Por Bruno Azevedo

Muitos de vocês já devem ter ouvido falar de Mar Morto, obra de Jorge Amado, lançada em 1937, que inspirou a novela global, Porto dos Milagres (2001). Embora a obra de Jorge seja pouco falada fora das bolhas literárias, quem é amante da literatura amadiana é fã deste livro por diversos aspectos, dentre eles: a morte.
Sim, a morte.
SINOPSE: Escrito em 1936, quando o autor tinha apenas 24 anos, Mar morto conta as histórias da beira do cais da Bahia, como diz Jorge Amado na frase que abre o livro. E a frase é uma verdadeira carta de intenções. Nenhum outro livro sintetizou tão bem o mundo pulsante do cais de Salvador, com a rica mitologia que gira em torno de Iemanjá, a rainha do mar. Personagens como o jovem mestre de saveiro Guma parecem prisioneiros de um destino traçado há muitas gerações: o dos homens que saem para o mar e que um dia serão levados por Iemanjá, deixando mulher e filhos a esperar, resignados.
E é sobre esse aspecto que quero focar essas poucas linhas. A própria morte, que é culturalmente evitada de se pensar e falar, é vista na obra como um destino certo entre os personagens do saveiro.
E este é um ponto marcante da história. Todos os homens que trabalham e tiram o sustento do mar, um dia, mais cedo ou mais tarde, irão falecer nas ondas. Mas isso não é um fator de preocupação e tristeza para eles. É uma questão de honra. Especialmente porque, em suas crenças, eles irão voltar aos braços de sua mãe: Iemanjá.
“Quem já decifrou o mistério do mar? Do mar vem a música, vem o amor e vem a morte.”
O homem que vive do mar deve perecer do mar. Ele congrega o sustento, as alegrias e o retorno ao mundo espiritual. Percebam que a recompensa não é ascender aos céus, como costumeiramente é pregado pelas religiões cristãs. A recompensa é o mar, perto da mãe orixá.
Em Salvador, testemunhamos a religião, os trabalhos, as aventuras e os perigos se misturando nos dramas dos personagens que vivem à beira-mar. Conhecer as dificuldades, saber um pouco da cultura de quem sobrevive no saveiro é adentrar ao pedaço do mundo baiano criado por Jorge e inspirado em vidas reais em uma época de instabilidade política. Afinal, o país passava pelo governo constitucional de Getúlio Vargas, com repressões, inclusive, a quem era filiado ao partido comunista.
Dentre os personagens, o destaque fica para Guma, que, nas palavras do autor, é um mulato de cabelos longos e morenos, de forte aspecto sedutor (não tem como associar Guma ao ator Marcos Palmeiras, que deu vida ao personagem na novela da Globo).
“Pois o mar é mistério que nem os velhos marinheiros entendem.”
Outro destaque na narrativa fica para Rosa Palmeirão. Uma mulher forte, independente e cativante, que não vive em função de homem nenhum, mas que em seu íntimo, sonha em ser mãe e dar seu amor a uma criança.
Este é um livro apaixonante que sincretiza as dificuldades de viver do mar, mas da paixão e do amor por ter, nesta natureza, um lar, mas também, uma passagem ao mundo espiritual.
Desta forma, a morte não é um fenômeno dramático e melancólico, mas uma passagem que conforta os trabalhadores. Um destino certo que irá recompensá-los na vida espiritual ao lado da mãe Iemanjá.
Recomendo fortemente esta obra que me cativou bastante. Afinal, Jorge Amado tinha o dom de cativar o leitor retratando situações verossímeis ao estado de coisas da sociedade baiana.
Autor: Jorge Amado
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 288
Last modified: 08/05/2026



















