Escritora, psicoterapeuta e mitóloga revela como dragões, deusas e símbolos ancestrais podem ajudar o ser humano a reencontrar o sagrado e compreender a própria jornada
Por Olga Pessoa

Durante a FLIPOÇOS, a Revista Aorta conversou com Larissa Dias, autora que vem se destacando por transformar mitologia, psicologia e espiritualidade em obras literárias capazes de provocar reflexão e autoconhecimento.
Psicoterapeuta, orientadora vocacional e de carreira, Larissa utiliza os mitos como ferramentas de transformação pessoal. Em seus livros e histórias em quadrinhos, deuses, deusas, xamãs e dragões deixam de ser apenas personagens simbólicos para se tornarem guias de uma jornada interior.
Nesta entrevista, ela fala sobre a origem de seu interesse pela mitologia, o lançamento de Guardião da Pedra da Memória, sua visão sobre o sagrado feminino, a relação entre literatura e meio ambiente e os próximos passos de sua produção.
“Perguntei quem era Deus e comecei a procurar respostas”
Revista Aorta: Larissa, primeiro gostaria que você se apresentasse para o nosso público.
Larissa Dias: Eu sou Larissa Dias, sou psicoterapeuta, mitóloga, orientadora vocacional e de carreira e escritora. E eu estou aqui na FLIPOÇOS com muita alegria para falar um pouquinho do meu trabalho. Agradeço por vocês, por essa entrevista. Estou muito feliz.
Revista Aorta: Como nasceu o seu interesse pela mitologia e pelas narrativas simbólicas?
Larissa Dias: Ele nasceu quando eu tinha por volta de 16, 17 anos e eu perguntei quem era Deus. E aí eu não me contentei com a resposta comum da religião católica pela qual eu fui criada e comecei a pesquisar.
Descobri que Deus não era só uma manifestação, mas muitas. Então eu pesquisei, comecei a comprar todos os livros originais das religiões, que era onde estavam as histórias dos deuses, dos heróis, e comecei a entender que Deus era, na verdade, uma máscara de algo muito maior que cada cultura transmitia de forma diferente.


As referências que moldaram sua visão
Revista Aorta: Quais foram as suas principais referências literárias, espirituais e culturais?
Larissa Dias: Eu tenho algumas referências.
A primeira é Joseph Campbell, que é a minha referência mitológica; foi através dele que eu conheci a mitologia.
A outra é George Ivanovich Gurdjieff, um filósofo do Oriente muito interessante, que trouxe o Eneagrama, que é um símbolo com o qual eu trabalho hoje.
A Mirella Faur, que nasceu na Transilvânia e veio para o Brasil, e fala sobre o sagrado feminino, as deusas.
E o Carl Gustav Jung, da psicologia analítica, que eu sigo e que também mesclo um pouco no meu trabalho com a mitologia.
Guardião da Pedra da Memória e o encontro com o dragão interior
Revista Aorta: Como surgiu a ideia de Guardião da Pedra da Memória? O que ele representa?
Larissa Dias: O Guardião da Pedra da Memória é um livro que fala sobre a nossa conexão com o nosso dragão interior, que é esse personagem interno que mostra para a gente quem a gente é profundamente, de forma completa.
Todos nós vivemos uma vida e, às vezes, ela é um pouco parcial. A gente não entende muito nossas sombras, nossas forças. E o livro vem para contar a história de alguém que encontrou esse dragão e que virou um ser completo, mesmo depois da morte.
Então é uma história muito legal, que toca profundamente as pessoas que estão buscando um caminho, que estão buscando o trajeto de vida e que querem se emocionar com a sua própria jornada, porque toda a nossa jornada é grandiosa.
Às vezes a gente para na metade e não sente essa grandeza. Mas, se todos nós temos um dragão interior, isso quer dizer que a nossa jornada é imensa, grandiosíssima.
Esse livro ainda trabalha um pouco dos compositores clássicos e dos enigmas mágicos contidos em suas músicas.
O dragão em todas as culturas
Revista Aorta: Existe uma mitologia própria sendo criada nesse projeto ou ele dialoga com mitologias já existentes?
Larissa Dias: Na verdade, essa mitologia do dragão existe em todas as culturas.
Nós é que não entendemos e achamos que ele só vem dos celtas, dos povos nórdicos ou dos gregos. Mas, na verdade, o dragão é uma imagem que existe em todas as culturas.
O pessoal se acostuma com Game of Thrones, mas o dragão não obedece aos humanos. Muito pelo contrário: ele traz a nossa grandeza, ele nos inspira, ele nos faz querer entender um pouco mais da nossa própria trajetória.
Então, na verdade, é um resgate da memória do dragão como esse ser magnífico que ele é. Eles são seres espirituais.
