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Os (res) significados da poesia nas estéticas literárias brasileiras

Explore a ressignificação da poesia nas estéticas literárias brasileiras e sua influência cultural, celebrando a tradição e a transformação.

A poesia precede à escrita. É fácil assim afirmar visto que a oralidade se antepõe a um sistema gráfico. Sendo dessa maneira, podemos apreender que a poesia é originalmente popular, vulgar, no sentido daquilo que pertence ao povo. Aproveito aqui para fazer um parêntese: a tomada de certas palavras em sentido constitutivamente pejorativo tem tirado delas sua força e necessária reverência. E não se assuste ao ler isso, pois nosso próprio idioma é derivado do latim sonante nos campos, portos e feiras pela plebe. Se isso causa algum incômodo em quem nos lê, saiba, não há demérito nenhum em termos vindo de onde viemos… pois aqui chegamos. E nossa história é poesia da cabeça aos pés.

No dia 31 de outubro, aqui no Brasil, celebramos o dia da poesia por ocasião do nascimento de Drummond, um dos poetas mais queridos por tocar em temas tão próximos de todos nós. Ora como um afago em um dia difícil, ora como um tapa para nos acordar de um sonho implantado. Assim é Drummond em “Sentimentos do mundo”. Assim sou eu e você em nossa lida diária conosco e com os outros na trova constante do querer “(cre) s(c)er”.

É o próprio Carlos quem dá uma das melhores definições do que seria poesia: tudo o que nos rodeia. Essa matéria na qual tocamos, a qual inalamos e nos afeta é o bastante, porém não é o suficiente.

Também é o Drummond quem diz que por meio do conhecimento literário e da linguagem é que se faz o poema, o registro gráfico da poesia. Tem-se, assim, o texto e o assunto. Faz-se necessário, então, compreender que conhecimento é esse que permite a celebração das letras em sua dança polissêmica.

A estética literária pode ser explicada, de modo crasso, como a apreensão que se faz de um texto e das reações que ele nos causa. A grande parcela dos poemas registra em si não somente as palavras, mas também todo o peso que elas possuem em dado momento histórico. Assim, elementos como contexto de produção são importantes para a análise da estética de um texto literário. Afinal, se hoje compomos o que compomos é porque o vivemos. A observação do que nos circunda é matéria e registro.

A cada acontecimento de relevância, a cada geração que pisa nesta Terra, res(significamos) comportamentos e ideologias. Logo, se a sociedade muda, muda também o poema. O poeta muda, sua percepção se expande ou se contrai, e a poesia tem seu significado alterado. Por isso, temos uma série de “escolas literárias”, as quais alguns privilegiados têm a oportunidade estudar no ensino médio, que representam não somente estórias, mas a História. Política, Sociologia, Filosofia… são inúmeros os elementos que interferem na ciranda do tempo e na produção poética.

E é neste desenrolar temporal que entendemos como chegamos até aqui. Quem não conhece sua história não é capaz de valorizar aquilo que tem ou que pode vir a ter… por isso, acessar o conhecimento linguístico e literário é tão fundamental para quem escreve. Sem ele, o que se produz não traz sentidos, nem aconchego, sequer um tapa sustenido, acidental.

Até mesmo o Parnasianismo, que muitos consideram “sem graça”, sem sentidos ou evocação de sentimentos, guarda em si uma dura crítica: a de valorizar o intelecto e a beleza que nele há e esquecer que se há inteligência não é para que ela sirva de (à) elitização, mas sim de bandeira de luta pela democratização de saberes. Desse modo, não é somente o Realismo de Machado, o Simbolismo de Cruz e Sousa ou o Modernismo do Drummond que reverberam o poder transformador que a poesia transcrita em versos pode escancarar; nas obras com inícios, meios e finais felizes há muitas entrelinhas que olhos desatentos podem invisibilizar. 

Em cada passo histórico que damos, inclusive hoje, podemos ressignificar as palavras. Podemos observar a poesia e fazer textos “eruditamente populares”, carregados de uma estética que não defina um Brasil como um país inculto, mas sim um lugar no qual se produz literatura e arte que honra sua ancestralidade desde o latim até a última flor de lácio em todo seu potencial (trans)formador.

Por: Tau Paixão

Tau Paixão
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Last modified: 10/07/2024

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