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Vozes da feira: quando a arte transforma o cotidiano

Por Olga Pessoa

Entre barracas, cheiros e o burburinho constante da Feira de São Joaquim, histórias de vida se encontram com a arte. O projeto Vozes da Feira trouxe feirantes, artistas e a comunidade para um espaço único de criação, expressão e pertencimento, mostrando que a feira é muito mais do que comércio: é cultura, memória e palco de transformação.

Feirantes que se descobrem artistas

Para Regina Lúcia de Jesus, 73 anos, dona da famosa “Barraca das cachaças”, participar das oficinas foi uma experiência de autoestima e realização pessoal:

“Sempre que tem alguma atividade aqui, gosto de participar. Uma iniciativa como essa eleva nossa autoestima. Foi maravilhoso, um incentivo enorme. Fiquei muito feliz e estou amando.”

Gildete Silva Barbosa, 59 anos, vendedora ambulante, sentiu que finalmente podia realizar um sonho antigo:

“Eu sempre quis participar de teatro. Agora, me realizei. É gratificante mostrar meu potencial, e perceber que minha história pode emocionar outras pessoas.”

Já Edgar Marcelo de Andrade, 56 anos, feirante de terceira geração da sua família, destaca a oportunidade de projetar sua trajetória e contar a história da feira:

“Essa oficina foi única. Não é só profissionalmente, mas pessoalmente. Posso me ver, me projetar e contar a história da feira que acolheu minha família. A feira é minha mãe, me deu oportunidade de vencer na vida e me reinventar.”

Para Everaldo Félix dos Santos, 42 anos, que trabalha no estacionamento da feira, a experiência reforçou o sentimento de pertencimento:

“Minha voz passou a representar todos os que estão aqui no dia a dia. O projeto elevou minha autoestima e a de todos que participaram. Participar do Vozes da Feira me fez perceber que cada história tem potencial para tocar outras pessoas.”

O impacto dos artistas

Quem conduziu as oficinas também se emocionou com a entrega e o talento dos feirantes. Para Dão Black, cantor e compositor:

“Cada feirante tem nuances artísticas dentro de si. Quando potencializamos isso com técnicas, aquilo se torna real. Se houver oportunidade de continuar, teremos grandes nomes no teatro e no cinema baiano.”

Jorge Whashington, ator, diretor, educador e afrochefe, lembra da energia e dedicação dos participantes:

“A galera chega cedo, trabalha durante todo o dia e ainda se joga nos ensaios com improvisações e criatividade. O teatro aqui não só desinibe, como fortalece a cidadania e o sentimento de pertencimento.”

Para a atriz Luciana Souza, transformar histórias reais em teatro é também um processo de fortalecimento pessoal e coletivo:

“O mais interessante é ver histórias tão ricas e inusitadas ganhando vida no teatro. O maior desafio é ajudar os participantes a compreenderem a transição do real para a estética, da vida cotidiana para a dramaturgia. Essa experiência me fez sentir a potência da cultura da Bahia e reforçou meu sentimento de pertencimento. Fico pequena e grande ao mesmo tempo, porque entendo melhor a força dessas pessoas e desse lugar.”

Apoio institucional e legado

Idealizado pela Wilson Sons, um dos principais operadores de logística portuária e marítima do país, o Vozes da Feira ofereceu 15 encontros de música e teatro, sempre às quartas e sextas-feiras, para feirantes e seus ajudantes. O resultado foi a performance cênico-musical “As águas de São Joaquim”, que terá sessões itinerantes pela feira, sempre às 15h.

As apresentações abertas ao público acontecerão nos dias 27 e 29 de agosto e 3 de setembro, dando continuidade ao movimento iniciado no dia 25 de agosto, Dia do Feirante.

Segundo Adriana Medeiros, representante da Wilson Sons, investir na Feira de São Joaquim é também investir no crescimento conjunto da comunidade portuária:

“O Vozes da Feira valoriza a história da feira e cria um canal de comunicação e progresso para os feirantes. A partir de agora, a feira terá o primeiro grupo de teatro formal, abrindo espaço para diversas manifestações culturais.”

Entre barracas e palcos

Do som das cachaças de Regina, às massas artesanais de Edgar, passando pelo estacionamento de Everaldo e os improvisos de Gildete, a feira se transforma. O Vozes da Feira mostra que cada história, cada voz, cada rosto, carrega a potência de inspirar, emocionar e transformar.

Como resume Edgar, entre orgulho e reflexão:

“Ser comerciante aqui não é só pegar pesado. É também trabalho intelectual. Vender exige raciocínio, estratégia, inteligência. O feirante também produz cultura e desenvolvimento, levando o nome do estado e da cidade.”

E Regina, com a alegria que marca sua trajetória, dá a nota final ao projeto:

“Menina, sério… posso dar mais de 10? Se pudesse, eu daria! Mas já que não pode, então é nota 10.”

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Last modified: 26/08/2025

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