Por Alex Brito
A vigésima edição da Revista Aorta parte de uma pergunta que atravessa todas as suas páginas, mesmo quando não aparece escrita dessa forma: o que faz uma cultura continuar viva? A resposta, se é que existe apenas uma, parece estar menos na ideia de preservar formas intactas e mais na capacidade que povos, comunidades e indivíduos têm de carregar memórias adiante, transformando-as enquanto seguem vivendo.
É dessa perspectiva que nasce “A Grande Trama: memória, tradição e reinvenção das culturas populares no mundo”, tema que orienta a nova edição e organiza um conjunto de artigos, ensaios, textos selecionados e uma entrevista especial com Mestre Bule-Bule. A revista não trata a cultura popular como objeto parado, relíquia ou peça decorativa de um passado que deve ser admirado à distância. Ao contrário, parte da compreensão de que tradição é movimento, adaptação, memória em circulação e, muitas vezes, também resistência.
O próprio editorial deixa essa posição muito clara quando rejeita a ideia de tradição como algo congelado e propõe enxergá-la como organismo vivo, capaz de “mudar de pele” sem deixar de reconhecer suas origens. Ao longo das páginas, essa percepção se desdobra em diferentes territórios: a ciência produzida fora da academia, as estratégias de resistência do teatro de revista, os rituais de despedida, as bandas filarmónicas portuguesas, o fado, a desgarrada, os quintais da infância, a literatura de cordel e outras tantas formas de expressão que revelam como os saberes populares continuam se reinventando no presente.
Quando o conhecimento nasce fora dos muros
O artigo “Os outros lugares da ciência: cultura e produção do conhecimento”, de Murilo Melo, abre uma das discussões mais importantes da edição ao questionar quem decidiu que o conhecimento válido precisa necessariamente nascer dentro da academia. O texto parte da percepção de que, durante muito tempo, saberes produzidos por quilombolas, indígenas, sertanejos, pescadores, artesãos, benzedeiras, vaqueiros e outras comunidades foram tratados mais como objetos de pesquisa do que como formas legítimas de conhecimento.
Ao trazer o saber popular para o centro da discussão, Murilo desloca a lógica tradicional. Em vez de perguntar apenas o que a ciência pode dizer sobre determinada cultura, o artigo propõe observar aquilo que essas próprias comunidades produzem como conhecimento sobre o mundo, a natureza, o território e a própria existência. A força do texto está justamente nessa mudança de perspectiva: reconhecer que aquilo que muitas vezes foi classificado como costume, tradição ou crença também carrega método, observação, experiência acumulada e formas particulares de compreender a realidade.
Essa discussão ganha ainda mais força quando o autor observa que novos corpos passaram a ocupar os espaços acadêmicos e a produzir ciência sobre suas próprias experiências. Pessoas negras, indígenas, quilombolas, moradores das periferias, trabalhadores e pessoas trans deixam de aparecer apenas como objeto observado para assumir também o lugar de quem pergunta, pesquisa e escreve. Não se trata apenas de ampliar os temas pesquisados, mas de ampliar as próprias formas de perguntar e de produzir conhecimento.
O teatro que aprendeu a falar nas entrelinhas
Em “Resistência nas entrelinhas: o teatro de revista como arma de luta”, Rafaela Lacerda recupera uma tradição teatral que, por trás de figurinos extravagantes, música, sátira e humor, desenvolveu uma relação profunda com a crítica política e social. O teatro de revista nasceu justamente com a proposta de “passar em revista” acontecimentos de seu tempo, transformando a realidade em cena e o riso em uma forma de confronto.
O texto ganha particular densidade ao abordar os períodos de ditadura no Brasil e em Portugal, quando a censura obrigou autores, atores e encenadores a desenvolverem formas engenhosas de transmitir críticas sem que elas fossem percebidas pelos censores. Aquilo que não podia ser dito diretamente passava a ocupar as entrelinhas, os gestos, as ambiguidades e os duplos sentidos. A própria limitação imposta pelo autoritarismo acabava produzindo novas estratégias de criação.
Rafaela também chama atenção para o fato de que muitos artistas não escaparam da repressão e sofreram perseguição, prisão e violência por causa do conteúdo de suas obras. A reflexão sobre o passado desemboca, então, em uma pergunta contemporânea: que espaço ainda reservamos para formas de arte capazes de denunciar o presente e tensionar aquilo que uma sociedade prefere não enxergar?
A geografia que cada povo inventou para dizer adeus
Daise Priscila conduz o leitor por outro território em “A geografia do Adeus: as culturas das despedidas”, texto que parte de uma constatação simples e profundamente humana: todas as sociedades precisaram encontrar alguma maneira de lidar com a morte, embora cada uma tenha desenvolvido seus próprios gestos, ritos e linguagens para atravessar a perda.
