Written by 18:42 ACONTECE, AGENDA CULTURAL, ARTES, ARTIGO, ENTREVISTA

Anatomia do Caos: o filme que transforma o luto da pandemia em um alerta para a democracia.

Por Olga Pessoa

Mais do que um documentário sobre a pandemia de Covid-19, Anatomia do Caos, da cineasta baiana Dandara Ferreira, propõe uma reflexão sobre memória, democracia, ciência e responsabilidade coletiva. O longa acompanha os bastidores da CPI da Covid e revela como decisões políticas, interesses econômicos e a desinformação impactaram diretamente a vida de milhares de brasileiros.

Na noite de pré-estreia, realizada no Cine Glauber Rocha, em Salvador, a Revista Aorta acompanhou o debate com o público e conversou com a diretora Dandara Ferreira, a editora e montadora Lara Beck e o médico sanitarista, professor da Universidade Federal da Bahia e pesquisador em Saúde Coletiva Heider Aurélio Pinto.

As entrevistas mostram que o documentário ultrapassa o registro dos fatos e se torna um chamado à reflexão sobre o presente. Ele nos lembra que a memória é um compromisso com a democracia e com as escolhas que definem o futuro do país.

Dandara Ferreira
Cineasta, diretora de “Anatomia do Caos”

O documentário chega às salas em um momento de disputas sobre memória e democracia. Você acredita que Anatomia do Caos deixou de ser apenas um filme sobre a pandemia para se tornar também um filme sobre o presente político do Brasil?

Dandara Ferreira: Sim. Embora Anatomia do Caos tenha como ponto de partida a pandemia, ele nunca foi apenas sobre ela. O filme fala sobre o que acontece quando um Estado deixa de proteger a vida, quando a desinformação ocupa o lugar da ciência e quando a política transforma uma tragédia humana em disputa de poder.

Hoje, quando vivemos uma intensa batalha em torno da memória e da democracia, o filme ganha uma nova camada de significado. Existe uma disputa permanente sobre como esse período será lembrado, ou se será lembrado. E o cinema tem um papel fundamental nisso: preserva experiências, confronta narrativas e impede que acontecimentos tão graves sejam apagados ou relativizados.

Gosto de pensar que Anatomia do Caos não pretende encerrar um debate, mas mantê-lo vivo. A pandemia acabou, mas permanecem as perguntas: como chegamos até ali? Quais escolhas políticas produziram aquele cenário? E o que precisamos aprender para que isso nunca mais se repita?

Por isso, acredito que o filme deixou de ser apenas um registro de um momento histórico. Tornou-se também um filme sobre o presente e sobre o futuro da democracia brasileira. A memória não é um exercício de nostalgia; ela é uma forma de responsabilidade coletiva. Um país que não elabora criticamente o seu passado corre o risco de repetir os mesmos erros.

Ao acompanhar tão de perto os bastidores da CPI da Covid, houve um momento em que você deixou de se enxergar apenas como documentarista e percebeu que também estava testemunhando um acontecimento histórico?

Dandara Ferreira: Esse sentimento foi crescendo aos poucos. No início, eu estava ali como documentarista, tentando entender um acontecimento que ainda estava em curso. Nem sabia que filme seria, ou mesmo se haveria um filme.

Conforme a CPI avançava, ficou evidente que eu não estava apenas registrando um evento político. Eu estava diante de um momento que, daqui a algumas décadas, será uma das principais chaves para compreender como o Brasil enfrentou, ou deixou de enfrentar, a maior tragédia sanitária da sua história.

Houve dias em que eu saía do Senado com a sensação muito forte de estar presenciando algo que ultrapassava a notícia, principalmente por acompanhar os bastidores, aquilo que não aparecia nas transmissões.

Isso influenciou profundamente minhas escolhas como diretora. O filme não podia ser apenas uma cobertura dos acontecimentos nem um resumo da CPI. A preocupação sempre foi transformar o presente em memória, sem abrir mão da complexidade.

