por Emerson Leandro

O lugar onde nascemos e fomos criados interfere diretamente na construção de nossa identidade. Os valores que temos baseiam-se na soma deste histórico, na interação entre nossas decisões ao longo do caminho e nas relações que construímos com as pessoas nesta jornada. A “voz da consciência”, aquela que ouvimos em nossa mente todos os dias, está carregada de sentimentos advindos desta trajetória. Se o tom com o qual ela se comunica com você não é empático, certamente dar ouvidos a ela te causará tormento.
A gente, por conta da correria do dia, não costuma prestar atenção em como ela se comunica conosco. Não levamos em consideração que temos o poder de modificar o seu tom ou a maneira como ela nos fala. Ouvir alguém defender esta ideia parece bobagem, perda de tempo ou charlatanismo de algum coach tentando nos ludibriar. Mas admitir ou prestar atenção na qualidade dos argumentos desta voz é reconhecer que existe, dentro da gente, uma entidade capaz de nos conduzir a um labirinto de dor e sentimentos dos quais não temos controle.
A ignorância de nossa capacidade de interferir nesta condução faz surgirem em nós as famosas crenças limitantes. Quando você acredita piamente no que esta voz lhe diz, sem testar na prática estes argumentos, você corre o sério risco de considerar que o que governa seu destino é o acaso, e não suas decisões. O medo vira seu conselheiro, e você passa a supor que o melhor caminho é não arriscar. Afinal, ser julgado pelo outro por um fracasso em público causa muita dor. Mas, na verdade, o que deveria nortear nossas decisões é a busca por tentar ser mais forte e recuperar-se mais rapidamente das pancadas que a vida nos dá.
A vida é feita de relacionamentos
Eu acredito que tenho a responsabilidade de olhar para mim como o meu principal objeto de estudo. Aquilo que penso, a maneira, a qualidade, a frequência e a intensidade com que falo permitem que a minha convivência comigo mesmo seja, ao mesmo tempo, saudável e harmoniosa.
Viver é se relacionar. Não há vida sem isso, uma vez que, mesmo sós, isolados do mundo, ainda precisamos nos relacionar com nós mesmos. A ciência chama o ato de pensar sobre o pensamento de metacognição. A importância disto, ao meu ver, é conseguir identificar padrões, compreendê-los, transformá-los ou abolí-los. Eu parto do princípio de que pensar com clareza nos leva ao autoconhecimento, e isto nos conduz, por tabela, a tomar decisões melhores e atingir resultados mais significativos para nós.
O autoconhecimento nos blinda da possibilidade de que o olhar e o julgamento do outro tomem a centralidade da definição do que somos, onde estamos e para onde vamos. Esta relação com o outro, embora seja importante, precisa ser estimulada. Afinal, a experiência com o contraditório nos faz mais inteligentes, pois aprendemos pontos de vista distintos a respeito do mesmo objeto. Mas esta troca pressupõe ouvir o que o outro diz, se atentar às nuances das mensagens que ele nos passa, filtrar aquilo que não será útil e transformar isto em aprendizado.
Entre a solidão e a solitude
Ninguém pode te salvar das ideias que você tem de si mesmo. Essa é a bênção e a maldição que a solitude nos apresenta. O risco de consolidar crenças negativas a respeito de quem somos é que, sem perceber, começamos a agir de acordo com elas e passamos a ser, de fato, isto.
Tudo aquilo que repetimos constantemente vira hábito. Nossos hábitos governam nossas ações, e são justamente elas que definem nossos destinos. Ou você compreende isto de uma vez por todas, ou repetirá padrões que te levarão a lugares que não te fazem bem. O pior é que, de alguma maneira, há um risco altíssimo de você se diminuir até se adequar a eles.
A salvação é individual, leva tempo para se instaurar e, para ser sincero, não existem garantias de que todo seu esforço surtirá os resultados que você espera. É por isso que o que mais importa não é a linha de chegada em si, mas o caminho trilhado ao longo desta jornada, as experiências que adquiriu, a certeza da força que há em você e os motivos que te farão persistir.
Nada neste processo é simples, rápido ou agradável, e o mais arriscado, depois de encontrar paz ao atravessá-lo, é não conseguir chegar ao outro lado sem mágoa em relação aos que te causaram dor. Não é sobre esquecer o que nos fizeram de ruim ou o que fizemos ao outro. É sobre, de fato, mantê-los afastados de onde estamos no momento. Afinal, errar é parte do caminho, a não ser, é claro, o erro de cometer os mesmos erros repetidamente.
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Last modified: 13/07/2026





















