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Escritor Plácido Berci fala sobre “Louca Normalidade”, romance que discute saúde mental e passagem do tempo

Repleto de mistério e abordagens reflexivas, livro marca a estreia do autor paulista na ficção

Por Por Marcela Güther*

Saúde mental, laços familiares e a passagem do tempo estão entre os temas centrais de “Louca normalidade” (Mondru), romance que marca a estreia literária do jornalista e escritor Plácido Berci. A obra narra a história de Francisco Solano, um jornalista investigativo aposentado com um quadro psiquiátrico misterioso que, após sofrer um AVC, passa a registrar tudo em blocos de notas para preservar sua memória.

A trama ganha contornos de mistério quando Francisco acorda com uma anotação enigmática sobre uma mulher, uma praia e uma sequência de letras e números. Entre flashbacks, sonhos e investigações solitárias, o protagonista tenta decifrar se testemunhou um crime ou se sua mente fragilizada criou realidades paralelas.

A narrativa alterna entre a terceira pessoa e as anotações íntimas de Francisco, recurso que aproxima o leitor do confuso universo mental do personagem.

Plácido Berci é jornalista formado pela PUC-Campinas e atua como repórter e apresentador da editoria de esporte da TV Globo desde 2015. Natural de Araraquara e criado em São Carlos, já morou em cidades como Campinas, Rio de Janeiro, Manchester (Inglaterra) e Nairóbi (Quênia), onde foi o primeiro correspondente brasileiro. É autor dos livros “Paixão: uma viagem pelo futebol inglês” e “Nuvem de terra: relatos do primeiro correspondente esportivo brasileiro no Quênia”. 

Confira na íntegra a entrevista com o autor:

“Louca Normalidade” aborda a saúde mental, as relações familiares e o envelhecimento. Como surgiu o seu interesse por esses temas?

São temas que fizeram parte do meu cotidiano nos últimos anos de maneira muito intensa e, por consequência, passei a estudar, ler e a assistir conteúdos relacionados a eles. Com o tempo, achei importante escrever sobre esses assuntos para elaborar melhor as questões. Sempre vi o ato da escrita como algo terapêutico e de elaboração pessoal. Além de me divertir escrevendo também, é claro rs. 

Em quais aspectos as suas experiências pessoais influenciaram o livro?

O personagem principal, Francisco Solano, é praticamente todo inspirado no meu pai, fisicamente e, principalmente, em termos de comportamento e personalidade. Comecei a escrever o livro na metade de 2018 ao observar o hábito que meu pai tinha de anotar sobre tudo em blocos de notas após ter sofrido um AVC anos antes – o hábito o ajudava a melhorar a memória e a comunicação. Ele faleceu antes que eu pudesse terminar a escrita do “Louca Normalidade” e o luto trouxe novas camadas de densidade à obra, já que passei a refletir sobre outros aspectos relacionados à figura paterna. As dinâmicas entre Francisco Solano e os personagens secundários também são baseadas em vivências familiares que tive. O fato do protagonista ser um jornalista também faz com que eu utilize referências que aprendi durante a profissão, como o fato dele ter sido correspondente na África e cultivar interesses pela cultura de lá. Ou seja, o livro tem muitos traços pessoais que trazem originalidade à obra. Foi um processo duro e bastante terapêutico que levou cinco anos (2018 até 2023) para ser escrito e mais dois até fechar com a Mondru e publicar o livro. Costumo dizer que é uma história sobre reflexão, aceitação e libertação; para o personagem, para o autor e, por que não, para o meu pai também. 

Nos últimos anos, a saúde mental passou a ser um tema mais discutido pela imprensa e pela sociedade como um todo. Como o seu livro se insere nesse debate?

Minha intenção foi gerar a reflexão sobre o preconceito em relação a quem é visto como fora dos padrões sociais por questões ligadas à saúde mental e o quanto esse julgamento social impacta na vida não só de quem possui um quadro psiquiátrico, mas também de todas as pessoas próximas a ela. E que essa rejeição coletiva gera sentimentos individuais e negativos e complexos em cada um: insegurança, vergonha, medo, pena, etc. O livro também filosofa sobre outros temas como a brevidade da vida, luto, solidão, amor e saudade.  

