Entrevista por Olga Pessoa

Laurisabel Assil é professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), pesquisadora, etnomusicóloga e doutora em Relações Internacionais. Seu trabalho investiga os carnavais enquanto ferramentas propagadoras afrodiaspóricas, articulando música, política, território e memória. A partir da Bahia, ela conecta Salvador a experiências como Trinidad e Tobago, no Caribe e Notting Hill, em Londres, analisando o Carnaval como tecnologia de existência, produção de conhecimento e construção de redes negras transnacionais.
Nesta conversa, Isabel nos convida a ouvir o Carnaval não como espetáculo, mas como arquivo vivo, política em movimento e herança ancestral.
Olga:
Você fala em “geopolítica da razão afrodiaspórica”. O que isso significa?
Laurisabel:
Esse conceito nasce da minha pesquisa em Relações Internacionais. Eu estudava a relação entre o Olodum e o Banco de Desenvolvimento da União Africana, que representa 54 países do continente. E aí me deparei com algo muito potente: a União Africana reconhece uma sexta região, a diáspora africana. Ou seja, afrodescendentes das Américas, do Caribe, dos Estados Unidos têm direito à participação política dentro dessa organização.
Isso rompe completamente com a lógica eurocentrada que organiza o mundo moderno. A União Africana se baseia em valores do pan-africanismo e da filosofia Ubuntu, que pensa desenvolvimento não apenas como crescimento econômico, mas também como cultural, espiritual, ambiental e coletivo. Essa é a base do que eu chamo de razão afrodiaspórica: um outro modo de pensar, viver e produzir conhecimento, historicamente deslegitimado.
Olga:
Como essa razão afrodiaspórica aparece no Carnaval de Salvador?
Laurisabel:
Ela aparece nos corpos, nos sons, nas coreografias, nos instrumentos, nos territórios. Para as populações negras, o Carnaval nunca foi apenas entretenimento. Ele sempre foi espaço de memória, política, sobrevivência e invenção de futuros. O Carnaval é uma tecnologia de existência.
Olga:
O que o Carnaval sabe /ensina sobre sobrevivência?
Laurisabel:
O Carnaval ensina que viver não é só resistir, é criar formas de continuar existindo com dignidade, beleza e coletividade. Ele ensina organização comunitária, economia solidária, cuidado com o território, transmissão de memória e construção de futuro.
Para as populações negras, sobreviver sempre significou inventar mundos dentro de um mundo que nos nega. O Carnaval é um desses mundos possíveis: onde o corpo, o som, o território e a ancestralidade se articulam como estratégia de vida, e não apenas como festa.
Olga:
Você diz que o corpo é um arquivo vivo. Pode explicar isso?
Laurisabel:
O som é produzido pelo corpo e é no corpo que a memória se inscreve. Diferente da tradição orquestral europeia, que invisibiliza o corpo, as culturas sonoras negras reconhecem o corpo como central na produção musical.
No Carnaval, as memórias são transmitidas por gestos, danças, movimentos, modos de tocar instrumentos, cantos coletivos, coreografias que atravessam gerações. Cada célula guarda história. O corpo não apenas lembra, ele ensina.
Olga:
O que os instrumentos e os desfiles carnavalescos revelam que os arquivos oficiais não registram?
Laurisabel:
Muita coisa. Por exemplo, os clubes embaixadas do final do século XIX e início do XX — organizações negras que levavam para as ruas indumentárias, narrativas e denúncias sociais. Eles falavam de epidemias, como os surtos de febre amarela que atingiam majoritariamente populações negras e pobres.
Essas organizações usavam o Carnaval como ferramenta política, denunciando desigualdades e reivindicando políticas públicas. São histórias que não aparecem nos livros, mas permanecem nos sons, nos corpos e nas tradições.
Olga:
Você afirma que o Carnaval é um fenômeno afrodiaspórico global. Como isso se manifesta?
Laurisabel:
O Carnaval de Salvador dialoga diretamente com carnavais como o de Trinidad e Tobago, no Caribe e o de Notting Hill, em Londres. Ambos foram fundados por comunidades negras em contextos de racismo, migração e resistência.
Esses carnavais nascem como afirmação política, territorial e cultural. Mesmo quando são capturados por estruturas institucionais e mercadológicas, continuam carregando marcas profundas de ancestralidade, luta e reinvenção.
