Entrevista por Olga Pessoa



No dia do seu aniversário, a Revista Aorta homenageia uma das vozes mais importantes da educação brasileira. Professora, escritora, pesquisadora e idealizadora da Escola Maria Felipa, Bárbara Carine faz da educação um projeto de transformação social sem abrir mão da própria identidade. Nesta conversa, ela fala sobre racismo, universidade, afetos, maternidade, pedagogia afrocentrada e o direito de existir por inteiro.
Há quem ainda imagine que uma intelectual deva vestir a neutralidade, falar baixo, esconder as emoções e manter distância da vida comum. Bárbara Carine escolheu outro caminho. Dança pagode, grava vídeos nas redes sociais, compartilha momentos com a família, denuncia injustiças e, ao mesmo tempo, produz algumas das reflexões mais importantes sobre educação antirracista no Brasil contemporâneo.
Recentemente reconhecida com o Prêmio Sim à Igualdade Racial, na categoria Intelectualidade, ela vê esse reconhecimento como a afirmação de uma forma diferente de produzir conhecimento. Para ela, é possível construir uma intelectualidade conectada ao território, às ancestralidades e à cultura popular sem abrir mão do rigor acadêmico.
Nesta edição especial, publicada no dia de seu aniversário, a Revista Aorta celebra sua trajetória e convida o leitor a percorrer uma conversa sobre educação, identidade, universidade, racismo, maternidade, afetos e esperança.
Revista Aorta – Você recebeu recentemente o Prêmio Sim à Igualdade Racial na categoria Intelectualidade. Em um país que, historicamente, embranqueceu a ideia de intelectual, o que significa ocupar esse lugar sendo uma mulher negra, nordestina, de Salvador, que atua nas redes sociais, dança pagode, grava trends e se comunica de forma popular?
Bárbara Carine – Eu publiquei E eu não sou intelectual: um quase manual de sobrevivência acadêmica justamente para explicar o surgimento da “intelectual diferentona”. Essa intelectualidade rompe com o modelo ocidental que espera pessoas centradas apenas em autores homens brancos, voltadas para Estados Unidos e Europa e distantes da vida comum. Eu sou uma intelectual da periferia, do chão da Fazenda Grande do Retiro. Cumpri o rito acadêmico, mestrado, doutorado, mas não me perdi pelo caminho. Os valores ancestrais que adquiri na minha comunidade continuam sendo minha régua e meu compasso. Na Fazenda Grande do Retiro eu sonhava em ser dançarina de pagode. Não vivi isso profissionalmente, mas continuo dançando porque isso me faz sentir viva. Eu realmente não me rendo. Acredito numa intelectualidade que reconhece diferentes formas de produzir e compartilhar conhecimento.
Revista Aorta – Em algum momento da sua trajetória acadêmica você sentiu que precisava se adaptar ao modelo tradicional de intelectual para ser aceita?
Bárbara Carine – Com certeza. Hoje percebo que vivi um processo de embranquecimento cultural. Não apenas na aparência, mas também nas referências que passei a consumir. Deixei de ouvir rádios populares de Salvador e comecei a ouvir outras, como se uma precisasse substituir a outra. No final do doutorado percebi que havia algum problema na minha formação. Quando fui recuperar aquilo que tinha ficado pelo caminho, descobri que também havia perdido parte de mim. Percebi que tinha me afastado da menina negra da periferia, filha de empregada doméstica, criada na efervescência cultural da Fazenda Grande do Retiro. Foi nesse reencontro que nasceu a intelectual diferentona.
Revista Aorta – Qual foi o preço emocional de ocupar esse espaço sem abrir mão de quem você é?
Bárbara Carine – Foi um preço alto. Logo que entrei na universidade vivi experiências de racismo institucional que eu nem identificava como racismo. Meu corpo começou a adoecer: dificuldades para me alimentar, dores crônicas, falta de ar. Eram consequências daquela pressão de existir como mulher negra, periférica e professora universitária. Depois eu tomei as rédeas da minha história e disse para mim mesma: “Eu sou isso e não vou negociar minha existência”. Passei a entender que o mundo é muito maior do que a universidade. As críticas continuam chegando, mas hoje escolho concentrar minha energia nas pessoas que fortalecem meu trabalho e encontram sentido no que produzo.
Revista Aorta – A Escola Maria Felipa nasceu de um sonho muito pessoal. Como surgiu esse projeto?
