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Contra a brutalidade, seguimos unidos

por Márcia Vieira Ávila

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Colectivos e clubes de leitura, reúnem pessoas com o pretexto de partilhar o hábito da leitura e de debater as obras lidas num ambiente social e estimulante, promovendo a troca de ideias e a respectiva ampliação do repertório cultural. 

Geralmente, os clubes de leitura podem ocorrer presencialmente, online ou, até, em formato misto. São, normalmente, focados em temas, públicos ou formatos específicos, mas, também, os há mais ergonómicos ou relaxados.

 Enquanto os clubes de leitura tornam o tão conhecido «acto solitário da leitura» numa experiência colectiva, onde os leitores, tanto os experientes como os iniciantes, se encontram para discutir o que leram ou compartilhar as suas vivências, e acabam por perceber as diferentes interpretações das obras lidas entre todos, os colectivos de leitura, que incluem, também, os clubes de leitura, vão muito mais além, pois promovem projectos, actividades e debates sobre literatura, autores e outras iniciativas ligadas ao mundo dos livros, como performances ou exposições.

Como dissemos anteriormente, existem diferentes tipos de encontros, que passam por: presenciais, com reuniões físicas em livrarias, bibliotecas, centros culturais ou escolas, e em que se cultiva o olho-no-olho misturado com a experiência de socialização associada; encontros online, em que os grupos se formam e comunicam através de plataformas digitais, como conversas escritas ou, até mesmo, com encontros através de streaming para os membros; grupos mistos, que, como o próprio nome indica, combinam actividades presenciais e virtuais, associadas a entrevistas ou conversas em directo com autores ou profissionais da escrita, literatura e todas as disciplinas que orbitam o mundo literário.

Mas, afinal, quais os benefícios de participar tanto em clubes como em colectivos literários e como isso pode convergir para o tema que aqui nos traz hoje?

Podemos falar da ampliação do repertório ao nível individual, ou mesmo como grupo, ao descobrir novos autores e géneros que talvez não fossem explorados individualmente, por exemplo.

Muitas vezes, porque são sugeridos pelos demais membros, mas, também, como grelha de leitura dos próprios grupos, tanto por gosto pessoal das organizações, parcerias literárias com editoras ou redes de bibliotecas, ou porque os membros do clube ou do colectivo são também eles, além de leitores, autores/escritores.

Através destes grupos, as diferentes perspectivas ganham vida, o que ajuda a compreender outras interpretações de uma mesma história, com base nas vivências de cada participante e, desta forma, desenvolver a empatia e a tolerância social.

Só o conhecer pessoas que compartilham o mesmo gosto literário, ampliando a rede de amigos e contactos, faz com que o tão conhecido acto individualista e solitário de ler, passe a ser uma zona de partilha e de aquisição das nossas aptidões sociais, pois cada leitor ganha assim mais autonomia e formação de cidadania, mesmo que em silêncio, a ler um livro, em conjunto, online.

Estes debates literários podem, desta forma, estimular a reflexão sobre o quotidiano e o papel do indivíduo na sociedade. Quer ao nível pessoal, cultural ou sociológico.

Sobretudo numa época em que as redes sociais se têm mostrado um terreno fértil para o ódio e a agressão atrás de um teclado, acredito que a partilha de experiências e inquietações literárias pode acalmar, ou até mesmo curar, esta epidemia social.

Podemos considerar os clubes e os colectivos de leitura, como espaços de trocas, aceitação e amizade seguros e democráticos, na medida em que ler coletivamente ajuda na socialização, nos traz novas formas de enxergar a leitura e nos ensina a lidar com as diversas opiniões. Divergentes, contrárias ou similares à nossa, são todas válidas e conseguem abrir, acima de tudo, horizontes e espaços de debate que, de outra forma, nunca seriam aceitáveis.

Uma das alegrias que temos na vida, para quem aprecia a leitura, costuma ser encontrar uma pessoa desconhecida que esteja a ler o mesmo livro que estamos a ler, ou que já lemos, ou, até mesmo, estarmos algures a ler e termos por perto outras pessoas com o mesmo gosto pela leitura.

Juntar essas pessoas, conhecidas e desconhecidas, em grupos em que podemos discutir cordialmente opiniões, é deveras satisfatório.

Se isso nos tornar melhores pessoas um bocadinho que seja todos os dias, com toda a certeza, o mundo será muito mais pacifico.

Esta democratização nos participantes, com lugar a todas as ideologias políticas e religiosas, e em que se aprendem skills de empatia e abertura de horizontes, seria, eficazmente, uma estrutura social de grande sucesso.

Qualquer estrutura social ou política que ajude a abrir novas interpretações, além de permitir sair da própria zona de conforto, estaria activamente a lutar contra as desigualdades e intolerâncias existentes e a preparar um mundo mais equitativo, um lugar de onde nunca deveríamos ter saído.

Apesar de o livro lido ser o mesmo, as percepções de cada participante serão sempre diferentes, e esta troca proporcionada pelos clubes de leitura colectivos e associações, ajuda a pensar de forma crítica e, ao mesmo tempo, respeitar outras visões.

Contra a brutalidade, seguimos unidos e que as nossas armas sejam os livros que lemos.

Nota: este artigo foi escrito em PT-PT seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico

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Last modified: 28/08/2025

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