ÁREA DE MEMBROS

O Avesso da Pele: um clássico contemporâneo feito para incomodar

Na minha graduação em Letras a primeira aula de literatura foi baseada nos clássicos: Victor Hugo, Sófocles, Clarice Lispector, Alexandre Dumas, dentre outros, permeavam os ensinamentos sobre como a ficção pode retratar assuntos delicados através de tramas e personagens envolventes e bem construídas. De início, estava empolgado em saber das questões técnicas que fazem um clássico ser um clássico. Àquela época, por minha imaturidade, mesmo sendo um leitor voraz, não obtive minha resposta. Mas, afinal, o que faz de um livro ser considerado um clássico?

Antes de responder essa pergunta, faremos uma pausa e uma afirmação de que Jefferson Tenório, professor e escritor, escreveu um livro que nasce como tal: O Avesso da Pele. Me arrisco em dizer que este é um dos melhores livros nacionais contemporâneos dos últimos tempos. Empolgação com o enredo? Identificação com as cenas? Deslumbre com a narrativa? Talvez. O fato é que ler esse livro me fez sair da minha comodidade gerando inquietação.

Na história, temos Pedro, um personagem que após a morte do pai, sai em busca de seu passado a fim de (re)construir os caminhos paternos. Em sua narrativa, cenas sensíveis e por vezes brutais sobre como o nosso país é estruturado num racismo cruel, como uma gosma grudenta que arranca e fere os corpos pretos sem piedade. Além disso, a trama toca em questões também importantes como o sistema educacional falido e as relações entre as famílias, muitas vezes, desestruturadas.

Em sua caminhada, Pedro vai lidar com as diversas camadas existenciais de um país que é extremamente racista. Ser preto no Brasil, sobretudo no Rio Grande do Sul, é algo difícil e doloroso. Em cada lugar, em cada ação, em cada desejo, vem, em princípio, o pensamento de dificuldade e dor por ser preto. Isso é devastador.

O livro é excelente por demonstrar como a racialidade social atravessa o cotidiano difícil de ser preto nesse país. A falta de oportunidades, a carência de estrutura familiar, as dores, as lutas e a tentativa de sobreviver com tão pouco, mostra a realidade de milhares de pessoas pretas que vivem no Brasil.

São famílias que sobrevivem e repetem o mesmo padrão com seus descendentes. Ou seja, não existe a possibilidade de viver em plenitude o que a vida lhes oferece, porque o que a vida proporciona para essas pessoas é muito pouco. Você sobrevive do jeito que pode e como pode. Ser preto e de família preta no Brasil é saber que seu lugar de existência sempre será questionado. Vencer na vida é algo distante da realidade de muitos. Ter felicidade plena, é algo utópico que se assiste na tv ou na leitura de um bom livro, mas na realidade, esta é uma tarefa difícil.

“É necessário preservar o avesso, você me disse. Preservar aquilo que ninguém vê. Porque não demora muito e a cor da pele atravessa nosso corpo e determina nosso modo de estar no mundo”.

Sobre a pergunta que fiz no início desta resenha: o que faz de um livro ser considerado um clássico? Talvez a nossa resposta seja a mais singela possível: o clássico possui o dom de incomodar, de tirar o leitor do eixo e se questionar sobre a sua própria vida. Este foi o efeito do Avesso da Pele que, através de sua narrativa, mobilizou a revolta da camada conservadora e a proibição momentânea dessa obra em algumas escolas. Esta história é um tapa na cara dos racistas e isso dói. Como dói!

Recomendo fortemente este livro que traz exemplos de como o racismo opera em nossas vidas e que machuca muito a realidade das pessoas pretas, especialmente as mais retintas.

Por Bruno de Azevedo

Bruno de Azevedo
 

13 comentários em “O Avesso da Pele: um clássico contemporâneo feito para incomodar”

  1. Fabrício Azevedo

    Cirúrgico e super necessário. Precisamos de mais obras como essa, pra trazer empatia e mudanças nessa estrutura perversa de sociedade.

  2. MARCIAH RODRIGUES

    Parabéns, Bruno! Excelente reflexão sobre esse tema tão relevante. Deus abençoe sua trajetória. Abraços.👏👏👏👏

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