Deusas da Terra: mitologia e ecologia
Revista Aorta: Seu trabalho dialoga com o sagrado feminino e com as forças da natureza. Como esses elementos aparecem nas suas histórias?
Larissa Dias: Eles aparecem principalmente nas HQs que eu fiz.
A primeira, Deusas da Terra, é uma pesquisa de dez anos sobre as deusas da Terra. Conta a história de Mirella, uma sacerdotisa de uma aldeia mágica e sagrada que precisa partir em uma jornada para restaurar a Grande Serpente.
Toda vez que ela encontra uma deusa da Terra, ela se depara com um desastre ambiental. Na história em quadrinhos parece ficção, mas todos os desastres ambientais são baseados em fatos reais.
Então, na verdade, o feminino e a Mãe Terra são um só. A gente tem que entender a Terra como se fosse a nossa mãe.
O papel do feminino na mitologia
Revista Aorta: Você acredita que revisitar as mitologias pode ajudar a ressignificar o papel do feminino hoje?
Larissa Dias: Com certeza.
A mulher foi muito subjugada ao longo do tempo. E a mitologia vem para lembrar da sua importância.
A primeira divindade que surgiu na humanidade não era um homem, era uma mulher. Porque a mulher engravida, gera uma criança.
Mas o meu trabalho é resgatar o feminino e trazer importância junto com o masculino. Eu sou muito contra essa ideia de que o feminino é melhor e os homens são terríveis.
Todos os meus livros trazem o homem e a mulher de igual importância, justamente para trabalhar a igualdade e não a soberania de um sobre o outro.
“A Terra continua linda e plena”
Revista Aorta: A questão ambiental é um eixo central do seu trabalho?
Larissa Dias: Sim.
Ao ver todo esse desrespeito ao meio ambiente, percebi que é isso que fere as deusas, é isso que fere o sagrado.
As deusas da Terra são o planeta no qual a gente está pisando agora. E a gente tem que ter muito respeito.
Sem esse planeta, a gente não vive.
E uma coisa importante: a Terra não vai ser destruída. A Terra continua linda e plena. Quem destrói a Terra será destruído.
“Sou obediente aos deuses”
Revista Aorta: Como nasce o seu processo criativo?
Larissa Dias: Eu falo que sou obediente aos deuses. Eles são meus contratantes.
As histórias são baixadas na minha cabeça e eu vou lá e obedeço.
Foi assim com os contos eróticos mitológicos, com A Música do Universo, com as histórias em quadrinhos e também com Guardião da Pedra da Memória.
Eu gosto muito de ser o instrumento dos deuses.
Literatura como reencontro com o sagrado
Revista Aorta: Que tipo de experiência você deseja provocar no leitor?
Larissa Dias: Eu quero provocar o contato com o sagrado.
Muitas vezes as pessoas tratam a mitologia como uma historinha, como uma mentira. E esquecem do poder que aquilo pode trazer para a vida delas.
Eu uso a mitologia nos meus atendimentos e ela muda a vida das pessoas.
Quero que o público se relembre de que os deuses não estão apenas longe. Eles fazem parte de nós.
Nós somos co-criadores da nossa existência.
O curso Chamado do Dragão
Revista Aorta: Quais são os próximos passos de Guardião da Pedra da Memória?
Larissa Dias: O livro foi muito bem recebido e, por conta disso, eu criei o curso Chamado do Dragão.
Ele vai trazer os aspectos mítico, psicológico e espiritual do dragão, além de práticas, rituais, cura, tipos e clãs de dragões e magia simbólica.
Refúgio: a mitologia viva do Brasil
Revista Aorta: Que temas você ainda deseja explorar?
Larissa Dias: Estamos com um projeto de HQ chamado Refúgio.
Queremos falar da mitologia viva de todos os imigrantes e refugiados que vieram para o Brasil e trouxeram suas histórias.
A ideia é mostrar como essa mistura pode nos transformar em uma nação mais unida, menos desigual e mais acolhedora.
O símbolo que resume toda a sua obra
Revista Aorta: Se pudesse definir sua obra em um símbolo mitológico, qual seria?
Larissa Dias: O dragão.
Porque ele é o guardião da magia do mundo.
Eles são os guardiões do sagrado, da magia, dos deuses.
E, principalmente, lembram a nós qual é a magia da nossa própria existência e que a gente não pode desistir da nossa vida.
Larissa Dias transforma a mitologia em uma linguagem viva e profundamente humana. Em suas histórias, os dragões não vivem apenas nas páginas dos livros: habitam o interior de cada leitor, lembrando que toda existência carrega em si uma dimensão mágica e transformadora.
Serviço
- Instagram: @larissadias.mitologia
- Site oficial: Amarath Editora e Instituto Amarath
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Last modified: 21/05/2026




