A relação entre Francisco e o neto Santiago é retratada com uma delicadeza que contrasta com a dureza do mundo exterior. Há uma cena particularmente dolorosa em que Santiago sente vergonha do avô. Escrever esse tipo de conflito geracional exige um olhar muito cuidadoso. Como foi para você, enquanto autor, acessar essa vulnerabilidade dos personagens?

A presença de Santiago na história possui a intenção de mostrar que o julgamento social é construído ao longo do tempo. Segui a premissa do famoso “mito do bom selvagem” do filósofo Jean-Jacques Rousseau de que o ser-humano é bom em sua essência e de que é a sociedade que o corrompe. A sugestão de incluir uma criança na história foi dada por um amigo meu de infância chamado Santiago. Ele me provocou ao dizer “se quer discutir a transformação do olhar de carinho em preconceito, seria legal ter uma criança para mostrar o impacto dessa interferência externa”. Em sua homenagem, batizei o neto de Francisco Solano com seu nome.  

Por dialogar com a sua própria história de vida, você temeu que o livro o deixasse muito exposto?

Esse livro é o projeto mais especial da minha vida. Acho que a incerteza do protagonista é também reflexo da minha própria incerteza sobre até que ponto eu deveria expor algumas questões pessoais adaptadas ao contexto ficcional. Gosto muito de obras de suspense psicológico que jogam com a interpretação de quem as consome e foi divertido escrever algo nessa linha. Foi um longo trabalho de elaboração interna para colocar nas páginas da obra reflexões sobre fantasmas ligados à figura do meu pai que sempre me assombraram durante anos. Pedro Berci Filho, meu saudoso pai, foi meu melhor amigo e fomos sempre muito conectados, mas em diversos momentos da adolescência e início da vida adulta eu acabei tendo sentimentos conflituosos sobre ele e o livro me ajudou a pacificar essa memória dentro da minha cabeça. O “Louca Normalidade” me ajudou a ter ainda mais orgulho de quem meu pai foi e também a entendê-lo um pouco melhor. É uma grande homenagem a ele e espero que divirta os leitores e, principalmente, os faça pensar. 

Você tem dois livros de não-ficção. Acredita que eles contribuíram, de alguma forma, com o seu trabalho de estreia na ficção?

Acho que meu texto foi amadurecendo ao longo dos três livros e, aos poucos, senti vontade de colocar no papel narrativas mais densas, aprofundadas sobre um determinado tema e também escrever mais observações e reflexões pessoais sobre a vida. Esse lado filosófico aparece bastante ao longo de “Louca Normalidade”

Além de abordar a saúde mental e as relações familiares, “Louca Normalidade” é marcado pelo mistério. Essa atmosfera já estava planejada para o livro quando você começou a escrevê-lo?

Sempre gostei de histórias de mistério e suspense. Consumo muito esse tipo de narrativa, tanto em livros, quanto em filmes e séries, o que naturalmente me trouxe a curiosidade de testar a escrita de uma história que flertasse com esse universo. Porém, o mistério serve apenas como pano de fundo para tratar de temas mais dramáticos que são as verdadeiras motivações para o surgimento de“Louca Normalidade”. 


Quais foram as suas principais referências para o romance?

Trago muitas referências do cinema para o meu texto literário. Me inspiro muito no jeito de contar histórias de Martin Scorsese, Alejandro Iñárritu, Jordan Peele, Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock. Na literatura, minhas principais referências são contemporâneas: Daniel Galera, Raphael Montes, Giovanna Madalosso, Carla Madeira, Pedro Mairal e Edney Silvestre.  

O livro transita com naturalidade entre o suspense psicológico, a crônica familiar e a crítica social. Como foi o processo de equilíbrio entre esses gêneros para que um não engolisse o outro? Você partiu de uma intenção definida ou a narrativa foi tomando esse corpo ao longo da escrita?

