Entrevista por Olga Pessoa

Cantora, compositora, escritora e educadora, a multiartista baiana Claudya Costta vive um momento de intensa produção artística. Enquanto apresenta o espetáculo “Refazendo Memórias”, um tributo à obra de Gilberto Gil, ela também lança o livro infantil “Portal Afrofuturista – As Aventuras de Maquena no Sankofa Haven”, obra que aproxima crianças do afrofuturismo e da ancestralidade africana por meio da literatura. Em conversa com a Revista Aorta, Claudya falou sobre representatividade, educação, racismo, música e o compromisso de construir novos futuros a partir da memória ancestral.
Revista Aorta – Você acaba de lançar Portal Afrofuturista – As Aventuras de Maquena no Sankofa Haven. O que esse livro representa na sua trajetória como escritora e qual foi a principal motivação para criar a personagem Maquena?
Claudya Costta – Esse livro nasce da infância que eu vivi e da infância que os meus ancestrais viveram. Eu cresci sem representatividade, sem enxergar pessoas parecidas comigo ocupando espaços de protagonismo. Então Maquena surge justamente para apresentar às crianças um futuro possível.
Ela entra em um portal afrofuturista e conhece o Sankofa Haven, um museu que só se abre para quem tem olhos para o passado. Porque não existe futuro sem ancestralidade. A gente precisa olhar para quem veio antes de nós, compreender essa sabedoria e trazê-la para construir novos caminhos.
Ao longo da história, muitas das nossas contribuições foram silenciadas ou apropriadas. No livro, Maquena descobre que a ciência também é negra, que há inventores, intelectuais e construtores da humanidade que foram apagados da história oficial. Quero que nossas crianças entendam que podem ocupar qualquer espaço.
Revista Aorta – O livro dialoga com o afrofuturismo e com a valorização da memória negra. Qual é a importância de apresentar esses conceitos desde a infância?
Claudya Costta – O afrofuturismo permite que a criança negra se enxergue no amanhã. Durante muito tempo fomos apresentados apenas pelo lugar da dor e da escravidão. Precisamos também apresentar nossos futuros.
Quando Maquena visita esse museu, ela encontra arquitetos, cientistas, escritores, matemáticos, artistas… pessoas negras que ajudaram a construir o mundo.
É uma forma de dizer para nossas crianças: “esses lugares também pertencem a vocês”.
Revista Aorta – Seus livros fortalecem identidade, pertencimento e autoestima. Qual é a responsabilidade de escrever para crianças e adolescentes negros em um momento em que as disputas de narrativas são tão intensas?
Claudya Costta – Hoje a caneta está nas nossas mãos.
Durante muito tempo escreveram a nossa história por nós, muitas vezes sem pesquisa, sem letramento racial e sem compromisso com a nossa experiência.
Agora somos nós que contamos nossas histórias.
Minha responsabilidade é deixar um legado. É oferecer às crianças a oportunidade que eu não tive.
Eu venho de uma família que também não teve letramento racial. Quando eu sofria racismo na escola, minha mãe não sabia como conversar comigo sobre aquilo. Ela também havia sido privada desse conhecimento.
Lembro de ouvir que era preciso “clarear a família”, de alisar o cabelo para ser aceita. Eu mesma alisei meu cabelo durante muito tempo.
Por isso digo que o futuro é ancestral. Precisamos fortalecer nosso povo através do conhecimento da própria história.
Ao mesmo tempo, essas obras também são fundamentais para crianças brancas, porque elas aprendem desde cedo a conviver com a diversidade sem construir relações de superioridade racial.
A literatura é uma ferramenta poderosa de transformação social.


Revista Aorta – Além da literatura, você também apresenta o espetáculo “Refazendo Memórias”, dedicado à obra de Gilberto Gil. Como nasceu esse projeto?
Claudya Costta – Esse espetáculo nasceu do desejo de agradecer.
Gilberto Gil é um dos maiores feitores da cultura brasileira. É um artista que atravessa tempos, tradições, contemporaneidade e futuro.
Ele nunca aceitou viver dentro de uma caixinha.
Essa liberdade sempre influenciou profundamente minha formação artística e humana.
Quando mergulho na obra de Gil, encontro um artista antropofágico, que bebe em diversas fontes e transforma tudo em linguagem brasileira.
Isso conversa diretamente com o meu trabalho.
Revista Aorta – Em sua leitura, qual é o principal legado de Gilberto Gil para a música brasileira?
Claudya Costta – Gil nos ensina que identidade não significa limitação.
Eu não sou apenas cantora de samba.
Posso cantar jazz, blues, afrobeat, rock, MPB…
A música negra é plural.
Muita gente acredita que o jazz é branco porque só conhece intérpretes brancas.
Muita gente acha que determinados gêneros não nasceram da cultura negra.
Meu trabalho também busca resgatar essas origens e mostrar a riqueza da produção cultural do nosso povo.
Através da música e da literatura eu quero lembrar que somos infinitos em possibilidades.
Revista Aorta – Sua trajetória reúne música, literatura e educação. Existe um ponto comum entre todas essas linguagens?
Claudya Costta – Existe, sim.
Todas elas são instrumentos de transformação.
Eu acredito profundamente na educação.
É na infância que conseguimos construir novos olhares.
Uma pessoa adulta que escolheu o racismo dificilmente será transformada pela minha arte.
Mas as crianças ainda estão aprendendo o mundo.
É para elas que escrevo.
É nelas que deposito minha esperança.
Porque acredito que um futuro diferente começa dentro da escola.
Sobre Claudya Costta
Claudya Costta é cantora, compositora e escritora baiana. Em sua produção artística, a música e a literatura se encontram para ampliar o debate sobre identidade, memória e representatividade da população negra.
Com um repertório que transita por diferentes matrizes da música afro-brasileira e da diáspora africana, a artista desenvolve um trabalho marcado pela liberdade estética, aproximando ritmos como samba, jazz, blues e afrobeat. Na literatura, dedica-se especialmente ao público infantojuvenil, criando histórias que apresentam às crianças negras novas possibilidades de futuro sem perder de vista a força da ancestralidade.
Seu livro mais recente, Portal Afrofuturista – As Aventuras de Maquena no Sankofa Haven, reforça esse percurso ao convidar os leitores a reconhecer o legado de seus ancestrais e imaginar novos horizontes. Em paralelo, Claudya leva aos palcos o espetáculo Refazendo Memórias, homenagem à obra de Gilberto Gil e à pluralidade de uma das maiores referências da música brasileira.
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Last modified: 22/07/2026























