por Márcia Vieira Ávila

Apreciamos arte, sempre com a necessidade de encontrar nela narrativa.
A poesia denuncia excessos de luz ou excessos de cor, enquanto expõe quanta falta de luz e de cor existe na vida humana. O mesmo se sucede com as letras, frases e poesias.
A oficina que mais interessa é sempre na perspectiva de quem lê a poesia, de quem aprecia o quadro ou a escultura.
Rodeia-te de poetas se quiseres encontrar mais arte à tua volta, que te surpreenda e que te aproxime dos restantes seres humanos.
A poesia não dá garantias. Isto não é um electrodoméstico com 2 anos de satisfação garantida ou devolução.
O poeta odeia poesia e os da sua espécie. Ódio daquele de matar. Que enterra este tipo de escrita como quem pisa a erva seca. O problema é que, nesse movimento, as sementes encontram raízes e, mais cedo ou mais tarde, darão fruto.
Mas, se a poesia que escrevemos contém ódio, então, estamos a ser tóxicos?
«Estamos», nós, os poetas, que juramos que não somos poetas. Nem artistas.
O Poema não são contas certas nem contas para pagar. O Poema nem contas são. O poema é desequilíbrio e medicamento ao mesmo tempo.
E o poeta será também ele leitor de poesia ou um simples abominador dessa arte e só espectador de portas escancaradas das restantes artes?
Mas que raio de cozinheiros ou artistas seremos nós, se não enchermos a barriga a quem consome a nossa arte? O consumidor tem zero propriedade sobre a arte que absorve; no entanto, a propriedade só existe quando sai do artista directamente para dentro dos sentidos de quem a retém.
E o primeiro consumidor de qualquer arte, inclusivamente da poesia, não é o próprio artista, escritor ou autor? Se não nos encher os sentidos de que servirá partilhar com os demais?
A balança do autor não é equilibrada. O autor impõe o coração no que cria e então defende com espada afiada o que acabou de parir. O humano invejoso, que cria para ele próprio e depois o impõe a quem o observa, seja por meio de palavras, materiais, cores, tintas, pedras ou escopos.
O lugar activo será sempre pertença de quem cria e o lugar passivo pertence ao próprio poema, obra de arte ou prato gourmet. Aquela obra exposta é a nossa intimidade e, no momento que somos lidos, seja com os olhos ou com a alma, ficamos nus de poesia.
Nota: este artigo foi escrito em PT-PT seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico
Arte CULTURA Literatura Livros
Last modified: 08/09/2026





