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A nudez começa muito antes de tirarmos a roupa

Ensaio por Alex Brito

Existem momentos diante dos quais começamos a ficar nus sem retirar uma única peça de roupa. Primeiro cai alguma defesa, depois um medo, uma história que nunca contamos ou aquela maneira cuidadosamente ensaiada de parecer mais fortes do que somos. O corpo continua vestido, os botões permanecem fechados, mas alguma coisa em nós já está exposta. Talvez a nudez nunca tenha começado na pele. Talvez ela comece exatamente no instante em que percebemos que alguém consegue nos olhar sem que tenhamos onde esconder aquilo que somos.

É um pensamento poético, mas, ao mesmo tempo, assustador para mim, pois me leva de volta à adolescência, quando meu corpo parecia resumir-se apenas à derme por trás da roupa. Foi justamente naquela época que comecei a percebê-lo de outra maneira. Durante uma experiência com a arte da palhaçaria, participei de um exercício de exposição. Lá estava eu, magro, esquisito, com as bochechas rosadas de timidez, atrás da única coisa que me protegia dos olhares: a coxia do teatro.

Foi naquele momento que entendi: a nudez vai além das roupas no chão. Entrei no palco. Havia poucos olhares sobre mim, e eu tentava cobrir com as mãos algumas partes do corpo, mas percebi que aqueles olhos não miravam minha pele, nem o suor que escorria pelo corpo até encontrar o chão. Aqueles olhares estavam diante da minha fragilidade, da minha maneira ainda imperfeita de perceber o mundo e de me perceber dentro dele.

Por um instante, silêncio. A plateia desapareceu diante de meus olhos. O medo inicial deu lugar a algo que eu ainda não sabia nomear sobre nudez, corpo e liberdade. Sentia cada parte do meu corpo reagir àquele instante. Já não havia mais o que esconder. O que antes era vergonha, timidez e escárnio agora parecia força, parecia domínio. Eu controlava o corpo, o meu corpo, e aquilo que estava exposto diante dos olhares. Por alguns instantes, senti que conduzia aqueles olhos. Eles já não acompanhavam apenas meus passos; pareciam seguir também aquilo que eu pensava.

Naquele dia, entendi que o olhar tem, às vezes, o poder de nos despir sem retirar uma única peça de roupa. Há toques que começam muito antes de a pele ser tocada. Era o olhar que fazia quase todo o trabalho: os lábios que se moviam, a respiração fora do compasso, pequenos gestos que pareciam diminuir a distância. Havia metros entre os corpos, mas o olhar já havia atravessado a pele. A nudez tornava-se inevitável. E foi ali, sozinho no palco, que descobri o poder de ser observado.

Depois daquele dia, percebi que ser visto não era exatamente o que me assustava. O medo estava em não saber o que o outro encontraria quando seus olhos atravessassem aquilo que eu usava para me proteger. Aos poucos, deixei de fugir de todo olhar que chegava até mim. Na verdade, havia trocas: olhos que se cruzavam, se despiam, se atravessavam.

Há alguma coisa difícil de nomear nos segundos entre o olhar e o primeiro toque. Ali, as roupas já não existiam, mesmo que ainda cobrissem o corpo. Os corpos eram apenas a parte visível da nudez; ela estava além da pele. O coração acelerava, os pensamentos vagueavam, e as palavras se confundiam na mente antes de alcançarem os lábios. Antes mesmo que alguma palavra saísse pela boca, o corpo já havia denunciado o desejo. A nudez, que no início era vergonha, agora começava a ser prazer em estar entregue.

Foi nesses movimentos, ora entregue, noutras apenas disponível, que aprendi a perceber a distância entre ser visto e pertencer ao olhar de alguém. Aprendi também que a nudez precisa ser consentida, escolhida e desejada muito antes de as peças caírem ao chão. Quem dera toda nudez começasse assim: com um sorriso discreto, um olhar de canto, disfarçado de desinteresse.

Aprendi a usar os sentidos: olhar além, perceber os cheiros, ouvir a voz e a respiração, antecipar no paladar um gosto que ainda não havia chegado. Aos poucos, as barreiras cedem e a distância entre as peles diminui. Nesse ponto, ninguém mais interessa. Não há tempo nem espaço. Restam apenas os sentidos.

Hoje, quando penso naquele garoto escondido atrás da coxia, entendo que talvez ele não tivesse medo do palco, mas da possibilidade de ser alcançado por um olhar. Anos depois, ainda reconheço a mesma respiração antes do toque, o mesmo silêncio que antecede a entrega, a mesma pele tentando compreender aquilo que os olhos já disseram. A diferença é que já não corro para me cobrir. Aprendi a escolher diante de quem permanecer. E talvez seja justamente nesse instante, quando o corpo ainda veste tudo e já não consegue esconder nada, que a nudez realmente começa.

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Last modified: 23/08/2026

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