Bárbara Carine – Surgiu da maternidade. Quando minha filha chegou, comecei a pensar na escola onde ela estudaria. Eu queria que ela fosse formada a partir da sua potência, e não daquilo que o mundo fez dela. Queria que aprendesse que os povos africanos produziram filosofia, ciência, matemática, medicina, literatura, escrita e tecnologia. Criei uma escola afro-brasileira para minha filha e para todas as famílias que acreditassem nesse projeto.
Revista Aorta – Quais foram os maiores desafios para transformar esse sonho em realidade?
Bárbara Carine – O maior desafio sempre foi o econômico. Também tivemos que formar professores porque praticamente não existiam educadores preparados para essa proposta pedagógica. Outro desafio foi fazer as pessoas compreenderem que uma escola afro-brasileira não era uma escola apenas para crianças negras. Era uma escola comum que valorizava os saberes africanos em igualdade com os saberes indígenas e europeus. Construir algo novo traz alegrias, mas também muitas dores. Quem escolhe abrir caminhos precisa lidar com ataques, incompreensões e violência.
Revista Aorta – O que as dificuldades enfrentadas pela Escola Maria Felipa revelam sobre Salvador e sobre o Brasil?
Bárbara Carine – Revelam o racismo e a pouca importância que ainda damos às iniciativas negras. Nossa escola deveria ser vista como um patrimônio da cidade. Muitas pessoas denunciam o racismo vivido nas escolas tradicionais, mas não enxergam que matricular seus filhos numa escola afro-brasileira também é uma forma de enfrentá-lo. A existência da Maria Felipa já transforma pessoas, inclusive aquelas que nunca estudaram conosco, porque ela mostra que outra educação é possível.
Revista Aorta – Em Raça Social, você afirma que compreender a racialização brasileira exige olhar para a forma como a sociedade lê os corpos. Como uma pessoa pode entender se ocupa o lugar social da branquitude?
Bárbara Carine – A racialização no Brasil é social e fenotípica. Não é a árvore genealógica que determina isso, mas a forma como você é lido pela sociedade. Quem já foi seguido em uma loja, abordado constantemente pela polícia ou teve sua competência questionada por causa da aparência sabe exatamente do que estou falando. Como costumo dizer, quem é, sabe. A sociedade informa qual é o lugar racial que cada pessoa ocupa.
Revista Aorta – Quando você afirma que é preciso “exterminar a branquitude”, do que exatamente está falando?
Bárbara Carine – Estou falando do fim de um sistema de privilégios, não do fim das pessoas brancas. Queremos pessoas brancas como aliadas. A branquitude é um sistema que beneficia unilateralmente determinados sujeitos. Benefícios unilateralizados não são direitos; são privilégios. O que precisa acabar é esse sistema de desigualdade.
Revista Aorta – Recentemente você passou a compartilhar mais momentos da sua vida pessoal. Qual a importância de mostrar também os afetos?
Bárbara Carine – Isso foi uma construção. Durante muito tempo vivi quase exclusivamente em função das denúncias. Depois de alguns processos de adoecimento, compreendi que também precisava viver. Mostrar minha família, meu casamento, minha maternidade e meus momentos de alegria também é uma forma de humanização. Existe um mundo que precisa ser transformado, mas também existe um mundo que precisa ser vivido. A vida não pode simplesmente passar por nós.
Revista Aorta – Nesta edição da Revista Aorta discutimos inteligência artificial. Você acredita que essas tecnologias também reproduzem o racismo?
Bárbara Carine – A inteligência artificial é criada por pessoas, e pessoas reproduzem o racismo. Por isso, essas estruturas acabam chegando aos algoritmos e às tecnologias. Não é uma área sobre a qual eu tenha domínio profundo, tanto que recentemente fui convidada para falar sobre o tema e preferi indicar outros pesquisadores. Mas acredito que nunca podemos esquecer que toda tecnologia é uma construção humana. E, enquanto for assim, ela também carregará as contradições da sociedade.
Revista Aorta
Ao longo desta conversa, Bárbara Carine reafirma que educar é muito mais do que transmitir conhecimentos. É disputar narrativas, recuperar memórias, ampliar horizontes e construir novas possibilidades de existência. Sua trajetória mostra que a produção intelectual não precisa estar distante da cultura popular, da alegria ou dos afetos. Pelo contrário: é justamente quando conhecimento, território, ancestralidade e humanidade caminham juntos que a educação revela toda a sua potência transformadora.
Neste aniversário, a Revista Aorta homenageia uma educadora que escolheu não negociar a própria existência e que, ao fazer essa escolha, abriu caminhos para que muitas outras pessoas também possam existir por inteiro.
Last modified: 15/07/2026













