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Adriana Parron lança “Garrancho”: a poesia-jogo escrita pela metade que só termina nas suas mãos

Entre coletânea e caderno, o livro da arte-educadora paulistana, publicado pela Editora Verso, propõe uma escrita sem nota nem boletim, em que cada poema é também um convite à criação.

Há livros para ler. Há livros para guardar. E há, agora, um livro para jogar. É essa a aposta de Garrancho — Poesia metade escrita, metade sua, da paulistana Adriana Parron, lançado pela Editora InVerso. Mais do que uma reunião de poemas, a obra inaugura um formato que a própria autora batiza de poesia-jogo, poesia-coletiva, poesia cooperativa: um livro deliberadamente inacabado, que só se completa quando o leitor pega a caneta e responde.

A origem é íntima. O Garrancho nasceu de um ex-caderninho de poesia, o diário de adolescência de Adriana, que cresceu junto com ela até virar livro. Talvez por isso seu formato físico recuse a quietude da coletânea tradicional e oscile entre antologia e caderno de verdade, com páginas pautadas à espera de uma letra de mão. É um livro escrito pela metade, a outra metade é sua.

Tirar da escrita o véu de ditadura

Por trás da brincadeira, há uma inquietação séria, forjada na sala de aula. Em sua trajetória como arte-educadora, Adriana percebeu que a escrita era a única linguagem artística que, mesmo trabalhada, não criava conexão com seus estudantes. A enorme maioria dos adolescentes a quem lecionou simplesmente odiava escrever: uma folha pautada em branco bastava para provocar exclamações desesperadas e mãos suadas.

A autora identifica a raiz desse pavor na única forma de escrita que muitos jovens conhecem, aquela ensinada na escola, em que cada pontuação e cada letra é uma chance de falhar, de perder pontos, de virar exemplo do que não se deve fazer. Uma escrita utilitária, padronizada, tirânica e, sempre, sempre avaliada. “Eles não acreditavam que escrever ‘era pra eles'”, lembra. O Garrancho nasce justamente do desejo de retirar esse véu de ditadura que a escrita carrega e de provar que brincar de escrever é possível, e é para todos.

No teatro, tudo se aprende jogando

A virada veio de outra linguagem. No teatro, Adriana aprendera que tudo que se pode ensinar pode ser ensinado por meio de um jogo. Foi com essa lente que ela voltou aos próprios escritos da adolescência, perguntando-se: “que jogo eu estava jogando aqui?”. Da resposta, brotou o rascunho do livro.

As regras são simples. Cada poema escrito por Adriana “faz par” com um prompt de escrita, uma proposta para que o leitor siga, contrarie, explore, amplie e, enfim, escreva suas próprias palavras em diálogo com o que acabou de ler. Como em todo bom jogo, o objetivo não é obedecer às regras nem acertar. Até o vencer, ali, é dispensável. As regras existem só para nivelar o terreno onde mora o que de fato importa: a diversão, a interação, a conexão, a exploração.

“LACUNAS”: uma poesia conversada

O melhor exemplo dessa lógica é a poesia-jogo “LACUNAS”, em que versos completos convivem com espaços vazios à espera do leitor. “Imaginei um poema / cor de ____ / escrito por uma ____”, começa Adriana, abrindo a janela para outras bocas, outras palavras. Na página seguinte, escrita em vermelho, ela imagina como seria uma poesia conversada, em que a letra cursiva de um se embola na do outro, vai e volta como mola, e a prosa e a poesia se fundem numa palavra inventada: prosesia. A pergunta que encerra o jogo é também sua tese: e se, conversada, a poesia “se torna nossa”?

O convite extrapola a página. Quem completar as lacunas é chamado a compartilhar sua criação nas redes com a hashtag #garrancho, porque, neste livro, a leitura mais bonita é aquela que devolve palavra por palavra.

Sobre a autora

Adriana Parron é paulistana, tem 26 anos e atua como arte-educadora, atriz, roteirista e pesquisadora de processos criativos inter-mídias, investigação que rendeu, inclusive, booktrailers do Garrancho publicados em suas redes. Atualmente pesquisa ficção científica no contexto da arte brasileira. Para conhecer mais sobre o livro e seus outros trabalhos, é só seguir @adrianaparr0n em todas as plataformas.

Apenas ser lida não lhe bastava. Com o Garrancho, Adriana Parron faz da poesia um território partilhado e nos lembra que escrever, antes de qualquer nota, é um jogo que vale a pena jogar. Boa escrita, boa leitura, bom jogo.

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Last modified: 30/05/2026

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