ÁREA DE MEMBROS

OS BASTIDORES DO BALLET RUSSO

Abrem-se os portões e sobre a escada quase infinita, celestial, coberta de neve que cai e irradia raios de sol, vibrando aos sons de Frédéric Chopin, caminham passos que se elevam aos palcos de um dos maiores teatros de Opera e ballet da Europa (cidade de Astrakhan).

A herança  francesa e italiana vestida de traços rígidos do temperamento russo, dá luz à esta jóia única, que não passa despercebida pelo mundo – o ballet russo – único, misterioso e pomposo.

Hoje, nos caiu a sorte de ter tudo revelado por dentro, de ver e questionar, interagir com artistas do ballet  de várias partes da Rússia que compõem este mosaico. Vozes e personalidades diferentes (Yuri Klevtsov, Daniil Sokolov, Anastasia Gracheva, Artur Almukhametov, Natalia Korobeynikova e Artem Panichkin), mas que convergem e trazem consenso na sua fala – o amor incondicional pelo ballet.

Aorta – O ballet russo se destaca pelo mundo  a afora. Qual é o segredo?

Yuri Klevtsov (Mestre e Diretor artístico): Apesar do ballet ter sido importado da França, da Itália, a gente atribuiu a ele o nosso carácter, nosso temperamento, o ser russo em cena. A nossa tradição e sinceridade são elementos que se refletem no ballet. 

Natalia Korobeynikova (Professora): As mãos…o segredo está nas mãos. As nossas mãos são como a própria musica de Frédéric Chopin. O desempenho das técnicas de ballet é uma obrigação para todos que aparecem em cena, mas o russo conta uma historia inteira, reflete um cenário inteiro com os movimentos das mãos, a gente lê muito e incorpora a personagem.

Artem Panichkin (Professor): Sim! Temos que perceber que todos os passos que mostramos em palco contradizem a nossa composição anatómica como humanos. Você já viu os movimentos complexos de cada pedacinho dos braços e mãos? Parecem asas, as vezes, não é? (risos)

Aorta – Conte-nos sobre o dia-a-dia dos bailarinos, hábitos e tempo em palco.

Anastasia Gracheva (solistas): É uma pergunta difícil. A gente vive o ballet. O ballet é tudo que eu tenho, meu hobby e minha profissão. Quanto aos hábitos, eles são individuais, mas você pôde presenciar as nossas três horas de ensaio. É mais ou menos assim, mas por 12 horas por dia. Eu sou de Moscou, tenho 21 anos e há 11 anos vivo no ballet. Me mudei para cá, tal como muitos dos meus colegas aqui, de outras cidades grandes, para conquistar um sonho. O ballet de Moscou é muito competitivo e de difícil acesso. Vim começar de cá, com o sonho de voltar para casa um dia e fazer parte do ballet de Moscou.

Aorta –  É possível o bailarino viver apenas do ballet?

Artur Almukhametov & Daniil Sokolov (solistas): Somos unânimes na resposta. A gente respira o ballet e não pensa em outras alternativas que não seja esta, estar no palco, se tornar o “primeiro bailarino”, o solista. As outras coisas têm pouco sentido ao lado desta meta. Pode até soar estranho para as outras pessoas. Existe, às vezes, uma rivalidade, competição, para ocupar o papel principal de solista, mas não no sentido negativo, acho que é uma necessidade do ser humano ocupar lugares altos. Somos uma equipe perfeita.

Aorta – Quais são as conquistas mais altas que lhe ocorrem na memória?

Yuri Klevtsov (Mestre e Diretor artístico): Já estivemos em vários cantos do mundo. Estivemos no Reino Unido, e recentemente na China, onde o nosso ballet e muito valorizado inclusive. Mas a memória mais vívida é de quando fundamos a escola de ballet no Brasil e tive a oportunidade de dançar inúmeras vezes, com brasileira Cecília Kerche (primeira bailarina), no Rio de Janeiro.

Aorta – Planos futuros?

Yuri Klevtsov (Mestre de ballet e Diretor artístico): Passamos por várias transformações ao longo dos anos. A nossa intenção atual e futura é trazer de volta o ballet clássico, o ballet de Frédéric Chopin para os palcos, pois isso é de importância vital para cada artista de ballet.

Acredito que será alcançado e partilhado na revista Aorta. Muito obrigado pela oportunidade de presenciar os vossos bastidores. Sucessos!


Nota de rodapé: o artigo foi escrito em português de Moçambique

Por: Marcos André

Marcos André

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