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Não se julga um livro pela capa?

Por Rafaela Lacerda

Sou curiosa. Sempre fui. E se for para saber o que os outros estão a ler, essa curiosidade leva-me a ser muito pouco discreta. Seja no metro, no autocarro, na praia, assim que vejo alguém com um livro na mão, tento, de todas as maneiras legais perceber de que se trata. Por vezes, é quase impossível, desde que inventaram aquelas coberturas de tecido acolchoado para proteger os livros. O malabarismo tem de ser grande e, sendo eu míope, devem imaginar que, bastas vezes, estou quase a respirar em cima do ombro do dono do livro, na tentativa de decifrar algumas palavras que me permitam concluir de que título se trata.

Nunca percebi o porquê de usarem estas capas. Se, de facto, para proteger o livro, ou, e isto é apenas uma suspeita totalmente infundada, porque querem esconder a leitura por não estarem confortáveis ao exporem o livro em causa, ou, porque este método se pode tornar bem mais eficaz e inovador do que as já costumeiras aplicações de encontros.

No entanto, não sendo este o caso, consigo, na maioria das vezes, perceber o título do livro escrito na capa, assim como o desenho da mesma.

Nas férias deste Verão, fiquei contente por ver muitos banhistas de livro em riste entre um mergulho e uma sandes, uma soneca e um eclipse. O meu descontentamento veio depois, quando, para saciar a curiosidade, me pus a olhar para as capas, na tentativa de decifrar o que cada um lia. Capas mortiças, amiúde com figuras humanas, mais ou menos entrelaçadas, tipos de letra a imitar caligrafias manuscritas, palavras como amor, sempre, nunca, eterno, felicidade. Histórias belas, romances de amor, paixões arrebatadoras, finais felizes ao estilo de contos-de-fadas para esquecer as agruras da vida real.

Outros, com capas de cores fortes, letras enormes a revelar o nome do autor, bem mais importante do que o título da obra, já que esta é uma minudência, mera desculpa para vender mais uns milhares de livros com uma história que segue à risca uma fórmula já testada e aplicada, e com garantias de render bastante lucro à editora.

Não se desilude o leitor, que sabe exactamente com o que conta, mas, também, não se surpreende, nem aquele fica a remoer na história mais do que o tempo que a leitura lhe consome, entre dois mergulhos e uma caipirinha de fim de tarde no bar da praia. Logo, passará ao livro seguinte e aquele será uma leve recordação, que se dissipará antes de as férias acabarem.

Estamos na era das digestões rápidas. E isto não é uma necessidade fisiológica de quem quer aproveitar o dia de praia para estar sempre dentro de água, a desfrutar do mar. Antes uma premissa do dia-a-dia corrido, que não nos permite desligar da urgência, nem sequer nas férias.

Quando foi a última vez que parámos para pensar no estado a que chegámos? A que o mundo que nos rodeia chegou? Para questionarmos o nosso lugar no mundo? Será que algum dia o fizemos?

Não seriam as férias o tempo ideal para isso? Não seriam os livros a companhia perfeita para tal?

Às vezes, entro numa livraria, ou passo na banca de um alfarrabista e os meus olhos de imediato são agarrados pela capa de um livro. Um desenho diferente, uma foto inusitada, um título que surge como uma mensagem subliminar, que se traduz num «lê-me» suplicado entre páginas. Sem previsibilidade, sem organização nem métodos previstos nos mais lucrativos mercados editoriais. Sem segundas intenções vendilhonas. Só ele, o livro, ali exposto, na sua vulnerabilidade genuína de quem não tem nada a perder, se contar uma história e puser o leitor desconfortável. Se o deixar a pensar e lhe remoer o pensamento, mesmo depois de as férias acabarem. Se o acompanhar em deambulações pela existência, pela caminhada no mundo, pela busca inquieta de respostas para as perguntas que surgem todos os dias. Não nos sentimos mais vivos quando pensamos, quando questionamos o nosso lugar e a nossa existência?

Percebo que a sociedade corrida em que vivemos nos sufoque a liberdade de pensar, a vontade de perguntar porquê, nos tire o ânimo de contrapor e argumentar.

Por isso, quando um livro nos entrega uma história já pronta a comer, mastigada, digerida, sem espaço para o contraditório, o nosso cérebro exulta com a alegria preguiçosa de quem não tem de pensar, com a descarga imediata de dopamina. E depois? Será mesmo disso que o nosso cérebro precisa? De refeições rápidas prontas a comer, sem nutrientes capazes de estabelecer novas sinapses e criar novos sabores no prato cerebral? Pode custar a mastigar, ao início, pode custar a engolir da primeira vez, mas, depois, a cabeça habituada já vai querer mais comida de confecção lenta. Por vezes, será preciso um Kompensan para digestões mais difíceis, mas decerto valerá a azia.

E, muitas vezes, tudo o que precisamos é de escolher a capa certa do livro.

Vamos experimentar?

Este texto está escrito em PT-PT segundo as normas do antigo acordo ortográfico.

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Last modified: 25/08/2026

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