Enquanto o jornalismo registra a urgência, o cinema pode construir permanência. Talvez tenha sido aí que senti o peso da responsabilidade. Eu não estava filmando apenas para quem viveu a pandemia, mas também para quem, no futuro, vai perguntar como tudo aquilo foi possível.

Entre a memória e a emoção

Se Dandara registra os acontecimentos, é na montagem que eles encontram forma narrativa. Para a editora Lara Beck, montar Anatomia do Caos significou também revisitar coletivamente um trauma nacional.

Lara Beck
Editora e montadora de “Anatomia do Caos”

Em vários momentos o filme cria tensão sem recorrer à narração tradicional. Como vocês encontraram esse equilíbrio?

Lara Beck: A montagem é sempre uma escolha. Embora aconteça por meio de computadores, ilhas de edição e HDs, para mim ela é um processo profundamente corporal.

Essa tensão que o filme provoca também é uma tensão do corpo, do corpo de quem viveu a pandemia. Antes de sermos profissionais trabalhando no filme, somos pessoas que atravessaram aquele sofrimento, agravado por uma gestão desastrosa e por decisões que produziram ainda mais danos.

Essa é uma tensão da memória.

O filme é feito de silêncio e de som. Nasce de uma hibridez: das imagens registradas no Senado, da tentativa quase invisível de acompanhar a CPI e também do material da TV Senado. São diferentes camadas de imagens que dialogam entre si para buscar sentido para a dor de um país e para uma revolta.

Montar é justamente isso: buscar um sentido que muitas vezes não conseguimos elaborar internamente, mas que conseguimos enxergar quando vemos essa experiência projetada na tela.

Houve alguma sequência que foi especialmente difícil de retirar da versão final?

Lara Beck: Esse filme reuniu uma quantidade de material impossível de calcular. Basta pensar no tempo de duração da CPI da Covid e em todas as suas sessões.

Fazer um filme é escolher. Foram praticamente três anos de montagem e, ao longo desse processo, fomos fazendo as pazes com aquilo que precisava ficar de fora.

O que mais me marcou foram algumas cenas de bastidores, que revelavam outras dimensões da história. Tenho saudade delas, embora não sinta falta, porque a decisão foi tomada em favor da coerência interna da obra.

Também pensamos muito na experiência do público. Era preciso encontrar um tempo que permitisse assistir a uma história tão dura sem provocar um esgotamento maior do que aquele que todos nós já vivemos durante a pandemia.

Cinema, ciência e formação ética

Durante o debate da pré-estreia, uma das reflexões mais contundentes veio do médico sanitarista Heider Aurélio Pinto, professor da Universidade Federal da Bahia e integrante do Comitê Científico de Combate à Pandemia do Consórcio Nordeste. Para ele, Anatomia do Caos extrapola o cinema e se transforma em ferramenta de formação científica.

Em um momento em que a desinformação ainda desafia a ciência e a saúde pública, qual é o papel de um documentário como Anatomia do Caos no debate científico? Você acredita que o cinema pode influenciar a forma como a sociedade compreende evidências científicas e toma decisões coletivas?

Heider Pinto: Eu percebo que o cinema é uma arte que promove expressão e comunicação com grande impacto e muita abrangência. Não à toa, tem sido tema de disputa pela extrema-direita, seja na disputa de narrativas ou, supostamente, usado como justificativa para a captação de recursos ilícitos. Além disso, a partir de um filme podem ser construídas pílulas de audiovisual com grande capacidade de viralização e comunicação nas redes sociais, tanto para desinformar quanto para esclarecer, como faz Anatomia do Caos.