Ao longo do artigo, aparecem carpideiras, doulas da morte, funerais de Gana, caixões moldados de acordo com a identidade de quem morreu, rituais das Filipinas, o Día de los Muertos mexicano, cerimônias de cremação em Bali e práticas contemporâneas que aproximam morte, sustentabilidade e memória. A diversidade dos exemplos deixa claro que o luto não pertence apenas à esfera privada: ele também é cultura, linguagem e construção coletiva.
O texto se torna particularmente sensível ao lembrar que os ritos criados em torno da morte não existem apenas para aqueles que partiram, mas para os que permanecem. As despedidas funcionam como formas de organizar uma ausência que não pode ser resolvida, apenas atravessada. Nesse sentido, o artigo dialoga de maneira profunda com a proposta maior da edição: cultura também é aquilo que inventamos para continuar vivendo quando a vida nos coloca diante daquilo que não conseguimos explicar completamente.
Bandas filarmónicas e o encontro entre gerações

Em “Bandas Filarmónicas Portuguesas: Espaço de Música e Gerações”, Beatriz F. Santos apresenta uma tradição profundamente enraizada em Portugal e mostra como as bandas filarmónicas funcionam não apenas como grupos musicais, mas como espaços de convivência, aprendizagem e transmissão entre gerações.
A vida de uma banda envolve ensaios, deslocamentos, festas, concertos, procissões e uma disciplina coletiva na qual cada músico precisa aprender a escutar os demais. O resultado que o público vê nas ruas e nos palcos nasce de um trabalho contínuo, que une pessoas de diferentes idades e transforma a prática musical em experiência comunitária.
Ao mesmo tempo, o artigo não ignora os desafios financeiros e as mudanças sociais que ameaçam a continuidade de determinadas práticas. Preservar uma tradição, nesse caso, não significa repetir exatamente o que sempre foi feito, mas encontrar formas para que ela continue fazendo sentido para novas gerações.
Quando tradição e reinvenção deixam de ser opostas
Essa relação entre permanência e mudança aparece de forma ainda mais direta em “Se é cultura popular, é tradiflexível”, de Ricardo Leal Lemos. O artigo desafia a ideia de que uma cultura só é autêntica quando permanece intocada e propõe observar justamente os processos de mistura, adaptação e reconversão que atravessam as manifestações populares.
O autor percorre exemplos de Portugal, Brasil e Angola para mostrar como gêneros musicais e manifestações culturais se transformam ao entrar em contato com novas influências. Bossa nova, kuduro e outras expressões aparecem como evidência de que a cultura popular nunca foi completamente “pura”, porque sua força reside também na capacidade de absorver, reorganizar e ressignificar elementos diferentes.
A ideia de uma cultura “tradiflexível” talvez seja uma das melhores sínteses do espírito da edição: aquilo que permanece vivo não é necessariamente aquilo que permanece igual.
Oralidade, improviso e identidade
Portugal volta a aparecer em dois artigos que exploram tradições distintas, mas atravessadas pela força da oralidade. Em “Há desgarrada”, Diana Cândido S. apresenta o canto improvisado como uma prática em que rapidez de pensamento, humor, poesia e convivência se encontram. A desgarrada nasce em ambientes rurais, feiras e serões, mas encontra ecos contemporâneos em manifestações como batalhas de rap e poetry slams, revelando que o impulso de responder ao outro por meio da palavra continua assumindo novas formas.
Já Márcia Vieira Ávila, em “Fado, Património Imaterial”, parte da ideia de que o fado não é apenas um gênero musical, mas uma expressão de identidade portuguesa. Saudade, perda, esperança e fatalismo atravessam letras e interpretações, enquanto novas gerações introduzem outras influências e arranjos sem necessariamente romper com aquilo que receberam.
A questão que o artigo propõe é importante para toda a edição: se uma tradição não consegue dialogar com o futuro, ela continua viva ou apenas permanece preservada? Ao observar novas experimentações dentro do fado, Márcia sugere que continuidade e transformação não precisam ocupar lados opostos.
O quintal como primeiro território da memória
Em “O quintal conta histórias”, Yara Fers constrói uma reflexão profundamente afetiva sobre a infância como território de transmissão cultural. Amarelinha, ioiô, cantigas, brincadeiras e histórias contadas por familiares aparecem como pequenas experiências cotidianas que, muitas vezes sem percebermos, nos colocam dentro de uma memória muito mais antiga do que nós.
A autora trabalha a imagem da costura para pensar essa transmissão entre gerações. Cada pessoa recebe um fio, acrescenta alguma coisa e o entrega adiante. A oralidade passa a conviver com os livros, enquanto novas tecnologias trazem o desafio de impedir que a velocidade do presente rompa completamente os vínculos com aquilo que veio antes.
