Ensaio por Alex Brito

No fim da manhã, a luz atravessava uma pequena abertura da cortina e riscava o chão do quarto com uma faixa dourada. Dentro dela, a poeira parecia ganhar vida, dançando devagar num espaço que, poucos segundos antes, eu nem percebia existir. Sempre achei curioso como o sol não precisa da janela inteira aberta para entrar; às vezes, uma fresta já é suficiente para transformar tudo o que toca.
Em certo momento da minha caminhada como poeta, me vi entre a vontade de escrever e um hiato criativo que parecia não ter fim. Acordei como de costume, abençoei minha cabeça ao levantar da cama, tomei banho, bebi meu café preto, rigorosamente quente, e fui para a mesa de trabalho. Ali, já sentia que seria um dia difícil para a escrita; nada vinha à minha cabeça, nenhuma ideia, nenhum impulso criativo. Tudo parecia cinza como um dia nublado e frio, sem qualquer sinal de cor.
Enquanto a mão esquerda descansava sobre a mesa, esperando que alguma ideia surgisse, senti uma leve queimação na pele. Olhei rapidamente e vi o sol querendo me dar “bom dia!”. Ele havia entrado pela fresta da janela, e aquela faixa de luz parecia fazer algum esforço para se mostrar, quase como se quisesse conversar comigo.
Naquele instante, vi a poeira bailando devagar dentro da luz, seguindo em direção à minha mão. Parecia uma pequena mensageira do sol. Enxerguei também minha mesa levemente bagunçada, os livros que eu já não abria havia algum tempo. Percebi que, às vezes, a luz não chega para resolver nada; chega apenas para tornar visível aquilo que já estava diante de nós.
Ao prestar atenção naqueles pequenos detalhes ao meu redor, percebi que a criatividade talvez precisasse apenas de um olhar mais atento. Talvez eu precisasse ser menos escritor e mais poeta, observar o mundo à minha volta e deixá-lo tocar em mim.
Por algum tempo, nos esforçamos demais para entregar algo, para sermos produtivos. Esquecemos a beleza de simplesmente contemplar, silenciar os estímulos da produtividade e voltar a sentir o que está ao redor. Isso também pode acontecer ao ouvir uma música, ver crianças correndo no parque ou fechar os olhos para deixar a mente encontrar velhas imagens guardadas nas gavetas bagunçadas das lembranças.
Por vezes, o hiato não é falta de criatividade, mas falta de pausa, ausência de espaço para o ócio. Hoje, penso que alguns hiatos talvez sejam apenas a mente pedindo espaço quando começamos a transformar demais a vida em tarefa.
Naquele dia, não escrevi tudo o que imaginava quando me sentei à mesa, mas também já não precisava. A luz continuava ali, atravessando a fresta da janela, tocando a madeira, os livros esquecidos e a minha mão, como se quisesse me lembrar de que uma pequena fresta, algumas vezes, já é espaço suficiente para alguma coisa entrar.
Desde então, passei a desconfiar menos dos dias em que nada parece acontecer. Às vezes, basta ficar quieto por tempo suficiente para perceber que o sol também encontra seus próprios caminhos.
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Last modified: 03/09/2026





