Ensaio por Alex Brito

Ninguém deveria construir uma morada no deserto. Nele, não há paredes, quadros, janelas e nem portas. O deserto foi feito para passos, caminhos, sede e principalmente para o silêncio. O ermo não comporta inércia, nele tudo se movimenta, o cenário muda constantemente e o oásis é sua principal armadilha.
Há, certamente, muitos desertos que não têm areia, não têm sol escaldante e muito menos tempestades áridas. Alguns se instalam no peito, numa despedida, em um ciclo que se encerra, ou até mesmo no intervalo entre uma oração e a resposta que se espera.
Me lembro que o meu deserto estava muito longe de ser um lugar árido. Meu deserto era lindo, úmido, verde, águas cristalinas e cachoeiras formidáveis. Nele, havia cantos de pássaros, cobras que passeavam livres, havia também pessoas, comunidade unida e dias de sossego.
Foi nesse oásis, entre Minas Gerais e Espírito Santo, que me vi diante de uma das maiores batalhas da minha vida. Entre dias de solidão, conversas internas, dilemas antigos e feridas que eu carregava havia anos, encontrei uma resposta que não veio como milagre, mas como direção: nenhum deserto, por mais bonito que pareça, deve ser confundido com destino.
E mesmo que eu estivesse em um lugar aparentemente sublime, havia ali toda a transformação que um deserto exige de uma pessoa… Passagem! Foi ali, entre as árvores, entre as pessoas, entre a montanha, que eu me deparei com o medo da jornada, com as inseguranças do futuro e com as perdas do passado.
Há lugares que nos recebem tão bem que confundimos acolhimento com destino. A beleza também pode nos prender. O canto dos pássaros, a água limpa, a sombra das árvores, tudo parecia dizer: fique. Mas havia dentro de mim uma voz mais seca, mais funda, dizendo que aquele lugar não era casa. Era travessia.
Naquele momento, assim como em um oásis, nosso corpo pede permanência, nossa mente solicita casa, morada e tendas. Mas, o deserto é lugar de aprendizado e passagem.
Foi aí, então, que descobri que o erro talvez seja tentar morar onde a vida, o tempo e as nossas escolhas apenas nos orientaram a passar, aprender e seguir.
Porque o deserto, mesmo quando se veste de verde, não é casa. É travessia. E toda travessia, por mais dura que seja, existe para nos devolver ao caminho.
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Last modified: 22/07/2026





















