tecem redes, elas não costuram apenas alternativas econômicas. Elas costuram pertencimento. Costuram autonomia. Costuram futuro.
E, nesse gesto coletivo, o campo escreve sua própria história.




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Last modified: 30/06/2026





















