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Talvez estejamos contando nossos segredos para quem não pode nos abraçar

Ensaio por Alex Brito

A casa já dorme quando algumas palavras finalmente encontram coragem para sair. A luz azulada da tela recorta o rosto no escuro, enquanto aquilo que durante o dia parecia impossível de dizer começa, aos poucos, a ocupar a conversa.

Do outro lado, não existe constrangimento, mudança no semblante ou aquele silêncio que às vezes nos faz arrepender de termos contado demais. Existe apenas uma presença que continua respondendo, como se ainda houvesse tempo suficiente para tudo aquilo que ficou preso durante o dia.

O estranho talvez esteja justamente nisso: enquanto procurávamos alguém que soubesse o que dizer, talvez estivéssemos apenas procurando um lugar onde conseguíssemos falar.

Eu me lembro das madrugadas em que a única forma de conversa externa que eu tinha era o envio de mensagens por SMS, num celular que ainda nem era smartphone. Na sala, havia uma bicama azul-escuro tão desconfortável quanto os meus pensamentos. A única luz do ambiente vinha dos LEDs coloridos do velho som Gradiente, sintonizado em alguma rádio com músicas antigas que me ofereciam a trilha melancólica necessária para aquele momento.

A necessidade de escuta era latente e, sim, era escuta, mesmo que em texto. Muitas vezes, aquelas palavras eram lidas em voz alta. Não é exagero dizer que me sentia acolhido.

Sabia que, naquele momento, do outro lado existia alguém ouvindo aquelas palavras em sua mente, com a minha voz e com os meus trejeitos. Mesmo à distância, aquela pessoa já havia estado tão próxima de mim que a mensagem servia apenas para dar continuidade às conversas presenciais que atravessavam nossos dias. Era apenas a nossa forma de nos manter presentes.

Hoje, as mensagens continuam chegando, cada vez mais rápidas e disponíveis, mas nem sempre carregam consigo a memória de quem nos conhece. É como passar horas diante de um rio jogando pequenas pedras na água, observando os círculos se formarem, sem perceber que nenhuma delas substitui a experiência de entrar e sentir a correnteza no corpo.

Naquelas madrugadas, uma mensagem ainda carregava a voz de quem a escrevia, porque existiam encontros, conversas e silêncios anteriores a ela. Agora, podemos contar aquilo que mais nos assusta e receber imediatamente uma resposta vinda de algo que nunca viu nosso rosto mudar enquanto falávamos, nunca reconheceu nossos gestos e jamais saberia quando um “estou bem” significa exatamente o contrário.

Compreender uma frase, no entanto, não é o mesmo que reconhecer quem a escreveu. Quem nos conhece percebe a pausa maior entre duas palavras e desconfia de uma resposta curta demais. Muitas vezes, entende aquilo que tentamos esconder justamente porque se lembra de outras vezes em que fizemos o mesmo.

Talvez seja essa memória do outro sobre nós que transforme escuta em presença, porque algumas dores não pedem respostas melhores, apenas alguém capaz de perceber quando nossas palavras já não conseguem carregar tudo o que estamos sentindo.

Volto então àquelas madrugadas, à bicama desconfortável, às luzes coloridas do velho som e às mensagens que atravessavam a noite procurando alguém conhecido do outro lado. Hoje podemos escrever durante horas e receber palavras cuidadosas, conselhos, explicações e até algum conforto. Ainda assim, existe uma distância que nenhuma resposta consegue atravessar.

Talvez continuemos procurando exatamente aquilo que sempre procuramos quando resolvemos contar um segredo: não apenas alguém que saiba o que dizer, mas uma presença que reconheça nossa voz antes mesmo da primeira palavra e que, quando nenhuma delas for suficiente, ainda possa simplesmente nos abraçar.

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Last modified: 27/08/2026

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