Ensaio por Alex Brito

Algumas palavras, quando ditas cedo demais, ainda não sabem carregar o próprio peso. Saem da boca verdes, impacientes, quase infantis, como frutos arrancados antes do tempo. Talvez por isso certas verdades precisem permanecer um pouco mais no silêncio, não para morrerem, mas para amadurecerem.
Como poeta, aprendi, por vezes de forma dura, que nem toda palavra está pronta para o papel ou para a boca. Algumas, precisam correr ainda nas veias, precisam ser sentidas no íntimo espaço da sala vazia, no cheiro do café enquanto observa o mundo pela janela ou até mesmo, há palavras que precisam sair de dentro sem que se tenha destinatário certo, precisam ir para o tempo, para que amadureçam nos percalços e retornem com significados para além da mente ou da reação espontânea.
Me lembro que ao iniciar meus estudos da palhaçaria, um dos exercícios mais desafiadores para mim era o de não reagir a nada antes dos três segundos da percepção sensorial do corpo. Numa certa feita, o mestre da oficina de clown nos pediu para encher um balão de festa infantil, daqueles difíceis de encher com a boca e quando ao conseguir encher, ele vinha e estourava o balão sem aviso prévio.
De início, vinham logo as palavras subindo pelos pés como uma cachoeira às avessas, passando pelos pulmões que outrora carregavam ar para o ofício de encher o balão e agora estavam carregando palavras de raiva e descontentamento. Naquele instante, aprendi a regra dos três segundos, antes da palavra brotar pela boca, era preciso sentir tudo no corpo. Era preciso permitir o corpo falar da forma dele. As palavras ainda precisavam amadurecer no percurso do tempo e do espaço, não podiam ser apenas uma reação imediata.
Naqueles três segundos, descobri que a palavra nem sempre nasce na boca. Às vezes, ela começa no susto, atravessa o estômago, tropeça nos pulmões e só depois procura saída. Quando não damos tempo a esse percurso, falamos ainda inflamados pelo impacto. Dizemos não o que pensamos, mas o que a ferida conseguiu gritar primeiro.
Talvez por isso algumas palavras precisem envelhecer. Não para perderem força, mas para deixarem de ser apenas reação. Uma palavra amadurecida não chega para vencer uma discussão. Chega para dizer o necessário sem destruir a casa inteira.
O silêncio nem sempre é sobre calar. Algumas palavras precisam de tempo para amadurecer. Só então o fruto da árvore relacional se torna doce, saboroso, capaz de guardar em si uma semente reflorestável.
Arte CULTURA Literatura Livros
Last modified: 28/07/2026





















