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O Riso como resistência: o circo no Brasil e a arte de ser palhaço

Por Alex Brito

Um olhar sobre a história do circo no Brasil através do livro “O Elogio da bobagem” de – Alice Viveiros de Castro

Há um personagem que, com sapatos largos, nariz vermelho e um sorriso pronto para desarmar qualquer tristeza, percorre gerações e geografias. O palhaço. Ele é mais do que uma figura cômica: é símbolo da resistência cultural, do riso como arte e, no Brasil, de uma expressão profundamente enraizada na identidade popular.

O Brasil tem um jeito peculiar de rir de si mesmo — e talvez seja por isso que o palhaço tenha encontrado por aqui um solo tão fértil. A história dessa figura é ancestral, ritualística, transcende o picadeiro: como nos lembra Alice Viveiros de Castro em O Elogio da Bobagem, o riso é quase um mecanismo de sobrevivência. “O palhaço é o sacerdote da besteira, das inutilidades, da bobeira…”, escreve a autora, com carinho e reverência.

Do rito ao picadeiro: uma linhagem milenar

Antes de adentrar o circo como o conhecemos, o palhaço já habitava as festas pagãs, os rituais indígenas, as cerimônias africanas. Os heyokas dos povos nativos da América do Norte, os bobos da corte europeia, os mímicos da Grécia antiga e os bufões das festas medievais são ancestrais diretos do nosso palhaço contemporâneo.

No Brasil, essa linhagem se entrelaça às manifestações populares: Mateus e Bastião nos autos de Bumba-meu-boi, os palhaços das Folias de Reis, os brincantes do Mamulengo. O palhaço brasileiro nasceu mestiço, ruidoso, eclético. Viveiros de Castro destaca que o palhaço nacional é, por excelência, sincrético: um misto de cantor de opereta, improvisador de feira, agitador cultural. Um palhaço que samba, que canta modinhas, que atua — tudo ao mesmo tempo.

O circo como casa

Foi no picadeiro que o palhaço encontrou sua casa. No século XIX, com a consolidação do circo tradicional no Brasil — inicialmente de influência europeia, mas rapidamente tropicalizado — o palhaço assume protagonismo. A “barraca do Telles”, um dos primeiros circos itinerantes do país, já incluía o palhaço como atração principal.

Daí por diante, o Brasil vê nascer figuras inesquecíveis: Benjamin de Oliveira, o primeiro palhaço negro a ganhar fama nacional; Piolin, que encantava artistas e presidentes; Arrelia e Carequinha, que dominaram o rádio e a televisão com bordões eternizados. Cada um à sua maneira construiu uma ponte entre o riso e o povo.

Palhaçaria é coisa séria

Engana-se quem reduz o palhaço à caricatura. A palhaçaria é uma arte rigorosa, feita de escuta, tempo cômico e presença cênica. É também um exercício político e social. Como observa Viveiros de Castro, os palhaços são aqueles que ousam dizer o que ninguém mais pode. “O bobo fala pelo rei o que o rei não pode dizer”, relembra a autora ao narrar as façanhas dos bufões medievais.

Hoje, vemos essa arte florescer em novas frentes: os palhaços de hospital, como os Doutores da Alegria; os grupos que atuam em zonas de conflito, como os Palhaços sem Fronteiras; e, claro, a crescente presença feminina na cena — palhaças que ressignificam o riso e questionam normas de gênero com maquiagem e subversão.

E a festa continua

A palhaçaria vive um renascimento. Em centros urbanos, escolas especializadas, festivais e coletivos espalham-se. O teatro redescobre o palhaço, o cinema flerta com sua estética e a internet abre novas arenas para a palhaçaria contemporânea.

No fundo, o palhaço — aquele que “gasta seu tempo com bobagens” — cumpre uma função essencial: nos reconectar com o humano. Como disse Millôr Fernandes, “o homem é o único animal que ri, e é rindo que ele mostra o animal que é”. O palhaço, então, nos aponta o espelho — distorcido, exagerado, cômico — e nos convida a rir daquilo que somos. E a rir, sobretudo, juntos.

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Last modified: 26/03/2025

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