Written by 17:39 ENSAIO

O tempo não cura tudo. Às vezes, ele apenas senta ao nosso lado até que a dor mude de nome

Ensaio por Alex Brito

A grayscale closeup shot of a person wearing a wristwatch

O tempo é um menino sentado na calçada. Tem os joelhos ralados, os olhos atentos e uma estranha mania de brincar com aquilo que a gente chama de perda.

Sentado ali, ao nosso lado, parece, às vezes, tão cruel, olhando para frente, sem dizer uma única palavra. Por vezes, ele, o tempo menino, observa nossas angústias, tristezas, desilusões e permanece ali, irredutível, inabalável, sendo quase uma sombra inerte.

Talvez seja exatamente por isso que não o entendemos, ele não está preocupado com nossas dores, com nossa pressa, ou com nossa procrastinação. Todavia, ele segue ali, não grite para que ele volte ou nem peça a ele que se adiante. O tempo, como qualquer criança, só se move quando algo desperta sua curiosidade.

Lembro da minha infância, quando as ruas de paralelepípedo guardavam para si mais do que apenas sorrisos. Elas guardavam nossas pequenas marcas, cabeças de dedões arrancados pelo chute mal dado na bola, onde o inimigo era a ponta da pedra que estava fora do lugar… sempre havia uma “pedra no meio do caminho”. Havia também, nossas pequenas guerras, nossos pactos de infância e quase nenhuma saudade. Naquele tempo, o tempo ainda não tinha nome, era apenas um intervalo entre o primeiro chamado de minha vó e a sandália em sua mão.

Crescer talvez seja descobrir que o tempo nunca esteve passando por nós. Nós é que passávamos por ele, distraídos, enquanto ele permanecia ali, sentado, recolhendo o que deixávamos cair. E quantas coisas deixamos cair, sem ao menos percebermos o peso ou a falta dele, alguns passos depois.

Agora, com a saudade que não fazia razão de existir na infância, percebo que o tempo continua ali, sentado na calçada, com uma grande caixa de brinquedos velhos, alguns até mesmo quebrados, esperando quem sabe o dia em que o homem de agora se sente ao lado dele e em vez de lamentar o tempo perdido, possa então catar na caixa lembranças e dar boas gargalhadas junto a ele.

O tempo continuará ali, sentado na calçada, com os joelhos ralados e a roupa gasta, olhando todos passarem sem percebê-lo. Continuará recolhendo o que deixamos para trás: brinquedos, promessas, risos, nomes, pedaços de nós.

A diferença é que agora eu o vejo, e vendo-o, talvez consiga fazer dele não uma perda, mas um poema.

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Last modified: 17/07/2026

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