Olga:
Como o apagamento e o racismo atravessam a história do Carnaval?
Laurisabel:
Desde o período colonial, corpos negros foram expulsos, proibidos e invisibilizados nos espaços oficiais da festa. Mesmo quando criaram as bases do que hoje é o Carnaval de Salvador — como os blocos afro, o samba-reggae e os afoxés —, suas produções foram apropriadas, higienizadas e reembaladas para consumo.
Esse processo afeta especialmente mulheres negras, que enfrentam mais obstáculos de visibilidade, reconhecimento e permanência.
Olga:
Você fala muito dos territórios como arquivos culturais. Quais territórios são centrais nessa memória?
Laurisabel:
Curuzu, Liberdade, Pelourinho, Itapuã, Nordeste de Amaralina, Brotas. Esses territórios funcionam como arquivos vivos. Eles não apenas produzem Carnaval, produzem conhecimento, economia local, pertencimento e resistência ao longo de todo o ano.
Olga:
O que acontece quando o Carnaval perde seus territórios?
Laurisabel:
Ele corre o risco de virar apenas espetáculo turístico. Há o perigo da privatização, da expulsão simbólica e material das comunidades que criaram a festa e da perda de seus fundamentos culturais.
O exemplo de Notting Hill mostra isso: quando as organizações negras foram afastadas da gestão, gêneros musicais tradicionais desapareceram e o evento foi descaracterizado.
Olga:
O que o Carnaval pode ser e ainda não é?
Laurisabel:
O Carnaval ainda pode ser um espaço mais radical de redistribuição de poder, de recursos e de narrativas. Ele pode ser mais comunitário, mais educativo, mais comprometido com as populações que o criaram.
Ele pode ser menos mercadoria e mais território. Menos espetáculo para consumo externo e mais ferramenta de organização social, formação política, fortalecimento cultural e produção de conhecimento.
O Carnaval pode ser, sobretudo, um projeto de futuro, não apenas uma memória do passado.
Olga:
O que o Carnaval deve às culturas afrodiaspóricas?
Laurisabel:
O Carnaval deve tudo. Ele deve seus ritmos, seus instrumentos, suas coreografias, seus modos de organização, suas narrativas, seus territórios e sua própria lógica de existência às culturas afrodiaspóricas.
Sem as populações negras, não haveria Carnaval como conhecemos hoje. Não haveria bloco afro, afoxé, samba-reggae, trio elétrico, nem os modos de ocupação da rua que estruturam a festa. O Carnaval é, essencialmente, uma criação afrodiaspórica, mesmo quando essa origem é apagada ou embranquecida.
Olga:
Que conselho você daria a quem quer ouvir o Carnaval como quem escuta um ancestral?
Laurisabel:
Meu Deus, essa pergunta é muito poética.
Eu diria… presta atenção no modo como os instrumentos rítmicos e percussivos são tocados.
Presta atenção nas letras dos blocos afro e afoxés, que é assim que a gente chama, né?
Presta atenção nas roupas.
Presta atenção no modo como o turbante da cabeça dos Filhos de Ghandi é feito.
Tô falando lá no Pelourinho mesmo.
Presta atenção no padê que o Gandhi faz antes de sair.
Presta atenção nas músicas que são cantadas durante a passagem na Carlos Gomes.
Vai pro Curuzu, vê a saída do Ilê Aiyê, mas vê a saída do Ilê com atenção e cuidado.
Presta atenção em cada detalhe.
Vai no primeiro dia de Carnaval no Nordeste de Amaralina.
Vê o primeiro bloco sair.
Se puder, vai antes.
Vê as pessoas organizando a rua.
Vai na saída da Timbalada, mas no dia sem corda.
Presta atenção nos detalhes.
Não vai assim… de qualquer jeito.
Entenda que carnaval é para além do nosso gozo do corpo. O corpo ali agencia memórias.
E são essas memórias que se conectam com essa ancestralidade. A ancestralidade que organiza não só o Carnaval.
Ela organiza o Carnaval também, mas não só o Carnaval.










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Last modified: 10/02/2026






















