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Quando a arte vira ponte: a cultura latino-americana contra a xenofobia nos EUA

Por Alex Brito

Há um tipo de silêncio que não é ausência de som é ausência de espaço. Ele nasce quando um corpo é reduzido a “ilegal”, quando um sotaque vira suspeita, quando uma família aprende a viver com a ideia de que a próxima batida na porta pode ser o Estado. E é exatamente aí, no lugar onde tentam nos apagar, que a arte latino-americana faz o que sempre fez: circula. Respira. Pulsa.

A Revista Aorta nasceu para isso: para ser “literatura que pulsa”, um movimento que atravessa idiomas, geografias e afetos, defendendo diversidade, pensamento crítico e comunidade. Em tempos de endurecimento político e de narrativas que tentam transformar imigração em crime e diferença em ameaça, cultura não é enfeite. Cultura é defesa. É documento vivo. É prova de humanidade.

O Super Bowl e a virada simbólica: Bad Bunny cantando um continente inteiro

No último fim de semana, o maior palco pop-esportivo dos Estados Unidos viu algo que, por si só, já é um choque no “normal” norte-americano: Bad Bunny liderou o show do intervalo do Super Bowl LX e marcou história ao entregar um set majoritariamente (ou inteiramente, segundo alguns relatos) em espanhol, centrado em referências porto-riquenhas e latinas.

A apresentação não foi “só um show”. Foi uma afirmação pública de pertencimento: cenários e símbolos ligados a Porto Rico, uma estética que parecia dizer “nós não pedimos licença para existir”, e um fecho com mensagens de unidade e amor contra o ódio “Together, we are America”, entre outras imagens de integração das Américas.

E o que acontece quando um artista latino ocupa o centro do espetáculo mais assistido do país? A reação revela o tamanho da ferida. Houve backlash político imediato inclusive com críticas públicas atribuídas ao presidente Donald Trump contra o show. Não é “sobre música”. É sobre quem tem permissão para narrar o que é “América”.

ICE, medo e poder: quando o Estado vira ameaça cotidiana

Nos últimos dias, o tema da imigração voltou a incendiar o debate público nos EUA, em meio a protestos contra ações e práticas de enforcement. Reportagens recentes lembram que o país vive uma onda de indignação após episódios graves envolvendo agentes federais em Minneapolis, e que o tema do ICE se tornou um símbolo central desse conflito político.

Bad Bunny, em especial, virou uma espécie de termômetro cultural dessa tensão: antes do Super Bowl, ele já havia feito críticas ao clima de medo e ao impacto dessas políticas; e, no Grammy, artistas e vencedores usaram o palco para se posicionar contra a repressão migratória, com sinais públicos de solidariedade a imigrantes e críticas ao ICE.

Importante: no show do Super Bowl, ele optou por não transformar o intervalo em comício e ainda assim, a mensagem ficou clara: diversidade não é ameaça; é a própria espinha dorsal do que os EUA dizem ser.

A resistência latina é cultural antes de ser política

Quem tenta reduzir a presença latina a estatística esquece que somos um arquivo vivo: línguas, ritmos, culinárias, bairros, jornais comunitários, igrejas, slams, grafites, romances, festas de rua. Quando há abuso de poder, a primeira linha de defesa, muitas vezes, é simbólica: arte que denuncia sem precisar pedir autorização.

Hoje, isso aparece em todo lugar: em artistas que se posicionam, em coletivos que transformam medo em cartaz, em movimentos que respondem ao trauma com beleza organizada. Há reportagens mostrando como, diante do aumento da atividade do ICE e do clima de tensão, comunidades e artistas têm transformado indignação em expressão da música ao artesanato, do protesto à criação.

E aqui entra o ponto que a Aorta conhece na pele: literatura e arte não “falam sobre” a vida, elas disputam a vida. A Aorta existe para reunir vozes emergentes e consagradas, conectar culturas, traduzir e alcançar leitores em dezenas de países, como uma rede que não aceita a ideia de fronteira como mordaça.

O combate à xenofobia começa na linguagem

Xenofobia e autoritarismo prosperam quando conseguem impor um dicionário: “invasão”, “ameaça”, “praga”, “limpeza”, “ordem”. A cultura latino-americana faz o oposto: devolve nomes aos corpos. Recupera histórias. Lembra que ninguém é “ilegal” e que o continente inteiro sempre foi feito de deslocamentos, encontros, violência e recomeços.

O que o Super Bowl mostrou não foi uma “concessão” do mainstream. Foi um vazamento: por uma noite, o centro não conseguiu conter a periferia. E quando isso acontece, a política sente. Porque a arte muda o senso comum antes de mudar a lei.

A cultura latino-americana não está “entrando” nos EUA: ela já é parte do país, de sua música, de suas cozinhas, de suas ruas, de sua literatura. A pergunta real é: por que ainda há tanta gente tentando expulsar a própria realidade?

A Aorta segue fazendo o que se propôs desde o início: oferecer um espaço vivo, inclusivo e crítico, onde a palavra não pede desculpas por existir ela pulsa.

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Last modified: 09/02/2026

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