Por Olga Pessoa

Gravado em Salvador, o telefilme Sonho de Arrocha chega à programação da TV aberta como um marco simbólico e afetivo do cinema baiano contemporâneo. Mais do que contar a história de Biel, um menino negro da periferia que sonha em se tornar cantor de arrocha, o filme ecoa um movimento maior: o fortalecimento de narrativas negras, periféricas e nordestinas no audiovisual brasileiro.
A Revista Aorta conversou com o diretor e parte do elenco: Marcos Alexandre, Guilherme Nery, Mônica Anjos e Clara Paixão, sobre processo criativo, representatividade, indústria e sonhos.
O sonho começa cedo: Guilherme Nery e a potência de Biel
Com apenas 11 anos, Guilherme Nery carrega a responsabilidade e a leveza de dar vida ao protagonista. Entre semelhanças e diferenças, ele reconhece em Biel traços da própria infância:
“Ele é mais ou menos parecido comigo, porque é extrovertido, alegre, gosta de brincar. A diferença é que ele gosta muito de aprontar e levar bronca.”
Apesar da imersão no personagem, Guilherme revela que seus próprios sonhos seguem firmes e altos:
“O que eu espero pra minha carreira é fazer muitos filmes, ser conhecido pelo país inteiro ou pelo mundo… e, quando eu for maior, ganhar o Oscar.”
A espontaneidade do jovem ator traduz exatamente o que o filme propõe: sonhar sem pedir licença.
Mônica Anjos e a força das guardiãs
Interpretando Joaquina, a avó de Biel, Mônica Anjos constrói uma personagem que representa tantas mulheres negras das periferias brasileiras, fortes, protetoras e, por vezes, atravessadas por seus próprios medos.
“Ela é guardiã, protetora. Se apossa da vida da filha e do neto, tudo por amor. Como fazem essas mulheres que sustentam tudo.”
A atriz destaca que, ao longo da narrativa, sua personagem atravessa um processo importante:
“Ela ultrapassa um pouco os limites, mesmo sendo por amor. Até que entende que o neto precisa viver o sonho dele.”
Sua trajetória artística também carrega uma dimensão de recomeço e descoberta:
“Na pandemia, mergulhei nos estudos de teatro e senti a necessidade de me profissionalizar. Hoje já estou no meu quinto curta, com trabalhos circulando internacionalmente. As portas estão se abrindo.”
Clara Paixão: protagonismo negro para além da dor
Ao falar sobre a importância de narrativas negras que transcendam o sofrimento, Clara Paixão é direta:
“Já passou da hora. Nossos corpos negros não são revestidos apenas de dor, mas principalmente de potência.”
Para a atriz, Sonho de Arrocha se destaca justamente por apresentar afeto, espiritualidade e leveza:
“É um trabalho que mostra nosso jeito de viver, com alegria, com música, com amor. Isso diz muito sobre o que carregamos de forma ancestral.”
Clara também reflete sobre sua trajetória e as transformações, ainda em curso, no audiovisual:
“Eu sempre fiz personagens atravessadas pela dor. Isso cansa. Hoje, vejo uma mudança: já faço mulheres em outros lugares sociais, com outras vivências. Isso é uma conquista.”
Sua fala evidencia uma virada importante: não se trata apenas de presença, mas de complexidade e diversidade de existência.
Marcos Alexandre: o arrocha como identidade e linguagem
Diretor do filme, Marcos Alexandre parte de uma motivação íntima para construir a obra:
“Quis me conectar com minhas raízes, com o que escuto nas ruas, nos becos, na minha cidade.”
Ao colocar o arrocha no centro da narrativa, ele reposiciona um gênero historicamente marginalizado:
“É um ritmo que o povo escuta, que faz parte da cultura popular. Precisava ter esse destaque.”
Mais do que trilha sonora, o arrocha se torna elemento narrativo e simbólico, atravessando o sonho do protagonista e a identidade do território.
Cinema baiano em expansão: acesso, política e futuro
Para Marcos, o momento atual do cinema baiano é de crescimento impulsionado por políticas públicas e novos acessos:
“Estamos vivendo um bom momento. Editais e leis permitiram que realizadores negros e periféricos pudessem contar suas histórias.”
Mas ele também aponta os desafios:
“Ainda existe uma escassez dessas narrativas. Precisamos expandir o acesso e garantir continuidade.”
Ao citar nomes históricos e contemporâneos do cinema baiano, o diretor reforça a necessidade de renovação:
“Não podemos ficar apenas nos grandes nomes já consagrados. Precisamos abrir espaço para novos olhares.”
Quando o local alcança o nacional
Sonho de Arrocha nasce na Ribeira, ecoa na Cidade Baixa e agora alcança o Brasil inteiro. Entre becos, vielas e trilhas sonoras que atravessam o cotidiano, o filme constrói uma narrativa que é, ao mesmo tempo, íntima e coletiva.
Mais do que uma história sobre música, é um retrato sobre pertencimento, afeto e possibilidade.
E, como resume o próprio diretor:
“Esperamos que o filme consiga ecoar nas pessoas que vão ver, seja na Ribeira, na Bahia ou no Brasil inteiro, como um gênero que a gente escuta, percebe e reconhece pela importância que tem para toda a população.”
Por fim…
Entre sonhos de infância, memórias ancestrais e disputas por espaço, Sonho de Arrocha não apenas ocupa a tela, afirma um lugar.
Um lugar onde a periferia sonha.
E, finalmente, é vista sonhando.












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Last modified: 30/03/2026






















