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Os pássaros não sabem que estão indo embora

Ensaio por Alex Brito

Existem pássaros que pousam tantas vezes no mesmo lugar que começamos a acreditar que aquele galho também lhes pertence. Pela manhã, estão ali, pequenos moradores do quintal, repetindo seus cantos, saltando entre as folhas como quem conhece de memória cada pedaço da árvore. Até que, certo dia, não voltam. Não há despedida, último voo ou qualquer aviso que nos prepare para a ausência. Talvez porque os pássaros não saibam que estão indo embora. Apenas abrem as asas quando alguma coisa dentro deles diz que já é hora de procurar outro céu.

Quando criança, costumava caminhar com meu cachorro numa pequena floresta atrás do estádio de futebol da cidade onde cresci. Nessas caminhadas, costumava observar muito os pássaros, confesso que alguns se tornaram tão presentes que acabei dando nomes a eles. O que eu não entendia era por que, em alguns dias, o velho pé de jenipapo e o pé de araçá já não guardavam a melodia daqueles pássaros. A floresta, antes viva de cantos, parecia silenciosa demais naqueles dias. Hoje, talvez ela exista com mais nitidez na minha memória do que no lugar onde um dia esteve.

Eu me lembro de que, nos dias seguintes, caminhava por entre as árvores assoviando, tentando imitar o canto daqueles pássaros com os quais já havia me acostumado, mas eles não conversavam comigo. Por vezes, sentava a tarde inteira com uma fruta nas mãos e esperava por horas a fio. Nenhuma asa batia, nenhum canto respondia. Tudo era só vento, silêncio e espera.

O garoto cresce sem abandonar a espera pelo retorno. A cada nova fase, outro pássaro que outrora conversava com ele deixava de pousar em sua vida. E ele continuava tentando chamar de volta aquilo que já havia levantado voo. Às vezes, frutas; noutras, assovios; depois, cartas, mensagens, telefonemas. Eram todas formas de reencontrar as melodias que o encantavam e as cores que davam beleza aos seus dias.

Agora, olhando para o passado, percebo que certas partidas não aconteceram por falta de motivos para ficar. Não faltaram frutas, conversas ou viagens. Também não faltaram cartas, ligações ou flores. Alguns pássaros não partem por falta de alimento. Apenas acordam um dia, batem asas e descobrem outro céu, outros horizontes. Não foi falta de cuidado ou de reconhecimento. Talvez, para alguns, tenha sido apenas a necessidade de outro voo.

Quando somos crianças, ainda não compreendemos a partida. Então negociamos com a ausência: oferecemos frutas, repetimos cantos e esperamos mais um pouco. Crescer talvez seja descobrir que nem todos os cantos e cores nos pertencem. Alguns apenas atravessam nossa vida e, mesmo quando partem, continuam pousados em algum lugar da memória.

Eu ainda sei em quais árvores estavam, quais cores carregavam e como seus cantos me tocavam. Aprendi que alguns pássaros passam por nossa vida apenas pelo tempo necessário para nos ensinar uma melodia. Depois seguem. E talvez o amor também more nisso: guardar com carinho o canto que ficou, sem pedir às asas que desaprendam o caminho do céu.

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Last modified: 13/08/2026

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