O filme de Dandara, de um modo muito evidente, claro, sensível e inteligente, consegue mostrar como informações objetivas, científicas e técnicas foram manipuladas para os mais variados e perversos interesses. Mostra a falsa eficácia da hidroxicloroquina sendo utilizada para objetivos políticos e econômicos; o registro da Covid-19 nos atestados de pacientes sendo alterado para desligar aparelhos e encurtar a vida de pessoas fragilizadas, reduzindo custos de internação e escondendo a gravidade da pandemia; e a manipulação das informações sobre as vacinas para favorecer um esquema de corrupção e implementar a chamada imunidade de rebanho em Manaus, transformando aquela população em um experimento que entra para a nossa história como o que há de mais próximo dos execráveis experimentos nazistas em seres humanos durante a Segunda Guerra Mundial.

Ao revelar esses mecanismos de desinformação e de negação das evidências científicas para atender interesses de pessoas que não hesitaram em trocar vidas por dinheiro e poder político, Anatomia do Caos nos alerta para reconhecer quando isso voltar a ser tentado. O filme nos convoca a resistir, em nome da verdade, da democracia e da vida.

Em um cenário em que a desinformação impacta diretamente a saúde pública, que contribuição um documentário como Anatomia do Caos oferece ao debate científico? De que maneira ele pode fortalecer a formação ética, crítica e humanística de futuros profissionais da saúde?

Heider Pinto: É incrível perceber que até pesquisadores que analisaram atentamente aqueles acontecimentos já estavam se esquecendo de fatos que não podem ser repetidos. Eu me incluo entre eles. Participei do Comitê Científico de Combate à Pandemia do Consórcio dos Estados do Nordeste e o filme me reapresentou acontecimentos e me ensinou muitas coisas. Foi uma das grandes surpresas que tive ao assisti-lo.

Em um debate realizado na Universidade Federal da Bahia, percebemos que, usando o filme como fio condutor, seria possível construir um módulo inteiro de pós-graduação em Saúde Pública para discutir políticas públicas, ética profissional, influência da infodemia, manipulação ideológica e interesses político-econômicos privados durante uma crise sanitária.

É duro constatar como tantas pessoas puderam ser manipuladas e como isso custou a vida de milhares delas. Essa experiência precisa preparar a sociedade, e não apenas cientistas, profissionais de saúde e gestores públicos, para enfrentar situações semelhantes. Vimos também que Anatomia do Caos é um filme extremamente potente para ser utilizado em sala de aula na discussão sobre ética profissional. Ele coloca questões fundamentais: devemos seguir as evidências científicas mesmo quando elas contrariam nossas preferências ideológicas? Como agir quando um empregador exige uma conduta anticientífica, sabendo que ela pode prejudicar pacientes? Como reagir, do ponto de vista pessoal, jurídico e coletivo?

Anatomia do Caos é mais do que um excelente documentário brasileiro sob o ponto de vista artístico. É uma memória absolutamente necessária para o país. É um manifesto que cobra uma justiça ainda não realizada e uma obra que precisa ser incorporada a um amplo processo de formação e reflexão que o Brasil ainda tem pela frente.

Memória como compromisso coletivo

Ao final da pré-estreia, o debate deixou evidente que Anatomia do Caos não termina quando os créditos sobem. Professores, estudantes, profissionais da saúde e espectadores prolongaram a discussão por mais de uma hora, reafirmando o potencial do documentário como instrumento de reflexão pública.

Na mediação do encontro, uma frase sintetizou o sentimento compartilhado naquela noite: durante a pandemia, lidávamos com informações em meio à emergência; agora, é possível revisitá-las com o distanciamento necessário para compreender o que aconteceu e transformar memória em aprendizado.

É justamente esse o maior legado do filme. Como afirmou Dandara Ferreira, não se trata apenas de recordar um período doloroso, mas de assumir uma responsabilidade coletiva com o futuro. Em tempos de disputas sobre memória, ciência e democracia, Anatomia do Caos reafirma que lembrar é, também, uma forma de resistir.

Não perca nossas novidades!

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Visited 1 times, 1 visit(s) today

Last modified: 07/07/2026

Close

Olá Aortano👋,
que bom te ver por aqui.

Inscreva-se e receba em primeira mão a nossa newsletters.

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.