Por Alex Brito – Editor-chefe da Revista Aorta
A Revista Aorta aceitou o convite dos Dias da Literatura de Lisboa como aceita todo convite para conversar sobre literatura: com entusiasmo e com a certeza de que uma revista independente, nascida no Brasil e lida dos dois lados do Atlântico, tinha o que dizer sobre o papel das revistas literárias hoje. O caminho, porém, foi difícil desde antes da viagem. E-mails e mensagens demoraram a ser respondidos, informações essenciais não chegaram a tempo, e a exigência de que tudo acontecesse exclusivamente em inglês não constava do convite.
Não discutimos o direito de um evento escolher os seus idiomas. Discutimos a coerência. Um encontro que fala de diversidade, de multilinguismo e de acessibilidade não pode deixar de fora justamente quem não fala inglês, sem oferecer tradução, interpretação ou legendas na transmissão. Em Lisboa, cidade-mãe da língua portuguesa, a nossa língua foi tratada como obstáculo, e não como uma das línguas em que a literatura do mundo também se escreve. Quando o acesso depende de um único idioma, a diversidade fica no programa e não chega à sala.
A Aorta existe para o contrário disso. Publicamos autores estreantes ao lado de nomes consagrados, levamos os nossos textos a leitores de outras línguas e acreditamos que a palavra só cumpre o seu papel quando circula. Por isso, mais do que lamentar, queremos registrar o que aconteceu e deixar um convite: que os eventos literários internacionais respondam a quem convidam, garantam tradução e legendas e tratem a língua portuguesa, e todas as outras, com o mesmo respeito com que tratam o inglês. A seguir, o relato de Joana Pereira, nossa representante internacional, que esteve no palco e viveu de perto essa experiência.
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O Elitismo da Língua e os Muros do Silêncio: O que os Dias da Literatura de Lisboa Não Quiseram Ouvir
Por Joana Pereira
Representante Internacional da Revista Aorta
A literatura, no seu estado mais puro, devia ser um território de acolhimento, de risco, de convergência e de diversidade. Um espaço onde as margens se encontram com o centro e onde a palavra ganha a liberdade de pulsar sem pedir licença. Lamentavelmente, nem sempre é esse o ecossistema que encontramos nos palcos institucionais.
Recentemente, a convite dos Dias da Literatura de Lisboa, a Revista Aorta preparou-se para marcar presença num evento de reflexão sobre o papel das revistas literárias na sociedade contemporânea. Como representante internacional de um projeto abertamente transatlântico — que une pontes firmes entre o Brasil e Portugal e celebra a riqueza da língua portuguesa — levei comigo o entusiasmo de quem acredita no diálogo livre.
A surpresa, no entanto, começou no próprio palco. Em pleno coração de Lisboa, fomos confrontados com uma exigência velada, mas inflexível: o evento devia decorrer exclusivamente em inglês. Em momento algum, aquando do convite, fomos informados dessa condicionante.
Como projeto flexível e focado nas pontes globais, a minha primeira reação foi a da empatia e da adaptação. Numa tentativa rápida de salvaguardar a participação e honrar o público presente, traduzi o meu discurso em escassos minutos. Contudo, a postura da organização manteve-se irredutível. Surgiram comentários ironizantes de que “assim não haveria espaço para debate”.
Ora, é legítimo perguntar: como se justifica que um festival literário sediado na capital de um país lusófono, ao convidar uma revista literária na língua portuguesa, não contemple a simples presença de um tradutor ou uma solução de interpretação? E, mais grave ainda, como é aceitável que a responsabilidade dessa falha logística e institucional seja arremessada contra quem foi convidado?
A resposta a esta atitude tem um nome claro: elitismo cultural.
Quando um evento literário impõe barreiras linguísticas na sua própria casa, sem aviso prévio nem boa vontade para construir soluções alternativas, não está a promover o debate. Está a excluir e a passar uma certidão de menoridade à língua portuguesa e aos seus criadores.
Numa época em que se fala tanto de inclusão, descolonização do pensamento e descentralização da literatura, assistir a este tipo de postura num grande centro europeu é um sobressalto doloroso. Fez-me sentir, enquanto representante de uma comunidade de mais de 80 mil leitores espalhados pelo mundo, profundamente excluída.
A Revista Aorta nasce precisamente na contra-corrente dessa rigidez hermética. Acreditamos que a literatura se faz de sangue, suor, alma e pluralidade. Se a literatura não servir para derrubar muros e acolher a diferença, passa a ser apenas um clube privado de privilégios e conveniências.
Apesar da manifesta falta de boa vontade em encontrar um caminho comum, a nossa voz não se apaga. Saímos dessa experiência com uma certeza ainda mais firme: a de que projetos independentes como a Aorta são mais urgentes do que nunca.
Continuaremos a falar, a escrever e a pulsar em português — e em todas as línguas que nos permitam unir corações —, sem pedir licença a quem confunde elitismo com erudição.
#Sintaopulsar