A intenção sempre foi discutir como o julgamento social pode impactar a vida de alguém. Sendo assim, o drama familiar e a crítica social caminhavam juntos desde o surgimento da ideia do livro. As camadas de suspense e mistério surgiram do meu gosto pessoal por histórias desse tipo. Além disso, acreditava que o tom investigativo colaboraria para o enredo se tornar mais interessante. O equilíbrio aconteceu de modo natural. Não fiquei equilibrando conscientemente ao longo do processo de escrita. Espero ter acertado a dose.

Em ‘Louca Normalidade’, Francisco Solano anota tudo para não esquecer, e os blocos de notas se tornam extensão da sua memória e identidade. Para você, a literatura também funciona como um ‘bloco de notas’ da alma? O que a escrita registra que a memória afetiva sozinha não consegue preservar?

A escrita pode ser extremamente terapêutica e percebi isso enquanto escrevia meus dois primeiros livros. Eles são basicamente frutos de relatos de viagem de quando morei na Inglaterra e no Quênia e me ajudaram a organizar as emoções que eu havia experienciado. Foi algo fundamental que ajudou a processar a amadurecer os aprendizados tidos fora do Brasil. O “Louca Normalidade” elevou esse sentimento de reflexão pessoal à enésima potência.

Desde quando a escrita está presente em sua vida? Quando percebeu que gostaria de se tornar escritor?

Sempre gostei de escrever desde a infância e, quando criança, escrevia histórias em quadrinhos e jornaizinhos sobre um time de futebol que criei com amigos. De maneira profissional, comecei a escrever como jornalista em 2011 e em 2014 iniciei a escrita do meu primeiro livro, “Paixão: uma viagem pelo futebol inglês”, quando vivia em Manchester, na Inglaterra. A partir de 2014 comecei a escrever frequentemente também pensando em outros livros e projetos literários. Demorou até me considerar escritor além de jornalista, mas nos últimos tempos passei a me enxergar também como um autor, algo que quero valorizar e consolidar cada vez mais enquanto imagem profissional. 

Você está trabalhando em algum outro projeto literário?

Tenho um monte de ideias e alguns projetos começados. Comecei a escrever uma nova ficção recentemente, um suspense/ thriller ao estilo “quem matou” popularizado por Agatha Christie. A ideia aqui é escrever algo que eu gostaria de ler e não um livro baseado em experiências pessoas como foram os três primeiros. Também decidi transformar em trilogia o meu primeiro livro “Paixão: uma viagem pelo futebol inglês”, trazendo histórias brasileiras no segundo volume e argentinas no terceiro. No momento, a escrita do livro “Paixão: uma viagem pelo futebol brasileiro” já está em andamento. Também tenho um livro de crônicas pronto, já revisado e até com prefácio escrito pelo narrador Milton Leite e blurb de contracapa do Juca Kfouri. O livro se chama “Estádio Nostalgia: crônicas sobre futebol e saudade”, mas ainda não tenho editora e não sei quando o publicarei. 

Para encerrar, uma reflexão sobre o final do livro: Francisco joga o bloco de notas no lixo e segue viagem de táxi com a palavra ‘Vivi’ como última anotação. É um gesto de desprendimento poderoso. Para você, o que significa ‘largar o bloco’? É um convite ao leitor para também soltar suas próprias amarras e viver o presente, por mais imperfeito que ele seja?

O fim da sua pergunta é exatamente a mensagem final que tentei passar. Obrigado pela leitura atenta! O desfecho de “Louca Normalidade” é um convite à possibilidade de nos aceitarmos como somos, cientes de nossa insignificância diante do todo, para tentarmos viver da forma mais prazerosa possível. É como digo num dado momento do livro: “faça o que te faz bem, desde que esse bem não faça mal a ninguém”. É um livro sobre libertação.

*Marcela Güther é jornalista, gestora de comunicação e especialista em relacionamento com a mídia e influência na editora orlando e na com.tato, empresa especializada em comunicação para editoras e autores independentes. Com mais de 10 anos de experiência no setor de comunicação, atua também como mediadora de clubes e mesas literárias, combinando paixão por leitura com expertise em comunicação e curadoria de conteúdo literário.

com.tato – curadoria de comunicação

Jornalistas responsáveis: Karoline Lopes e Marcela Güther

Contato para atendimento: Bruno Inácio – (16) 99102-3814

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Last modified: 16/06/2026

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