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A arte como trincheira: o caso Master, o filme ‘Dark Horse’ e o preço do silêncio

Por Alex Brito

Imagem gerada por IA

A história nos ensina que a arte nunca foi, e jamais será, um terreno neutro. Ela é o espelho implacável de uma época, o grito inevitável dos silenciados e a principal força motriz no combate às opressões estruturais. No entanto, o que observamos em grande parte do circuito cultural e midiático contemporâneo é uma perigosa anestesia coletiva. Em nome de um engajamento algorítmico seguro e do medo patológico de perder patrocinadores, artistas e veículos de comunicação optam pela omissão. Calam-se diante das engrenagens brutais da política, desviam o olhar dos escândalos de corrupção e ignoram deliberadamente as fraturas sociais abertas.

Na Aorta, o silêncio não é uma moeda de troca. A linha editorial que defendemos é clara e inegociável: a arte é eminentemente política. É exatamente por isso que não hesitamos em transformar nossas páginas em palco para denúncias duras, seja abordando o genocídio promovido por Israel contra o povo palestino, a violência da guerra da Rússia contra a Ucrânia, ou o massacre sistemático que ceifa diariamente a vida dos moradores das nossas periferias. A cultura não serve apenas para o entretenimento dócil; ela serve para incomodar, para expor as feridas purulentas do sistema e, acima de tudo, para preservar a memória coletiva, garantindo que as atrocidades não caiam na vala comum do esquecimento.

Quando a arte abdica do seu papel de denúncia, ela corre o risco iminente de ser capturada e transformada em mero instrumento de lavagem, tanto de capital financeiro quanto de biografias indefensáveis. O mais recente e estarrecedor exemplo dessa distorção grotesca é o escândalo envolvendo o “Caso Master” e a controversa produção do filme “Dark Horse”. Atualmente, o caso do Banco Master é investigado como a maior fraude bancária da história brasileira. No olho desse furacão de corrupção, descobriu-se o financiamento de uma cinebiografia sobre Jair Bolsonaro. O projeto possuía o claro objetivo de reescrever a história recente e idolatrar a figura do ex-presidente, com um lançamento estrategicamente previsto para 11 de setembro de 2026, às vésperas do período eleitoral.

Os contornos dessa operação revelam o grau de cooptação da máquina cultural pelo dinheiro escuso. Vazamentos de áudios mostraram que o senador Flávio Bolsonaro negociou diretamente com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master e que chegou a ser preso nas operações policiais, a absurda quantia de R$ 134 milhões para bancar a produção cinematográfica. Desse montante, as investigações apontam que Vorcaro chegou a efetuar o pagamento de cerca de R$ 61 milhões para a viabilização do longa-metragem apenas entre os meses de fevereiro e maio de 2025. Trata-se de uma obra inteiramente desenhada com finalidades ideológicas, roteirizada a partir de uma história do ex-secretário de cultura Mario Frias, dirigida por Cyrus Nowrasteh e contando com o ator norte-americano Jim Caviezel no papel principal de Jair Bolsonaro.

O que presenciamos no “Caso Master” não é, de forma alguma, o fomento legítimo à cultura, mas sim a tentativa orquestrada de comprar a memória de um país. O filme “Dark Horse”, que foi concebido nos bastidores para ser o grande trunfo de propaganda política da extrema direita, revelou-se um verdadeiro Cavalo de Troia para a candidatura de Flávio Bolsonaro, trazendo diretamente para o coração de sua campanha as pesadas suspeitas de corrupção bilionária que cercam a instituição financeira. Quando um clã político busca patrocínio oculto nas cifras de um banco destroçado por fraudes bilionárias, o cinema perde a sua aura criativa e passa a operar meramente como um outdoor para a impunidade.

A arte, quando apartada da sua essência subversiva e questionadora, vira um verniz barato para esconder o apodrecimento das instituições e dos homens que as comandam. Esse escândalo evidencia até onde os donos do poder estão dispostos a ir para forjar heróis sintéticos e maquiar a realidade brutal do país. É exatamente contra esse tipo de cooptação que a nossa trincheira literária e artística se ergue diariamente. A cultura não pode ser feita de refém por banqueiros investigados ou por elites políticas que tentam higienizar seu legado manchado através de orçamentos cinematográficos faraônicos.

Ao traduzirmos nossas ideias para múltiplos idiomas e alcançarmos milhares de leitores em dezenas de países, nossa missão prioritária é assegurar que a narrativa do nosso tempo não seja ditada pelos que detêm o capital ilícito. Reivindicamos o direito absoluto à memória. A crônica, a poesia, a dramaturgia e a análise crítica são as nossas ferramentas para desmantelar esquemas estruturais. Enquanto outros veículos continuam a medir as palavras para não perder privilégios, nós continuaremos a pulsar forte, enfrentando o sistema e garantindo que a verdadeira face da nossa época jamais seja encoberta. A história não perdoa os covardes e os omissos, e a literatura existe, acima de tudo, para nos impedir de esquecer.

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Last modified: 15/05/2026

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