Há ainda uma camada pessoal particularmente bonita quando Yara pensa sua própria decisão de não ser mãe e questiona se isso significaria interromper uma linhagem. A resposta aparece na própria literatura: existem muitas maneiras de cuidar do futuro, e um livro também pode funcionar como um pequeno quintal onde histórias continuam encontrando novas crianças.
Os textos selecionados e outras formas de atravessar a trama
A edição também abre espaço para textos selecionados que ampliam o tema por caminhos literários diversos. Em “Invenção”, Paulo Brás reflete poeticamente sobre vida, morte e a própria necessidade humana de criar sentidos; Rosa Luizari, em “Pedra e Travessia”, transforma memória e escrita em exercício de tentativa, erro e recomeço; enquanto Ray Brandão, em “Mãos que tecem”, recupera a imagem da mãe diante da máquina de costura e transforma trabalho, infância e aprendizado em uma pequena genealogia afetiva.
Ellen Viana, em “O tempo no pulso”, encontra num relógio herdado pelo motorista de aplicativo uma imagem precisa sobre memória e permanência: nem tudo aquilo que envelhece perde valor, porque alguns objetos deixam de servir apenas à função para a qual foram criados e passam a carregar pessoas, histórias e afetos.
Outros selecionados ampliam ainda mais esse campo, como “Morando em N’Djamena”, de Alberto Arecchi, “Malabarismo Invisível”, de Ana Pamplona, e “O Folclore Dança com o Tempo”, de Cleber Luis Profeta. São textos que falam de memória urbana, papéis sociais, gênero, identidade e reinvenção de símbolos populares, reforçando a ideia de que tradição não pertence exclusivamente ao passado.
Mestre Bule-Bule e uma vida inteira dedicada à cultura popular

A entrevista especial com Mestre Bule-Bule, conduzida por Emerson Leandro Silva, funciona quase como uma síntese viva de muitas das questões atravessadas pela edição. A conversa começa diante do portão de sua casa, entre tradição, oralidade e humor, e rapidamente revela um personagem cuja trajetória se confunde com a própria história da cultura popular nordestina.
Ao falar sobre sua própria formação, Bule-Bule retorna às pessoas que vieram antes dele e reconhece que ninguém se constrói sozinho. Sua imagem de uma pessoa formada por “fragmentos de vários mestres” sintetiza uma das ideias mais bonitas presentes na entrevista: aquilo que chamamos de identidade é também resultado das vozes, exemplos e saberes que fomos recolhendo ao longo da vida.
Em outro momento, o mestre fala da importância de conhecer as próprias raízes e afirma que um país sem memória perde também a capacidade de compreender de onde veio e para onde pretende ir. Sua defesa da cultura popular não parte de uma tentativa de congelá-la, mas do reconhecimento de que ela fornece as bases sobre as quais novas formas podem surgir.
A conversa também chega à literatura de cordel e ao longo processo de reconhecimento de uma produção que durante muito tempo foi tratada como manifestação menor. Ao lembrar que muitos dos primeiros cordelistas tinham pouca escolaridade formal, mas enorme repertório e sabedoria, Bule-Bule coloca em xeque justamente uma das hierarquias que a própria edição procura questionar: quem decide o que pode ou não ser reconhecido como conhecimento, arte ou literatura?
Uma edição que celebra sem transformar cultura em vitrine
Ao chegar à sua vigésima edição, a Aorta poderia simplesmente celebrar o percurso realizado até aqui. Mas “A Grande Trama” escolhe outro caminho. A celebração existe, mas vem acompanhada de perguntas: quem tentou apagar determinadas culturas, quem as transformou em curiosidade exótica, quem separou arte e povo como se uma coisa pudesse existir sem a outra.
Esse talvez seja o gesto editorial mais importante da edição. A cultura popular aparece como força criadora, memória em movimento e linguagem que atravessa gerações sem pedir autorização à história oficial. Cada artigo observa um pedaço diferente dessa trama, mas todos acabam encontrando uma ideia comum: nenhuma tradição permanece viva apenas porque foi preservada; ela permanece porque alguém a carrega, transforma, ensina e encontra uma maneira de entregá-la ao próximo.
Nesse sentido, a 20ª edição da Revista Aorta não fala apenas sobre cultura popular. Ela fala sobre a maneira como nós mesmos somos feitos — de lembranças que não começamos, histórias que recebemos, palavras que modificamos e gestos que talvez um dia entreguemos a alguém.
“A Grande Trama” já está disponível para leitura e download em PDF no site da Revista Aorta: revistaaorta.com.
Porque, quando uma memória encontra alguém disposto a carregá-la adiante, ela deixa de ser apenas passado e volta a participar do presente.
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Last modified: 18/09/2026





